Capítulo 20 - O erro do herdeiro

1547 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF Abri os olhos devagar, sentindo cada músculo do meu corpo como se tivesse sido moído por uma prensa hidráulica. A luz que invadia as janelas da mansão feriu minhas pupilas, forçando-me a piscar várias vezes contra a ardência. Eu não estava mais no concreto frio do subsolo. Estava no meu quarto, sobre os lençóis de seda que agora pareciam estranhamente impessoais. Por um segundo, o pânico subiu pela minha garganta — o pavor visceral de que o que aconteceu ontem tivesse sido apenas um delírio febril da maldição. Procurei por ela com o olhar, o coração batendo pesado contra as costelas. Júlia estava ali, sentada em uma poltrona perto da janela, observando o jardim. O alívio me atingiu com tanta força que quase perdi o fôlego. Ela estava viva. Ela não era um cadáver estendido na areia. — Júlia... — minha voz saiu rouca, destruída pelo esforço da noite anterior. Ela virou o rosto devagar. Seus olhos, antes transbordando desespero no subsolo, agora estavam opacos. Frios. Ela não correu para a cama. Não sorriu. Apenas assentiu levemente, como se estivesse cumprindo uma obrigação contratual exaustiva. — Você acordou. Vou pedir para servirem o café — ela disse, levantando-se com uma elegância altiva que me manteve à distância. Descemos para o café em um silêncio que doía mais do que os ossos quebrando. Na mesa, ela agia com uma polidez gélida. Cada vez que eu tentava buscar o olhar dela, ou toca-lá encontrava uma parede de vidro intransponível. Eu sabia o motivo. Cada célula do meu corpo me lembrava que eu tinha assinado aquela porcaria de divórcio. Eu a tinha jogado fora. E o "te amo" que ela sussurrou na cela parecia ter ficado trancado lá embaixo, junto com a fera. Após o café, Júlia retirou-se sem dizer uma única palavra. Após o café, Júlia retirou-se sem olhar para trás. Tentei segui-la. — Júlia... — Deixe ela ir, Gabriel — a voz do meu pai cortou o ar como uma lâmina. Era domingo, e o complexo da Mansão Blackwolf estava barulhento. O domínio do meu pai era imenso — três mansões monumentais encarando o mar da Costa da Lua — e hoje o jardim principal estava tomado pela alcateia para um churrasco em família. O cheiro de carne assada e as risadas dos Ashworth, Mykonos, Salazar e Donavan e os recém-chegados Starlights preenchiam o ar, mas eu me sentia um estrangeiro naquele solo. Passei a manhã tentando encontrar Júlia. Ela circulava entre os grupos com uma elegância silenciosa, conversando com as irmãs e com minha mãe, Babi. Ela não agia como a dona da casa, aquela era a casa da minha mãe — mas a presença dela impunha mais respeito do que qualquer título. Júlia era o centro gravitacional, e eu era apenas o satélite que ela se recusava a notar. Fui até o cooler pegar uma cerveja, precisando de algo gelado para aplacar a queimação na garganta. No momento em que me virei, meu pai bloqueou meu caminho. Nathanael não parecia feliz; o Alfa soberano tinha aquele olhar que atravessava armaduras. — Pode ficando aqui, que você vai me ouvir agora — ele sentenciou, a voz baixa, mas absoluta. Meus irmãos, primos e tios que estavam por perto, se entreolharam imediatamente. Miguel deu um passo à frente e colocou a mão no meu ombro, com um sorriso de canto que eu conhecia bem. — Tá fudido — ele sussurrou e soltou uma risada baixa. — Pode deixar que eu vou no seu enterro — zombou Gustavo, meu tio, passando por nós. — Eu vou sentir sua falta — diz Killian, meu primo, rindo enquanto se afastava. Eu revirei os olhos, sentindo o peso da humilhação familiar, enquanto Daniel apenas assentia, saindo de perto para não sobrar para ele também. Soltei um grunhido de frustração. Eu sabia que ele ia puxar minha orelha. Droga, eu só queria uma chance de tentar conversar com a Júlia, de entender por que o "eu te amo" que salvou minha vida no subsolo tinha sido substituído por esse deserto de gelo. — Você fez mais uma escolha r**m, Gabriel — Nathanael começou, quando os outros se afastaram o suficiente. — Você não deveria ter voltado para a Jade. Tinha uma família e a perdeu por ser impulsivo e inconsequente. Apertei a lata de cerveja, sentindo o alumínio ceder sob meus dedos. — Eu sempre te falei que você combinava mais com a Júlia — meu pai continuou, impiedoso. — Desde pequenos, vocês dois sempre