POV DANTE LEONE
O volante do carro parecia querer escapar das minhas mãos enquanto eu cortava as ruas da Costa da Lua a mais de cento e sessenta por hora. O cheiro de sangue de Júlia estava impregnado nos bancos de couro, misturado com o aroma de baunilha que agora parecia um aviso de morte. Pelo retrovisor, eu via o rosto dela — pálido, gelado, com o sangue grudado nos fios de cabelo.
"Eu tô aqui, meu anjo. Vou te salvar", eu prometia, mas a minha própria voz soava como uma mentira para os meus ouvidos.
Eu tinha duas escolhas. O hospital público, onde eu seria algemado antes mesmo dela entrar na maca, ou a fachada de vidro e mármore que eu jurei nunca mais atravessar.
Pisei no freio, fazendo os pneus gritarem diante do prédio chique na Avenida Central. A placa dizia "Clínica de Estética e Reabilitação Leone". Por fora, era a perfeição da medicina moderna; por dentro, era o coração financeiro da máfia da minha família, o lugar onde o dinheiro sujo era lavado entre cirurgias plásticas e tratamentos experimentais.
Eu era o herdeiro. O filho que deveria estar comandando aquele império de sangue, mas que escolheu a farda para tentar limpar a alma.
"Se eu entrar ali, eles vão me cobrar. E o preço da família Leone nunca é em dinheiro", pensei, meu peito subindo e descendo com força. Mas olhei para Júlia, desfalecida no banco do carona, e soube que não havia escolha. Era a vida dela ou a minha paz.
Saí do carro e a peguei no colo com um chute na porta. O peso dela era um lembrete constante do que eu estava prestes a perder.
Entrei no lobby. O ar condicionado estava no máximo, o cheiro de antisséptico caro e flores frescas mascarando a podridão que corria nos porões. O recepcionista de terno sob medida arregalou os olhos ao me ver — o filho pródigo, o traidor que virou policial, carregando uma mulher ensanguentada nos braços.
— Tenente Leone? — ele gaguejou, a mão indo para baixo do balcão, provavelmente alcançando um botão de pânico ou uma arma.
— Esquece a p***a do protocolo, Enzo — rosnei, chutando o balcão de mármore. — Chama o Bianchi. Agora! Se ela morrer, eu juro que queimo este prédio com todos vocês dentro.
Eu estava me arrastando de volta. Não apenas para ela, mas para o monstro que eu lutei tanto para enterrar. Enquanto os enfermeiros da máfia corriam com uma maca na nossa direção, eu senti o peso da corrente se fechando no meu pescoço.
Eu salvaria a Júlia. Mas o preço seria entregar minha alma de volta para os Leone.
O Dr. Bianchi não fez perguntas. Naquele prédio, perguntas eram perigosas demais para quem queria continuar respirando. Eu vi Júlia ser levada para trás das portas duplas de aço escovado, o branco dos lençóis sendo manchado pelo vermelho vivo do sangue dela.
Fiquei no corredor, as mãos sujas, o distintivo no cinto parecendo uma piada de mau gosto naquele lugar.
Horas se passaram. O cheiro de café caro e produtos químicos tentava me sufocar. Finalmente, Bianchi saiu. Ele limpava as mãos em um pano, o rosto inexpressivo de quem já costurou corpos muito piores. Ele me encarou por cima dos óculos, com aquele olhar de quem sabe exatamente qual ferida dói mais.
— Você pode vê-la agora, Dante — ele disse, a voz arrastada, carregada de um sarcasmo que me fez trincar os dentes.
— Ela está estável? — perguntei, ignorando a provocação.
— Está. Foi um golpe forte, mas o crânio está intacto. Ela é... resistente. — Ele hesitou por um segundo, os olhos brilhando com uma curiosidade técnica de quem encontrou um brinquedo novo. — A biologia dela é fascinante, sobrinho. O sangue tem uma regeneração que eu nunca vi em nenhum Alfa ou Beta comum. O que você me trouxe aqui, afinal?
— Ótimo. Não conte a ninguém e não faça perguntas — respondi, minha voz saindo como um rosnado seco.
Eu me virei para ir até o quarto. Eu só queria vê-la.
Queria sentir o cheiro de limão e baunilha de novo para ter certeza de que o mundo não tinha acabado.
Mas, antes que eu pudesse dar o primeiro passo, a voz de Bianchi me parou, fria como o metal de uma mesa de autópsia.
Lá dentro, o Dr. Bianchi — meu tio e o médico que já viu mais sangue do que qualquer açougueiro — não perdeu tempo com delicadezas. Ele era um Leone até a medula: sarcástico, frio e oportunista.
Júlia começou a recobrar os sentidos sob a luz forte da sala de observação. Bianchi a encarava com um sorriso que nunca chegava aos olhos.
— Júlia Montserrat ou Blackwolf? — ele perguntou, a voz cortante como um bisturi.
— Montserrat — ela respondeu, a voz fraca, um fio de som que fez meu peito apertar.
— Quantos dedos tem aqui? — O Dr. levantou a mão, testando a consciência dela.
— Dois — ela murmurou, tentando focar a visão.
— Bom... — Bianchi se virou para mim, o sorriso sarcástico se alargando. — Parece que, Júlia, o inferno de Dante voltou para a vida dele.
