POV GABRIEL BLACKWOLF
O mundo não parou. Ele simplesmente deixou de existir. As palavras do policial ainda ecoavam no café da manhã quando eu já estava correndo em direção à praia, meus pés afundando na areia que parecia querer me engolir.
Ao longe, a fita isolante amarela e o movimento de homens fardados cortavam a beleza da manhã como uma cicatriz. Eu vi a barreira humana antes de ver o que ela escondia.
O Comandante Emmett Blackwolf, meu superior, meu tio e o homem que eu deveria suceder, deu um passo à frente. Ele me segurou pelos ombros com uma força que apenas um Gama sênior possuía.
— Gabriel, pare. Você precisa ser forte — Emmett falou, a voz grave e carregada de uma piedade que eu odiava.
— Não... Não pode ser... — Tentei empurrá-lo, mas minhas pernas estavam começando a falhar.
— Achamos que pode ser a Júlia.
O grito de Johanna rasgou o ar logo atrás de mim. O som foi tão agudo que pareceu quebrar o vidro do meu coração. Olhei para trás e vi Malakai, que mesmo com a saúde debilitada e o rosto pálido, segurando a esposa enquanto ela caía de joelhos na areia, desabando sob o peso da dor.
Nathanael, meu pai, se aproximou. Ele segurou meu braço com firmeza, tentando me impedir de romper a barreira dos guardas. Mas eu conseguia ver. Por cima dos ombros dos oficiais, o corpo estava ali.
Totalmente destruído. A violência do impacto ou das águas tinha sido impiedosa, mas os detalhes... os detalhes me mataram antes de qualquer lobo. O cabelo. Aquele tom castanho escuros, agora opaco e úmido, espalhado pela areia sem vida como ela. A curvatura do corpo, a estatura... era ela. Tinha que ser ela.
"Ela se matou", foi a única coisa que consegui pensar.
O e-mail. O divórcio. A rejeição na sala. Eu a empurrei para o abismo e ela simplesmente parou de lutar contra a queda. O cheiro de sal e decomposição começou a invadir meu olfato, sufocando o cheiro de baunilha que eu ainda tentava encontrar desesperadamente.
— Júlia... — meu sussurro foi um lamento quebrado.
Eu não era mais o Alfa. Eu não era o Comandante. Eu era apenas o homem que tinha destruído a própria Luna. A visão do corpo na areia queimava meus olhos, e a culpa — aquela dor visceral que nenhum ferimento físico superava — começou a rasgar minhas entranhas.
Eu olhei para o mar, o mesmo mar que ela tanto amava, e senti um ódio mortal de mim mesmo. Eu venci. Eu tive a Jade de volta. E o preço foi o cadáver da mulher que, sem eu saber, era a única coisa que me mantinha vivo.
Meu coração doía de um jeito que eu não achei que fosse biologicamente possível. Por dentro, meu lobo uivava — um som agudo, dilacerante, o lamento de um animal que perdeu sua metade. Eu estava no chão, as mãos enterradas na areia, lutando para não desmaiar enquanto o mundo rodava em tons de cinza.
— Nós vamos levar o corpo para o IML — a voz do oficial soou distante, abafada pelo zumbido nos meus ouvidos. — Mas eu cheguei perto e vi. Conheço ela desde que nasceu, sei que é ela... o cheiro é o dela... mas a brutalidade do ataque foi muito forte, está dificultando a identificação precisa.
— Ataque? — Nathanael, meu pai, perguntou com a voz trêmula. Ele me segurava de um lado, enquanto Gustavo, meu primo e melhor amigo, me sustentava do outro. Se não fossem eles, eu teria me tornado parte daquela areia.
— Sim. Ela não se jogou. Alguém a golpeou muitas vezes. Ela foi assassinada.
A palavra "assassinada" foi o golpe de misericórdia. O mundo parou de rodar e congelou. O choque de saber que alguém encostou nela, que alguém a feriu enquanto eu estava na mansão tentando fingir que amava outra mulher, foi como uma lâmina quente atravessando meu crânio.
— Eu posso ajudar na identificação do corpo. — ouço a voz de Rafael atrás de mim.
Babi, minha mãe, aproximou-se em prantos. Ela se ajoelhou e me envolveu em um abraço desesperado.
— Meu filho... você precisa ser forte. Pelos meninos... — ela soluçava contra o meu pescoço.
Normalmente, eu a repelia. O contato físico dela sempre me sufocou, mas agora... eu não tinha forças.
Minha resistência tinha morrido junto com a mulher naquele saco de cadáver. Meu mundo tinha acabado.
Meus olhos estavam arregalados, fixos no nada, a dor no peito sendo tão profunda e visceral que eu sentia como se minhas entranhas estivessem sendo arrancadas uma a uma.
Eu não conseguia chorar. Eu só conseguia sentir o vazio. Um vazio que cheirava a morte e a castanho escuro molhado. Eu era o Futuro Alfa da Alcateia Blackwolf, o próximo Comandante, e eu tinha deixado a mãe dos meus filhos ser caçada como um animal.
A culpa não me consumia. Ela me dilacerava.
— Júlia... — meu sussurro saiu rasgado, como se minhas cordas vocais estivessem sendo fatiadas por vidro.
Então, o som do mar sumiu. Um zumbido agudo começou a perfurar meus tímpanos. Senti o primeiro estalo nas costelas. O osso se expandindo, empurrando meus pulmões. A Maldição de Sangue dos Blackwolfs, aquela que nos transforma em monstros quando perdemos nossa metade, estava acordando. E ela era lenta. Uma tortura biológica centímetro por centímetro.
— ELE TÁ SE TRANSFORMANDO, DROGA! — O grito de Nathanael cortou o pânico. — SAIAM DE PERTO! TODOS AGORA!
Vi meus irmãos, Miguel e Daniel, recuarem, mas Nathanael avançou, os olhos azuis elétricos fixos nos meus, que começavam a ser engolidos por uma mancha n***a.
— BLACKWOLFS, ME AJUDEM! — Nathanael berrou, a voz tremendo.
Meus primos — Killian, Henrique e Jhonny — cercaram meu corpo caído. Eu sentia cada um deles me tocando, tentando me conter, mas minha pele queimava como ferro em brasa. Meus dedos se alongaram, as unhas escurecendo e rasgando a areia.
— Júlia... Júlia... — Eu não conseguia dizer mais nada. Meus olhos já estavam totalmente negros, duas crateras de vazio refletindo o corpo à frente.
— Segurem ele! Rickon, Emmett! — Nathanael comandava, enquanto meus tios se jogavam sobre mim. Senti a técnica de Alaric tentando encontrar meus pontos de pressão, mas meu corpo estava se tornando algo que a anatomia lupina não explicava.
— Ele está sucumbindo... — Gustavo sussurrou, a voz carregada de horror.
Eu lutava contra eles com uma força amaldiçoada, mas não por ódio. Eu lutava porque a dor de existir sem ela era insuportável. Eu precisava chegar até aquele rastro castanho.
— Levem-no para as celas de contenção agora! — A ordem de Nathanael ecoou enquanto eu perdia a noção de quem eu era. — Ele vai levar tempo para virar por completo. Não deixem que a cidade veja o herdeiro nesse estado!
Fui erguido por dez pares de mãos. Meus irmãos e primos me carregavam como um fardo amaldiçoado. Enquanto eu era arrastado para longe da praia, minha visão n***a focou uma última vez no corpo.
Eu estava morrendo por dentro, enquanto o sol continuava a brilhar sobre o rastro castanho que eu acreditava ser o fim da minha vida.