POV DE GABRIEL BLACKWOLF
O vento salgado da praia batia contra o meu focinho, mas o cheiro que eu rastreava era sujo.
Fedia a cães sem matilha. Suor barato, ganância e medo. Não era o cheiro do mascarado.
"Ele não sujou as próprias mãos. O covarde contratou mercenários para roubar o meu sangue." — o ódio de Gideon ferveu.
O ar mudou antes mesmo de dobrarmos a esquina da Avenida Beira Mar.
Fedia a sangue, metal retorcido e a algo muito pior. Uma magia obscura, pesada e asfixiante, que fez Gideon recuar dentro da minha mente.
A visão que tivemos ao virar a esquina foi aterrorizante e aliviante ao mesmo tempo.
Os SUVs dos mercenários não haviam apenas batido. Eles foram arremessados, esmagados e partidos ao meio como brinquedos de plástico.
A avenida estava banhada em sangue.
Todos os doze homens estavam mortos.
Desmembrados. Partidos ao meio. Pedaços de carne e vísceras decoravam o asfalto.
E no centro da carnificina, estava ela. Béris a loba Quimera de minha mãe Babi, metade preta e metade dourada, um olho vermelho e um olho dourado, uma visão linda e ao mesmo tempo aterrorizante.
Uma nuvem de escuridão rodopiava ao redor da minha mãe. Pequenos raios sombrios estalavam no asfalto onde as patas gigantescas da loba dela pisavam.
Os nossos lobos Deltas, máquinas feitas para a guerra, estavam todos paralisados.
Congelados de pavor e respeito, assistindo a rainha deles terminar o serviço.
Minha mãe não era uma loba comum.
A morte tentou levá-la ainda no ventre, mas o lago sagrado durante um eclipse a devolveu com um dom amaldiçoado: ela absorvia poder.
O poder Alfa de Nathanael e a letalidade do Gama que a marcou depois. Tudo corria nas veias daquela quimera coberta de trevas.
Nós a assistimos arrancar a cabeça do último mercenário com a boca. O som da coluna quebrando ecoou pela rua inteira.
A escuridão recuou, sugada de volta para a pele dela enquanto a transformação retrocedia.
Os ossos estalaram. Ela voltou à forma humana, completamente nua e banhada em sangue da cabeça aos pés.
Foi só então que eu vi Cassian. Meu filhote estava agarrado às costas dela, os bracinhos finos sujos de vermelho.
Nós estávamos a uma distância que nenhum civil comum na avenida conseguiria distinguir o que estava acontecendo. Veriam apenas vultos sangrentos sobre ferragens.
Mas meus olhos de Alfa focaram na figura da minha mãe caminhando. Eu via tudo com clareza cristalina.
Cada detalhe.
Inclusive o mercenário no chão que tentou se mexer, engasgando no próprio sangue. O infeliz estava vivo. E ele estava cego de ódio.
O homem saltou. Com as garras prontas. Mirando as costas da Babi, exatamente onde Cassian estava agarrado.
"CASSIAN!" O grito mental de Gideon rasgou a minha mente, paralisando o meu próprio coração.
Eu estava longe demais. Eu não ia chegar a tempo. Meus músculos travaram no meio do salto. O pânico de Alfa foi tão violento que o ar fugiu dos meus pulmões.
Mas Babi não era uma fêmea comum.
Em uma velocidade anormal, algo que desafiava a própria biologia lupina, ela girou.
Sem soltar Cassian, ela derrubou o homem no asfalto com um soco no peito que quebrou todas as costelas dele de uma vez. O som metálico e seco ecoou pela avenida.
Gideon parou a perseguição mental. Eu estanquei na calçada, aterrorizado e aliviado, assistindo a Luna da Matilha Blackwolf assumir o comando da morte.
Babi caminhou até o homem, agora gemendo no chão. Ela estava com uma frieza de gelar o inferno.
Em forma humana, ela pisou no peito do mercenário, prendendo-o ao asfalto. Agarrou os cabelos dele e, com um puxão brutal, arrancou-lhe a cabeça.
O som da coluna quebrando foi um trovão no meu link mental.
As pessoas que assistiam de longe, aterrorizadas, começaram a recuar em pânico.
Lobos de matilhas menores que passavam pela avenida pararam, em choque.
Um por um, eles penderam a cabeça para o lado, expondo seus pescoços. Um ato de submissão absoluta da nossa espécie à fúria daquela fêmea.
Ela não era apenas a Luna. Ela era a morte personificada.
Minha mãe continuou caminhando na nossa direção.
Ela segurava a cabeça degolada em uma mão e um braço decepado na outra, ambos jorrando sangue no asfalto.
Cassian continuava agarrado ao pescoço da avó.
Quando meu filho levantou o rosto para me olhar por cima do ombro dela, o que vi me paralisou.
Não era medo. Não havia um pingo de pavor naqueles olhos de sete anos.
Havia raiva. Uma fúria fria e calculista que me arrepiou a espinha.
