Capítulo 42 - O Tribunal dos Lobos

1550 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF  Algo estava terrivelmente errado. Mais errado do que o próprio estado de Júlia. Eu sabia disso pelo frio que congelava a minha espinha e pelo meu lobo, que subitamente ficou em alerta máximo. O ar não apenas esfriou. Ele se tornou uma âncora de chumbo esmagando meus pulmões. A porta dupla da UTI foi empurrada com uma lentidão calculada. O cheiro de ozônio, terra molhada e poder puro engoliu o éter do hospital. Nathanael Blackwolf, meu pai e Alfa da matilha, cruzou a soleira. A autoridade dele não precisava de palavras. O simples peso do seu olhar fez o monitor cardíaco de Júlia estabilizar em um ritmo submisso. Mas não era só ele. Ao seu lado, caminhava meu tio e meu superior, Emmett Blackwolf. E, para minha surpresa, um contingente de pessoas da família e da alcateia entrou logo atrás, fazendo a enorme e luxuosa sala de espera da UTI parecer pequena demais. O ambiente que antes estava lotado de Leones agora estava tomado por Blackwolfs. Aquilo era demais. Eu e Rafael nos entreolhamos. O inferno tinha acabado de chegar. Emmett foi direto em Arthur. Os olhos azuis do meu tio varreram o espaço e cravaram na farda do Comandante. O ódio entre pai e filho era uma cicatriz purulenta, exposta sob a luz branca e estéril do hospital. — O que você está fazendo aqui? Eu vim ver os meus homens e tenho o desprazer de te encontrar — Emmett rosnou, a voz baixa, mas vibrando com a força esmagadora de um Gama letal. Arthur endireitou a postura, o peito subindo sob as medalhas. — Eu só vim oferecer ajuda, pai. A risada que Emmett soltou foi seca, c***l e desprovida de qualquer amor paterno. O som fez o meu próprio lobo recuar. — Pai? — Emmett deu um passo à frente, invadindo o espaço de Arthur. — Eu não tenho filho. Você não é meu filho. Vi o maxilar de Arthur trancar, os olhos dele vacilando por uma fração de segundo. — Você acha que vestir essa farda apaga o que você fez? — Emmett continuou, a voz sibilando como veneno. — Você tentar rastejar de volta para a mulher que você quebrou? A dor da minha vida, Arthur, foi ter criado um covarde. Um monstro doentio que não sabe controlar a própria fúria. As palavras de Emmett foram um gatilho. Gideon rosnou dentro de mim, arranhando meu peito até sangrar. Emmett não sabia nem metade. Sete anos atrás, eu já via o que existia por trás daquele "noivo perfeito". Não foi inocência que o salvou. Foi a mãe dele de joelhos. — Você perdeu a sua herança, o seu lugar e o seu nome — Emmett cravou, o rosto a centímetros do de Arthur. — E agora volta aqui, pagando de salvador? Acha que isso vai apagar o que você fez? Você é patético. O Comandante da Força Aérea militar, o homem que havia se reerguido do poço sozinho, subitamente pareceu diminuir sob o peso daquela humilhação brutal. Ele não desviou o olhar, mas o silêncio dele era a prova de que cada palavra de Emmett ainda o sangrava. Emmett apontou para a porta do saguão. — Ponha-se daqui para fora antes que eu arranque essa sua farda e te lembre fisicamente o porquê de eu ter te deserdado. — Com todo o respeito, Senhor Blackwolf... A voz fina, porém firme, cortou a tensão letal do ar. Meu pescoço estalou ao me virar. Melissa Salazar deu um passo à frente. "Meu Deus, de onde ela saiu?"pensei, piscando para focar na figura recuada. Ela sempre foi meio invisível. "Ela não estava morando fora?" Melissa era, prima e melhor amiga de Júlia. Ela deixou a beirada da porta do quarto de Júlia e se colocou quase como um escudo invisível entre o Gama enfurecido e o Comandante humilhado. — Tem dez anos que o seu filho sofre as consequências do que aconteceu — Melissa disparou, os olhos castanhos brilhando por trás dos óculos de grau. Ela ergueu o queixo, encarando Emmett sem piscar. — O hospital não é a sua casa e o senhor não manda aqui. O Arthur não está pedindo nada além de salvar a vida da Júlia. E tenho certeza de que todos estão aqui por esse único objetivo. O silêncio engoliu a ala. Até o meu pai estreitou os olhos para a garota. Arthur piscou, chocado, olhando para a mulher miúda que acabara de peitar um dos lobos mais perigosos da nossa família para defendê-lo. Naquele momento, ela não parecia mais a garota medrosa e muda que eu conhecia. Mas o perigo era real. Com aquele sangue Montserrat e Salazar fervendo nas veias, a semelhança física com a Júlia