Capítulo 28 - O preço do Adeus

1442 Words
POV DE GABRIEL BLACKWOLF Meu rugido rasgou as paredes da mansão. O som do meu desespero absoluto. — ALGUÉM ME AJUDA! Eu segurava Júlia contra o peito. O sangue dela encharcava minhas mãos. Quente. Pegajoso. Metálico. A energia que irradiava dos ossos dela estalava no ar, queimando minha pele como brasa, mas eu não a soltei. Passos pesados ecoaram pelo corredor antes mesmo do meu eco sumir. A porta foi escancarada com um estrondo. Rafael foi o primeiro. Meu irmão gêmeo entrou como um furacão, a maleta médica na mão e os olhos arregalados de terror. O sangue no meu rosto. A palidez mortal dela. O ar tremendo ao nosso redor. — Pela Deusa... o que você fez, Gabriel?! — Ele rosnou, caindo de joelhos ao nosso lado. — Eu não fiz nada! — Minha voz era um latido desesperado, o lobo cego de pânico. — Ela simplesmente começou a sangrar e desabou! Tem alguma coisa errada com ela, Rafa! Salva ela! O corredor atrás de Rafael encheu em segundos. O cheiro de sangue atraiu os predadores. Meu pai, o Alfa Nathanael, apareceu na porta. Malakai surgiu logo atrás, o rosto de pedra perdendo a cor. Minha mãe, Babi, soltou um grito abafado ao ver o estado da Júlia, sendo amparada pelos meus irmãos mais novos. E então, o som que destruiu o resto da minha alma. — MAMÃE! Cassian e Connor invadiram o corredor. Os rostinhos banhados em lágrimas de puro terror. Eles tinham acabado de me ver sendo espancado pelo avô. Agora, viam a mãe coberta de sangue nos meus braços. Joannah, pálida como um fantasma, correu para segurá-los. Mas o pânico deu força aos meninos. Eles se debatiam, gritando e esticando as mãozinhas na direção de Júlia. — Afastem-se! Todos! — Rafael berrou, assumindo o controle. Ele tocou o pulso de Júlia. No mesmo instante, a energia dela chicoteou, dando um choque no meu irmão. Rafael praguejou, recolhendo a mão instintivamente. — Tragam a maca da enfermaria! Agora! — Rafael gritou para os seguranças. — Eu levo ela! — rugi. Ignorei a dor aguda que a energia da minha parceira causava nos meus músculos moídos. Ergui o corpo mole de Júlia. Ela parecia não pesar nada. Uma boneca de porcelana prestes a estilhaçar. Corremos pelo corredor. Um cortejo fúnebre e caótico. O sangue dela pingava no mármore impecável, deixando um rastro da minha ruína sob os olhares aterrorizados da elite lupina. Chutei a porta da enfermaria. Coloquei o corpo dela sobre o leito de metal com um cuidado que eu não sabia possuir. Os bipes dos monitores começaram a gritar assim que Rafael conectou os fios. O som do coração dela. Fraco. Descompassado. — Sai de perto dela, Gabriel! — Rafael rosnou, rasgando o tecido do vestido dela para colar os eletrodos. — Eu não vou sair! Ela é minha mulher! — O meu lobo latiu de volta, as garras arranhando meu peito. Rafael parou. Cravou os olhos em mim com um ódio glacial. Ele avançou e me empurrou pelo peito manchado de sangue. A força foi brutal. Os bipes dos monitores começaram a gritar assim que Rafael conectou os fios. O som do coração dela. Fraco. Descompassado. — O QUE CARALHOS VOCÊ FEZ?! — Rafael rosnou, as mãos ágeis rasgando o restante do tecido do vestido dela para examinar o peito. Júlia entrou em convulsão. O corpo frágil batia violentamente contra o metal da maca. Um som horrível de carne e desespero. Eu agarrei a mão dela com as duas mãos. Ignorei a energia que fritava minha pele. Eu não arredaria o pé dali. — Eu disse que não ia mais machucá-la. Que ia deixá-la partir! Foi só isso, era isso que ela queria, então eu disse que faria! — Papai, não! Você vai nos deixar? — o grito rasgado de Connor ecoou da porta da enfermaria. Olhei para trás. Meus dois filhos estavam agarrados ao batente da porta, assistindo à mãe convulsionar em uma poça de sangue. — Por que você tá nos deixando? Por causa da tia Jade? — Cassian soluçou, o terror esmagando os olhos azuis dele. O golpe foi duplo. Um machado cravado direto no meu coração. Eles não entendiam o peso da palavra "partir". Para a cabeça de duas crianças, eu não estava libertando a mãe deles de um laço doente. Eu estava largando a nossa