Júlia me olhou. Havia uma angústia profunda naqueles olhos âmbar, uma sombra de culpa que me atingiu mais forte do que qualquer golpe físico. Ela sabia o que a presença dela ali significava para mim.
— Já chega. Ela está bem, então podemos ir? — rosnei para ele, o som vibrando do fundo do meu peito, um aviso claro de que meu lobo estava no limite.
— É, acho que podem... — ele deu de ombros, indiferente. — Ela está medicada, creio que vai dormir em breve.
Aproximei-me da maca e a ergui nos braços. Júlia não protestou; ela se aninhou contra o meu peito, exausta. Antes que cruzássemos a porta, senti a mão pesada do meu tio no meu ombro. O toque era frio, um lembrete de que ali ninguém recebia nada de graça.
— Isso terá um preço — ele sussurrou perto do meu ouvido.
— Eu sei — respondi sem hesitar, sentindo o peso invisível das correntes da minha família se fecharem novamente nos meus pulsos.
Virei as costas e saí dali. Caminhei pelo lobby luxuoso com ela nos braços. O rosto de Júlia estava escondido entre o meu peito e o meu pescoço, e eu podia sentir a respiração morna dela contra a minha pele, um contraste vital com o gelo que subia pela minha espinha.
"Entreguei minha alma para o d***o de novo", pensei, enquanto a porta automática se fechava atrás de nós, selando o pacto.
A coloco no banco do carro com todo o cuidado que meu tamanho permitia. Ela estava mole, o corpo pesado pela medicação, mas a pele já começava a recuperar o calor natural.
— Dante... — ela sussurrou, a mão tateando fracamente o meu braço. — Não pode me levar para eles... não quero que me vejam assim. Por favor.
Ela não queria os Montserrat. Não queria o julgamento de Gabriel ou a piedade da alcateia. Ela queria sumir.
— Tudo bem... — respondi, fechando a porta dela e dando a volta no carro.
Entrei no banco do motorista e encarei o volante por um segundo. Para onde ir? A resposta estava clara no meu instinto, mesmo que a razão gritasse que era um erro.
Minha casa.
Liguei o motor e acelerei. Eu a levaria para o meu santuário, o lugar onde o Tenente Leone e o pai de Matteo tentavam viver em paz. Um lugar onde, por algumas horas, ela seria apenas minha. E o preço? O preço eu pagaria depois, mesmo que isso custasse o resto da minha alma.
Liguei o motor e acelerei. Eu a levaria para o meu santuário, o lugar onde o Tenente Leone e o pai de Matteo tentavam viver em paz. Um lugar onde, por algumas horas, ela seria apenas minha. E o preço? O preço eu pagaria depois, mesmo que isso custasse o resto da minha alma.
O trajeto foi silencioso, quebrado apenas pelo som baixo do motor e pela respiração pesada de Júlia ao meu lado. Quando estacionei na minha garagem, o peso da realidade me atingiu, mas o instinto de protegê-la era maior.
Eu a carreguei para dentro, subindo as escadas devagar. Meu quarto era simples, funcional, o oposto do luxo estéril da clínica. Coloquei-a sobre a cama e, com movimentos cuidadosos, ajudei-a a se livrar das roupas sujas de areia e sangue seco. Eu tentava não olhar demais, tentava manter o profissionalismo do homem que eu fingia ser, mas cada centímetro da pele dela era um território que meu lobo reconhecia como seu.
— Precisa de mais alguma coisa, Júlia? — perguntei, minha voz saindo rouca enquanto eu me preparava para sair e deixá-la descansar.
Antes que eu pudesse me afastar, a mão dela, pequena e trêmula, segurou meu braço. Os olhos dela estavam fechados, já mergulhados na névoa da medicação e da exaustão.
— Dante... não me deixa sozinha. Por favor — ela pediu, a voz quebrada, embargada de uma dor que ia muito além do ferimento na cabeça.
Aquele pedido foi o meu xeque-mate.
Eu não conseguia deixá-la. Não depois de quase perdê-la. Tirei minha roupa, ficando apenas de cueca, e deitei ao lado dela. No momento em que meu corpo tocou o colchão, Júlia se aconchegou em mim, buscando o meu calor como se eu fosse a sua única âncora no mundo.
Senti a pele dela contra a minha, o calor subindo e estabilizando. Ela vestia apenas uma camisa minha que ficava enorme nela, e o toque das suas pernas nas minhas era um teste c***l para a minha sanidade.
"Acho que, quando acordar amanhã, isso tudo terá sido apenas mais um sonho com ela", pensei, fechando os olhos e enterrando meu rosto no cabelo dela.
O cheiro de limão e baunilha, agora misturado ao meu próprio cheiro, me invadiu. Pela primeira vez em anos, meu lobo silenciou, satisfeito. Eu estava exausto. O peso do dia, da luta e do pacto com o d***o finalmente me venceu.
Dormi sentindo o coração dela bater contra o meu, sabendo que, embora o amanhã trouxesse a guerra, hoje à noite... ela era minha.
Lá dentro, os dois pegavam no sono, os corpos aquecidos um pelo outro. Mas lá fora, o mesmo ser que atacou Júlia observava. Ele os seguiu até ali, acompanhou cada passo como um sentinela, esperando o momento certo de atacar sua presa novamente.