gritou na minha cara. Melissa tinha a mesma coragem suicida. E, com um assassino solto caçando mulheres com os traços da minha mulher, aquela coragem recém-descoberta era a p***a de um alvo nas costas dela. Emmett abriu a boca, os olhos escurecendo com a afronta, mas antes que pudesse rosnar uma punição, outra voz se ergueu, carregada com o peso letal do desespero materno. — Minha sobrinha está certa, Emmett. Johannah Montserrat se colocou ao lado de Melissa. A postura curvada pela exaustão e pela doença do marido, Malakai, não diminuiu o olhar de aço puro que ela lançou ao Gama. — Eu também não sou fã do seu filho perto da minha filha — Johannah continuou, cada palavra soando como uma sentença. Ela olhou de soslaio para Arthur. — Mas se ele é um m*l necessário para mantê-la viva... espero que ele fique. O impacto daquelas palavras reverberou pelo corredor. Arthur não disse nada. Apenas engoliu a seco, deu um aceno rígido para Johannah e Melissa, virou as costas e caminhou para longe, em direção à sala de espera principal. Emmett cerrou os punhos, um tremor de fúria contida passando por seus ombros, mas não rebateu. Não havia como peitar uma mãe enquanto a filha dela morria a poucos metros dali. Meu pai pigarreou, quebrando o ar tóxico que sufocava a todos nós. Os olhos dourados de Nathanael encontraram os meus com frieza calculada. — O assunto do Arthur está encerrado — Nathanael sentenciou, a voz ressoando nos meus ossos. Ele indicou o fim do corredor com a cabeça. — Gabriel, Rafael. Sala de reuniões da diretoria. Agora. O Alfa deu as costas, seguido de perto por Emmett, Alaric, Malakai, Jade e a misteriosa Lyra Starlight ao lado de Orion seu marido, que permanecera em silêncio absoluto nas sombras. Meus pés pareciam chumbados no piso. Eu relutei em sair. — Pai, eu não quero sair do lado dela... — a minha voz saiu rouca. Nathanael parou. O olhar duro dele suavizou por uma fração de segundo. Johannah deu um passo à frente. A postura dela estava curvada pela exaustão e pelo peso da doença de Malakai, mas os olhos carregavam a força inabalável de uma mãe. — Eu vou ficar com a minha filha — Johannah sentenciou. — Você pode ir, Gabriel. — Eu também vou ficar aqui. — diz Melissa. — Mel... — comecei, o peso do mundo esmagando meus ombros. — O estado dela varia muito. Agora ela está dormindo, a gente não sabe quando e se ela vai ac... A frase morreu na minha boca. "Como eu conseguiria dizer que ela poderia não acordar?" Era doloroso demais terminar. Dizer em voz alta que a morte estava sentada na beirada daquela cama. Rafael tocou meu ombro, me puxando para a realidade. — Vamos, Gabriel — meu gêmeo murmurou. — Johannah e Melissa dão conta daqui. Engoli o nó de desespero e terror que subia pela minha garganta. Gideon se contorceu dentro de mim. O meu lobo arranhou as paredes do meu peito, soltando um ganido angustiado e primitivo, encurralado entre a mulher que morria na nossa frente e as ameaças invisíveis que nos esperavam do lado de fora daquela porta. Dei as costas para a cama e caminhei para o corredor. O verdadeiro inferno estava apenas começando. A caminhada pela ala VIP parecia o corredor da morte, revestido de mármore italiano. A sala de reuniões da diretoria era um bunker de luxo camuflado, com paredes de vidro à prova de som e uma mesa de mogno maciço. Trilhardários não discutiam o colapso da própria linhagem em corredores de hospital. Nathanael assumiu a cabeceira, esmagando o oxigênio do ambiente. Alaric Ashworth, o Beta do meu pai, assumiu sua posição logo atrás dele, imóvel e vigilante. Emmett se jogou em uma das poltronas de couro preto. Malakai sentou-se com extrema dificuldade, a respiração sibilante preenchendo o silêncio. Jade permaneceu de pé perto da porta. E no canto mais escuro da sala, Orion e Lyra Starlight continuaram como sombras silenciosas e indecifráveis. Fechei a porta pesada, cortando qualquer som externo. O isolamento acústico era absoluto. Nathanael cruzou as mãos sobre a mesa de mogno e cravou os olhos dourados em mim e no meu irmão. — Sentem-se, Gabriel e Rafael — meu pai ordenou, o tom paternal desaparecendo de vez, dando lugar ao líder implacável. — Porque o que temos a dizer não se resume a salvar a vida da Júlia, mas sim a um segredo que vai selar o destino de toda a nossa matilha nas próximas vinte e quatro horas.
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