família. Abandonando os três por causa da mulher que eu abracei na sala de estar. Malakai avançou com pressa. O Gama puxou os netos à força, mas com um desespero palpável. — Vamos, a gente tem que deixar a mamãe descansar, meninos... — a voz do meu sogro soou embargada, lutando para manter a firmeza. — NÃO! Me solta! Mamãe! — Cassian berrava, chutando o avô, enquanto Joannah chorava e ajudava a arrastá-los para longe. — NÃO! Eu não quero ir! Me larga! — Connor completava os berros do irmão. Eu virei o rosto. Travei a mandíbula até os dentes ameaçarem quebrar. Eu m*l conseguia olhar nos rostos dos meus filhos. Se eu os encarasse por mais um segundo, a dor de ver a imagem do pai herói virar pó me destruiria por completo. Os gritos deles sumiram pelo corredor, gravando um trauma irreversível em suas mentes. E a culpa era toda minha. O peito do meu irmão subia e descia em arfagens pesadas... O ódio brilhava nos olhos do médico. — Mas de alguma forma, a sua rejeição faz a loba dela se autodestruir! Retire o que disse! Agora! O oxigênio sumiu dos meus pulmões. O choque paralisou minha língua. — Que loba, p***a? — gritei, o pânico me rasgando. — Ela nem tem loba! Pelo amor da Lua, o que está acontecendo, Rafael?! — Só retire o que disse lá fora! Anda! — o berro do meu irmão fez os vidros dos armários vibrarem. Eu olhei para a maca. Júlia se contorcia. O sangue escorria pelo nariz e pela boca sem parar. Os ossos dela estalavam em um som doentio que ecoava na sala esterilizada. O rosto era uma máscara de pura agonia. Um vórtice de poder irradiava do corpo frágil. Nem Rafael, nem eu, tínhamos visto aquilo antes. A enfermaria de luxo da mansão Blackwolf parecia não ser o suficiente para o que estava acontecendo. Me joguei sobre a maca. Ignorei a energia estalando que queimou minhas palmas até a carne derreter. Segurei o rosto dela, escorregadio e manchado de vermelho escuro. — Júlia, me escuta! — minha voz rasgou a garganta em um latido agoniado. — É mentira! Eu não te deixo ir! Eu retiro o que eu disse! Você é minha! Eu vou lutar por você, tá me ouvindo?! Minha confissão rasgou o ar da enfermaria. E como se a minha alma estivesse costurada à dela, a destruição vacilou. A energia que antes fritava a minha pele pareceu reconhecer o meu desespero. O vórtice recuou. Os estalos doentios nos ossos dela pararam. O monitor cardíaco, antes um grito ensurdecedor de morte, começou a desacelerar. A minha presença não a matava. Minhas palavras a estavam puxando de volta do abismo. As horas se arrastaram como vidro moído. Eu não arredei o pé. Fiquei sentado na cadeira de metal, segurando a mão pálida e fria da minha mulher. O sangue dela secou na minha pele, repuxando meus poros. Um lembrete constante da minha culpa. Rafael também não saiu. Ele monitorava cada gota de soro, cada batimento fraco, os olhos exaustos focados nos sinais vitais. O silêncio na enfermaria era pesado. Interrompido apenas pelo bipe rítmico que provava que ela ainda respirava. Finalmente, Rafael soltou um suspiro derrotado. Esfregou o rosto com as mãos e me olhou. Eu era a própria imagem do inferno. — Gabriel... por que você não vai tomar um banho e se trocar? — a voz do meu irmão soou rouca e baixa. Travei o maxilar. Apertei os dedos finos de Júlia. Eu não queria soltá-la. — Eu preciso disso também — Rafael continuou, ajustando a válvula do acesso na veia dela. — Vai você primeiro, depois eu vou e a gente reveza. Vou colocar um pouco mais de soro aqui... ela perdeu muito sangue. Olhei para o rosto de Júlia. Estava pálida, estabilizada. Mergulhada em uma exaustão profunda. Relutante, soltei a mão dela. Me levantei, meus músculos moídos protestando a cada centímetro. Passei pela porta da enfermaria. Caminhei pelo corredor escuro como um fantasma. Olhei para as minhas mãos. O sangue da Júlia estava entranhado nas minhas unhas. Metálico. c***l. A prova do meu fracasso absoluto. Parei na porta da cozinha. Hesitei, os músculos travados. O ar lá dentro era denso. Elétrico. Minha mãe estava no centro, chorando em silêncio...
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