Capítulo 27 - O Sangue da Nossa Ruína

1264 Words
POV de Gabriel Blackwolf (O Retorno ao Presente:) A lembrança do choro dela na areia finalmente se dissolveu, mas o gosto amargo daquela noite permaneceu na minha boca. Olhei para a Júlia ali, tão perto, e a verdade me atingiu como um soco no estômago: eu a tinha perdido pela segunda vez. Da primeira, foi por medo e covardia; desta vez, por mágoa e um ressentimento corrosivo que eu deixei crescer como erva daninha. Eu não a merecia. Nunca a mereci. Mas a pergunta que eu precisava me fazer, enquanto sentia o toque frio de suas mãos terminando o curativo, era se eu tinha destruído o que ela sentia por mim de vez. No fundo, eu queria acreditar que não. Se o amor estivesse morto, ela não estaria aqui, cuidando das feridas de um homem que só lhe causou cicatrizes. Eu só tinha uma escolha: ou eu a deixava ir ser feliz com alguém melhor do que eu, ou eu me tornaria o homem que ela sempre mereceu. Uma coisa era certa: Júlia era a única pessoa nesta terra pela qual eu mudaria. Ela não me encarava. Mantinha os olhos baixos, focada na gaze, fugindo de qualquer conexão. Eu não permiti. A puxei para o meu colo. Foi um movimento bruto, ignorando os protestos dos meus músculos moídos e a dor aguda no ombro. Ela resistiu, os braços rígidos contra o meu peito, o corpo vibrando em uma negação desesperada. — Gabriel, me solta! O que você está fazendo? Está todo mundo olhando... — Júlia soltou um suspiro forte, o peito subindo e descendo em arfagens curtas. Segurei o rosto dela. Meus dedos tocaram sua pele com uma urgência que eu não conseguia mais frear. — Preciso que você olhe para mim... preciso te falar umas coisas. Nossas respirações se misturaram, um emaranhado de calor e angústia. Júlia tremeu sob o meu toque. — Não... — Ela balançou a cabeça, o desespero nublando as íris amarelas. Os braços, antes tensos, relaxaram contra o meu peito em uma rendição dolorosa. Ela engoliu em seco. — Não, eu não quero ouvir. Eu sei o que você vai dizer e não quero ouvir. Não é justo! — Eu... — tentei, mas a garganta fechou. Era como tentar falar enquanto se engole espinhos. — Eu não quero que você fale! — Júlia me cortou, o rosto transformando-se em uma máscara de sofrimento puro. As lágrimas começaram a transbordar. Afastei o cabelo do pescoço dela. Deixei a pele exposta, exatamente onde deveria estar a minha marca. O lugar onde descansei tantas noites, o meu porto seguro, o paraíso que eu mesmo decidi incendiar. Dei um sorriso triste. Eu não podia mais buscar abrigo ali. — Eu te amo, Júlia Montserrat. E eu sei que não te mereço. Eu sou um lixo. A Katherine tinha razão... eu sou exatamente o que ela dizia: fraco, sem nada de bom para te oferecer. Um péssimo companheiro para você. Ela tentou desviar o olhar, mas eu não permiti. — Eu sei que você merece ser feliz e, se é isso que você quer, eu vou deixar. Mas não antes de dizer que eu te amo. Que nunca amei ninguém como amo você. Eu te machuquei muito e não posso pedir seu perdão... mas quero que saiba que, em meio a tudo de r**m em mim, você foi a única coisa boa que permaneceu. Júlia encostou a testa na minha, o corpo sacudido pelo choro. — Então por que escolheu ela? Duas vezes, por quê? — A voz dela saiu fragmentada, um som que fez meu lobo uivar de agonia. — Foi para me machucar. Nunca teve a ver com você. Você era a única coisa pura em mim e eu tive medo de te contaminar com a minha podridão. Eu te afastei para te salvar de mim. No passado e agora. Mas você não pode escolher alguém que te fira de novo, como o Arthur fez. Você tem que ficar com alguém bom. Não outro lixo como eu. Passei as mãos pelos cabelos dela, um toque carinhoso que escondia a minha própria ruína. — Você não é um lixo, Gabriel... — Júlia colocou as mãos sobre o meu peito, o hálito quente batendo na minha pele, me fazendo arrepiar. — Você não é o que aquela mulher enfiou na sua mente. Eu te conheço aqui dentro. Conheço o seu coração. Eu odeio ver você se machucando assim. — Não, Júlia. Você é boa demais para ver o quão r**m eu sou. Mas me prometa... me prometa que vai encontrar alguém digno. Eu não vou suportar se alguém te machucar de novo. Ela negava com a cabeça, as lágrimas pesadas caindo sobre mim. Aquilo era pior do que qualquer resistência física. — Eu quero que você seja essa pessoa... — ela sussurrou, sem forças. — Eu não sou. Eu só sei destruir tudo o que toco. Só tem escuridão e dor dentro de mim e eu não quero mais te arrastar para esse abismo. Quantas vezes eu posso morrer e continuar respirando?, pensei. Eu estava matando a única parte viva de mim e doía como o inferno. — Quero te agradecer por sempre ter cuidado de mim... — Minhas próprias lágrimas rolaram. Eu estava exposto, vulnerável como nunca estive antes. Só para ela. — Mesmo olhando fundo dentro do buraco que existe em mim, você continuou me amando. Obrigado por me permitir estar no paraíso um pouco. Mas agora, estou te deixando ir. Dedilhei seus lábios, circulando o contorno que tantas vezes me salvou de mim mesmo. O gosto de mel que eu amava. Eu o provaria uma última vez. A beijei. Um beijo quente, carregado de adeus. Enterrei o rosto em seu pescoço, aspirando seu cheiro, prometendo ao meu lobo ferido que nunca mais a tocaria. Nunca mais a machucaria. Nunca mais deixaria minha podridão alcançá-la. Eu estava morto, mas ela estaria livre. Eu a soltei. O vazio no meu peito era um buraco n***o, pronto para me engolir. Mas Júlia não se moveu. Seus olhos, ainda fixos nos meus, começaram a perder o foco. A respiração dela, que antes era um emaranhado de soluços, parou. Um silêncio absoluto e terrível caiu sobre nós. — Júlia? — chamei. Minha voz saiu trêmula. Uma gota vermelha e espessa escorreu de sua narina. Depois outra. O contraste do sangue contra a pele pálida dela me fez o estômago revirar. Ela tentou falar, mas o som foi abafado por uma tosse seca. O sangue espirrou em minha mão. Quente. Metálico. Real demais. — Júlia! Olha para mim! — gritei, segurando seus ombros. O corpo dela começou a vibrar. Não era um tremor de frio. Era uma energia estranha, uma pulsação que parecia vir de dentro dos ossos dela, queimando minhas palmas. O ar ao redor dela parecia estalar. — Gabriel... — ela murmurou, a voz saindo como um rastro de fumaça. Ela tossiu de novo, e desta vez, o sangue inundou seu queixo, manchando o vestido. Seus olhos reviraram. O peso dela desabou sobre mim, um corpo perdendo a vida em tempo real. O desespero me atingiu como um tiro de prata no coração. Eu queria salvá-la de mim, mas ela estava morrendo nos meus braços por algo que eu não entendia. — Alguém ajude! — meu rugido rasgou a mansão, o lobo em mim uivando em agonia pura. — JÚLIA! A energia dela me deu um choque, uma descarga de dor que me jogou para trás, mas eu não a soltei. Eu nunca mais a soltaria. Mesmo que aquela escuridão desconhecida nos matasse ali mesmo.
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