tiveram mais química. Você se achava rebelde e, para tentar me decepcionar, escolheu a Jade. Você errou, Gabriel. E agora vai sofrer por isso. A Júlia não vai te perdoar fácil. — Eu não sou você, pai — retruquei, a amargura transbordando. — Não vou ficar parado vendo ela se casar com outro homem. — Mas você está cometendo os mesmos erros que eu cometi, meu filho. Culpando a Júlia por um erro que você cometeu também. — Ele se inclinou, os olhos azuis elétricos fixos nos meus. — Então você vai ter que ficar com a Jade agora. Você a escolheu publicamente e rejeitou a Júlia. Você não pode ficar pulando de irmã para irmã, elas não são seu brinquedo. — Eu sei, pai — respondi, minha voz soando morta. — Malakai está muito doente, ele é um dos meus braços direitos, e eu não vou deixar você tratar as filhas dele assim. Eu vou repetir para deixar bem claro para você: você escolheu a Jade e terá que ficar com ela e ponto final. Vai deixar a Júlia em paz para seguir a vida dela. Olhei para o lado e vi Júlia perto da piscina, observando Bryan e Mia — os dois ainda adolescentes, felizes e apaixonados mas já com aquela aura de quem governaria tudo isso um dia. Ela parecia tão distante, tão parecida com a minha mãe naquela postura altiva e ferida. — Ela parece muito com a mamãe... — confessei, o nó na garganta quase me impedindo de falar. Nathanael suspirou, o peso de décadas de erros familiares passando por seu rosto. Ele sabia dos meus problemas com a minha mãe, sabia o quanto eu projetava nela as minhas sombras. — Você tem que perdoar sua mãe, Gabriel. Enquanto não fizer isso, vai continuar punindo a mulher que te salvou por pecados que não são dela. Como se tivesse sido convocada, minha mãe apareceu. Estava radiante, vestindo apenas um maiô com uma saída de praia que não escondia quase nada. Ela me envolveu em um abraço enquanto eu permanecia de braços cruzados. — Meu filho, que bom que você está bem — ela diz com a voz embargada de emoção. Mantenho minha postura, mas não consigo me conter e falo: — Mãe, a casa está cheia. Não consegue vestir algo mais comportado? — falo, a irritação vibrando em meu tom. Meu pai me olha já me fuzilando com os olhos. Ela dá de ombros com sua leveza habitual. — Ah, estou muito bem assim. Você já comeu algo? Quer que a mamãe prepare algo? — Não, estou ótimo — respondo ríspido. Meu pai, que estava na churrasqueira como sempre, vira para mim. A aura de Alfa dele começa a me esmagar fisicamente. — Fala com a sua mãe direito, moleque! — ele rosna. Minha mãe sente o clima pesar. Se vira para meu pai e o abraça para amansar ele, coisa que ela fazia com muita facilidade, eles eram perfeitos juntos isso Era inegável. Me lembrei das pessoas me falando no passado "você e a júlia parece tanto com a Babi e o Nathanael, a química é nítida, e serão os próximos na sucessão como alfa e luna isso é perfeito" — Amor, não brigue com ele. Ele... ele ainda está se recuperando. Minha mãe senta bem perto de mim e pega na minha mão. O toque dela em minha pele parecia navalha. Eu não queria me sentir assim, mas sentia. Eu não sei por que ela ainda insistia em ter um relacionamento comigo; ela tinha filhos o suficiente e podia me ignorar completamente, mas continuava tentando, mesmo sabendo o que eu sentia. — Meu bem, eu não entendo por que você continua se sabotando. Eu sei que você ama a Júlia. Ela é a mulher certa para você e ela ter conseguido controlar sua maldição provou isso. Por que você não se permite ser feliz com ela? Não olhei para ela. Encarei o chão, o maxilar travado de tanta raiva. "Isso é culpa sua", pensei. "Se você não tivesse se metido, eu estaria com a mulher que sempre amei de verdade". Então, o movimento na rua da praia captou meu olhar. Uma viatura parou de forma imponente. Júlia, que estava imóvel até então, começou a caminhar em direção ao portão com uma pressa que me feriu. Dante Leone saiu do carro. Fardado. Oficial. Impecável. Ele a recebeu com um sorriso, e o jeito que Júlia riu para ele — íntima, leve, entregue — fez meu sangue ferver. Levantei-me em um solavanco, a cadeira voando para trás. Um rosnado primitivo e gutural rasgou minha garganta, vibrando no meu peito como um motor desregulado. Eles estavam longe, mas meu lobo já sentia o cheiro do inimigo tocando o que era meu.
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