Soltei o ar em um suspiro trêmulo, meus joelhos quase cedendo.
— CASSIAN! — gritei, correndo na direção deles.
Cortei a distância em segundos. Assim que cheguei, minha mãe tirou Cassian das costas e o entregou para mim.
Minhas pernas desapareceram. Caí de joelhos no asfalto encharcado, esmagando o corpo minúsculo dele contra o meu peito nu.
O tecido macio sob as minhas mãos arranhadas me deu um soco no estômago. Cassian ainda usava o pijama de dormir.
O oxigênio virou vidro moído na minha garganta. Eles o arrancaram da própria cama. De dentro da minha fortaleza.
Enterrei o rosto no pescoço dele, misturando o cheiro de sabonete infantil com o sangue da morte.
Trinquei o maxilar até os dentes estalarem, engolindo o meu grito de volta para o inferno.
— Ele está bem, querido. — a voz da minha mãe saiu calma, manchada de morte. — Ninguém leva meus netos debaixo do meu nariz.
— Eu só deixei que nos levassem para afastar o perigo e garantir que Connor fosse socorrido. — ela completou, sem qualquer remorso.
Agarrei meu filho. Eu o abracei tremendo, apertando o corpinho dele contra o meu peito nu, as lágrimas misturando com a sujeira do meu rosto.
Meus nervos doíam de tanta tensão. O examinei freneticamente em busca de qualquer arranhão. Ele estava ileso.
Fechei os olhos, o alívio me esmagando, enquanto uma certeza aterrorizante cruzava a minha mente:
"Se Júlia acordar e ver os dois machucados..."
— Eles machucaram meu irmão, eu não consegui salvar ele pai, quero machucar eles. — Cassian me falou de forma sombria e fria.
Tão fria que as palavras não pareciam sair da boca de uma criança de sete anos. O cheiro de terra, sangue e pura fúria exalava do corpo dele.
— A vovó matou eles, querido. Ninguém toca nos meus netos e sai ileso. — Babi sussurrou para Cassian.
Ela ainda respirava de forma acelerada quando meu pai a envolveu nos braços. Nathanael não se importou com o sangue que cobria a pele dela.
— Você está bem, amor? — ele perguntou, a voz grave falhando pela primeira vez na noite.
— Vou ficar quando meu neto estiver fora de perigo. — a voz dela era uma lâmina afiada. — Vamos para o hospital.
Eu segurei o rosto dele entre as minhas mãos grandes e trêmulas. O sangue dos mercenários manchava as bochechas pálidas do meu menino.
Os olhos de Cassian estavam escuros. O lobo dele, mesmo tão jovem, já estava rosnando na superfície.
Ele exigia retaliação pelo gêmeo ferido. O laço de sangue entre eles estava sangrando.
— Nós vamos cuidar disso, filhote. — minha voz saiu como um rosnado baixo, uma promessa letal. — O seu irmão é um Blackwolf. Ele é forte.
Cassian não chorou. Ele não tremeu. Apenas acenou com a cabeça uma única vez, aceitando a minha promessa como um pacto.
Minha mãe parou ao nosso lado. Ela não tentou limpar o próprio rosto banhado em sangue. Apenas estendeu a mão para o neto.
— Vamos ver o Connor. — a voz de Babi não era a de uma avó carinhosa. Era a de um general reunindo suas tropas.
Eu me levantei, ainda com Cassian apertado contra o meu peito.
Dominic Guerra se aproximou em silêncio e jogou um casaco tático pesado sobre os meus ombros, cobrindo a minha nudez.
Caminhamos até os SUVs blindados que já aguardavam com os motores rugindo.
O susto visceral de pensar que eu poderia perder meu menino corroía as minhas entranhas como ácido.
— Quem será que fez isso? — Nathanael rosnou enquanto abria a porta do carro.
— Não sei, mas nós vamos descobrir. — minha mãe respondeu, fria como o inverno.
— Eu só matei os que estavam aqui. Mandei uma mensagem para Santiago não matar os sobreviventes da mansão. Queremos respostas.
Meu pai acenou em concordância. Os olhos azuis brilhando em aprovação letal. — Vamos descobrir quem fez isso... e ele irá se arrepender de tocar na nossa família.
Ali estavam o Alfa e a Luna da Alcateia Blackwolf. Implacáveis. Sombrios. Poderosos.
Bati a pesada porta blindada e pulei para o banco do passageiro da frente.
Mas o carro m*l havia começado a andar quando uma mensagem desesperada rasgou a minha mente através do link da matilha.
"O filhote está em parada cardíaca!"
O ar sumiu violentamente dos meus pulmões. O mundo inteiro girou e perdeu a cor.
Ao meu lado, Killian rosnou, o maxilar trincando até os ossos estalarem, e afundou o pé no acelerador com força bruta.
O SUV rasgou a noite de Costa da Lua, nos levando direto para o maior pesadelo que um pai poderia enfrentar.