Capítulo 36 - Engolindo o Orgulho

1692 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF O bipe agudo do monitor cardíaco não parava, mas não era esse som que estava me enlouquecendo. Era o coração dela. Minha audição de Alfa captava o som abafado do outro lado da parede da emergência. Um batimento oco, arrastado e úmido. Tum... Um silêncio torturante de três segundos. ... Tum. Era o som de um coração desistindo. Um músculo esmagado pela exaustão, que já não tinha mais forças para continuar batendo. O cheiro de éter e antisséptico barato do corredor não conseguia mascarar o horror. Minhas mãos, minhas roupas... tudo ainda fedia ao sangue dela. O sangue da minha fêmea. Gideon, meu lobo, arranhava as paredes da minha mente, uivando de dor a cada falha no batimento dela. Ele queria uma carnificina, mas nenhuma morte curaria o corpo dela. A porta da sala de emergência se abriu com um solavanco. Rafael saiu, arrancando a máscara do rosto. As luvas dele estavam manchadas de vermelho. — Ela estabilizou — Rafael rosnou baixo, os ombros caídos pela exaustão. Ele encostou na parede fria do corredor, esfregando o rosto suado. — Mas o corpo está colapsando de dentro para fora. É uma bomba-relógio, Gabriel. Eu travei a mandíbula. Meus dentes rangeram com uma força que ameaçava trincar o osso. — Eu não sei até quando ela vai aguentar e sinceramente se fosse outra já teria morrido, ela tá lutando pra viver... — Rafael continuou, a voz rouca, carregada de um assombro real. Engoli a dor até a garganta rasgar. Lobos não choram sob o sangue de suas parceiras, eles cobram a dívida derramando o de outro. Virei as costas e marchei pelo corredor, o som pesado das minhas botas ecoando no silêncio do hospital. — Aonde você vai? — ouço Rafael perguntar, a voz tensa atrás de mim. Não me viro. A fúria cega não me permitia parar. Apenas respondo antes de empurrar as portas da saída: — Estou indo resolver essa situação. Não vou ficar parado vendo ela morrer. O ar gelado da madrugada bateu no meu rosto, mas não esfriou o incêndio que me consumia. Dirigi até a delegacia quebrando todos os limites de velocidade. Como esperado, Dante estava de plantão. Cruzei as portas automáticas esmagando a sola da bota no piso. O clima no saguão inteiro congelou imediatamente. — Comandante... — Asher Blackwolf, meu primo, me cumprimentou surpreso. Ele ainda era cabo, mas já despontava como um dos grandes nomes em ascensão na nossa força. — Onde está aquele saco de bosta? — rosnei, sem rodeios. Asher não precisou perguntar de quem eu falava. Minha inimizade com Dante Leone era lendária desde a nossa infância. Brigas incontáveis. Ele sempre protegido pelo grupinho dele, e eu pelo meu. Para piorar, o desgraçado teve a audácia de seguir a mesma profissão que eu. Limpou a própria ficha criminal contratando advogados abutres que acharam falhas na investigação policial. Eu sabia a verdade. Sabia que a inocência dele não era verídica. Mas o filho da p**a não se importava nem um pouco que todos o odiassem. — O Tenente Leone tá na sala de operações... — Asher respondeu, a postura rígida. Ele m*l tinha terminado a frase. Eu já marchava pelo corredor como um carrasco em direção à forca. Arrombei as portas de vidro fosco da sala de operações. As dobradiças estalaram, cedendo à minha força bruta. Ele estava debruçado sobre a mesa tática. Ao me ver passar pela porta, Dante se levantou imediatamente. A postura tensionou. Apesar de me odiar com cada fibra do corpo dele, ele sabia que ali, dentro daquela delegacia, eu estava acima dele. A hierarquia pesava sobre o pescoço dele como uma coleira de ferro. — Comandante — ele cumprimentou, sem fazer a mínima questão de esconder o asco na voz. Os olhos verdes dele me mediram com desprezo gélido, carregado de anos de disputas m*l terminadas. Eu não parei de andar. Cruzei o espaço entre nós com passadas de predador. — Ela está morrendo — disparei. Minha voz soou como brita esmagada. Dante travou. A pose de desprezo de Dante oscilou. A máscara de arrogância trincou no mesmo segundo. Ele travou, os músculos do maxilar saltando. — O quê? Ela foi atacada de novo? — Dante disparou. O verde nos olhos dele escureceu com um pânico imediato e cru. Minha mente travou. O lobo dentro de mim rosnou, farejando a peça que faltava naquele quebra-cabeça doente. — Atacada? — O rosnado rasgou a minha garganta, ignorando qualquer patente. — Do que caralhos você está falando? Dante piscou, a confusão de repente espelhando a minha. A postura forçada de subordinação sumiu, engolida pelo instinto. — Do que você está falando, Blackwolf? Puxei o ar com dificuldade. O oxigênio parecia feito de vidro moído descendo pelos meus pulmões. Já era um inferno estar na mesma sala que ele. Saber que eu estava ali para fazer a pior escolha da minha existência — entregar a minha mulher nas mãos do homem que eu mais odiava — estava me rasgando por dentro. Mas eu não imaginava que seria tão insuportável. Minha pele queimava com a necessidade física de arrancar a cabeça dele. — Você é burro, Leone? — sibilei, dando mais um passo na direção dele, a fúria tremendo nos meus punhos fechados. O maxilar dele travou. Um músculo saltou na linha da mandíbula, e ele não recuou um único milímetro. — Não mais do que você — ele cuspiu de volta, o ódio vazando entre os dentes. Se fosse em qualquer outro momento eu já teria quebrado os dentes dele no soco. Mas eu não tava com tempo pra inimizades. Porém oque ele falou me chamou atenção. — Que ataque, seu merda? Me explica isso! — exigi. Minha aura de Alfa expandiu pela sala, pesada e sufocante. Eu forcei o domínio no ambiente, mesmo sabendo da verdade amarga: o poder dele estava maior que o meu. Pelo menos, por enquanto. Ele me encarou, irritado, os músculos do peito subindo e descendo. — Outro dia, no bar, enquanto eu e ela bebíamos... conversávamos aí... Minha carranca fechou. O ciúme desceu queimando pela minha garganta como ácido. Meus punhos cerraram com tanta força que as garras rasgaram a pele das minhas palmas. Eu estava a um triz de socar a cara dele até desfigurá-lo. — Sem detalhes porra... — rosnei, o interrompendo bruscamente, incapaz de ouvir mais uma sílaba sobre os dois juntos. Dante engoliu em seco. A postura defensiva tensionou os ombros dele. — Eu deixei ela sozinha pra ir ao banheiro. Quando voltei, tinha um maluco arrastando a Júlia pra floresta. Ele bateu na cabeça dela... Eu corri. Lutamos, mas ele fugiu. O sangue ferveu nas minhas veias. A imagem da minha fêmea sendo machucada e arrastada enquanto esse lixo estava no banheiro me fez rosnar alto. — Você é um maldito incompetente — cuspi as palavras, o nojo revirando meu estômago. O maxilar de Dante travou. Os olhos verdes faiscaram, mas havia algo a mais ali. A culpa estava escancarada, misturada com a arrogância de sempre. — Ele era mais forte que eu... — ele confessou a contragosto, o orgulho ferido pingando em cada palavra. — E você já pegou as imagens do bar? — exigi, a voz áspera arranhando minha garganta. — Mas é claro, né? — Dante debochou, girando o monitor tático na minha direção. — Porém, não dá pra ver o rosto. Ele tá completamente vestido de preto. Máscara preta. Olha. A tela brilhava com o looping infinito do meu pior pesadelo. Júlia estava sentada. Sozinha, por culpa daquele i*****l. De repente, um maldito surgiu das sombras das árvores. Ela m*l conseguiu se mover antes do golpe covarde. O corpo dela desabando, desacordado contra a mesa, fez minha visão escurecer. Gideon arranhou o fundo da minha mente, uivando de fúria pura por vê-la ser machucada daquele jeito e eu não estar lá para estraçalhar o desgraçado. E tudo isso acontecia enquanto eu ouvia um monte de baboseiras da Jade. A culpa tinha um gosto amargo na minha boca. — Acredito que ele matou aquela primeira mulher — Dante continuou, o tom ficando sombrio. — Não conseguiu levar a Júlia e achou uma substituta. Ele pausou, os olhos verdes me encarando com uma gravidade rara. — Na sua ausência, outro corpo foi encontrado na praia. E tem pior, Blackwolf. Ela tinha as mesmas características da Júlia. É bizarro. Não era uma cópia, mas o mesmo tipo, sabe? O cabelo, o corpo... — Continua descrevendo a p***a do corpo da minha mulher e eu r***o sua garganta aqui mesmo — ameacei, um rosnado letal vibrando no meu peito. Dante recuou meio passo, a postura rígida. — Eu só estou te passando as informações, seu merda! — ele retrucou, o ódio vazando na voz. — Que seja... — triturei as palavras entre os dentes, apertando os punhos até sentir o sangue escorrer pelas palmas. — Continue a investigação. Se ele chegar perto dela de novo, eu te mato. Virei o rosto, puxando o ar com dificuldade. Meus pulmões pareciam cheios de cinzas. Aquilo era um maldito pesadelo. Além dela estar morrendo no hospital por minha causa, por culpa da minha rejeição, ainda tinha um psicopata doente à solta querendo a vida dela. Fechei os olhos por um segundo. Quando os abri, minha visão estava afiada. Fria, morta e absolutamente decidida. — Mas não foi para falar de assassinos que eu vim aqui — minha voz caiu uma oitava, cortante e sem emoção. O silêncio na sala de operações ficou tão denso que poderia ser rasgado com uma faca de prata. Dante estreitou os olhos verdes. A postura defensiva voltou com força total. O instinto dele gritava que havia algo muito pior do que um assassino rondando aquela conversa. — Então o que você quer de mim, Blackwolf? — ele rosnou, o maxilar trincado. Dei um passo à frente, invadindo o território dele. O ar congelou ao nosso redor. Gideon arranhou minha garganta por dentro, implorando para que eu rasgasse a jugular do desgraçado ali mesmo. Mas o som do coração de Júlia falhando no monitor me forçou a engolir meu orgulho. O silêncio no ambiente ficou denso, cortante.
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