POV JÚLIA MONTSERRAT
Todos ao redor estavam atônitos. Gabriel estava de volta, ferido e machucado
Mais era ele mesmo agora.
— Graças a Deusa da Lua... está funcionando — ouvi a voz de Miguel sussurrar ao longe, carregada de um alívio incrédulo.
Nathanael, vendo a fera recuar diante do meu toque, suspirou e deu a ordem que selou o ambiente.
— Vamos deixá-los a sós — ele exclamou, fazendo um sinal para que Rickon e Emmett se afastassem.
Mas Jade se recusou. Ela deu um passo à frente, aproximando-se da cela, o rosto banhado em lágrimas.
— Gabriel... que bom que você voltou, meu amor — ela choramingou, estendendo a mão como se pudesse reivindicar o que já não era mais dela.
Gabriel ainda estava sem forças, entregue ao peso da exaustão nos meus braços. Mas, no momento em que a voz de Jade ecoou, ele teve uma reação instintiva: virou o rosto para o lado oposto ao dela, escondendo-se no meu corpo. A rejeição foi silenciosa, mas brutal. Vi a dor no rosto de Jade; ela não conseguiu esconder o golpe. Rafael se aproximou rapidamente e a segurou pelo braço, arrastando-a para fora.
— Não... — ela tremia. — Isso não está certo... ele me
Escolheu eu sou a escolhida dele...
Ela se deixou ser levada, mas seus olhos não saíram de nós até que a porta se fechasse. No silêncio que se seguiu, Gabriel se encolheu ainda mais, buscando o calor do meu colo. Seus braços circulavam minhas pernas e cintura com o restante da força que tinha.
— Júlia... é você mesmo... você está aqui... — ele repetiu, a voz sendo apenas um fio quebrado contra a minha pele.
— Sim, eu estou aqui com você — sussurrei, encostando minha testa na dele. — E não vou a lugar nenhum.
[...]
Depois de um tempo, quando ele já parecia minimamente estável, eu soube que precisava tirá-lo dali. O subsolo tinha uma estrutura completa para crises — cama, banheiro e suprimentos médicos.
— Vamos, eu te ajudo — sussurrei.
Ele é pesado, um Alfa de quase dois metros de puro músculo, mas se escorou em mim. Eu o guiei até a banheira. Enquanto a água corria, um pensamento amargo atravessou minha mente: "Deuses, quantas vezes eu já não cuidei desse homem exatamente assim? Não pelo mesmo motivo, mas da mesma forma."
Ajudei-o a tirar o resto das roupas e a se enxaguar. Também tirei as minhas; estavam imundas de sangue, suor e a sujeira do chão da cela. Sob o jato de água, o vapor parecia limpar não só a sujeira, mas a névoa da maldição.
Depois do banho, ele se deitou na cama que havia ali. Estava totalmente nu, mas limpo. Eu o cobri com calma, sentindo a textura familiar da sua pele, e passei as mãos em seus cabelos negros. Tentei me levantar para sair, para buscar roupas limpas ou simplesmente para respirar, mas antes que eu pudesse me afastar, ele me puxou.
Gabriel me envolveu em seus braços, prendendo-me contra seu corpo quente.
— Você não pode me deixar... eu não consigo viver sem você, Júlia... — a voz rouca dele vibrou no meu ouvido.
Meu corpo inteiro se arrepiou. Senti aquela súplica até os ossos. Puxá-lo do abismo com todas as minhas forças me custou muito; minhas energias estavam exauridas. Sem forças para lutar contra ele ou contra o que eu sentia, apenas me deixei ficar. Deitei-me com ele, sentindo a respiração profunda de Gabriel na minha nuca.
Fechei os olhos, o calor dele me envolvendo, e adormeci. Naquela penumbra, o divórcio não existia. A Jade não existia. Éramos apenas nós dois, sobreviventes de uma tempestade que quase nos apagou da existência.
Puxá-lo do abismo com todas as minhas forças me custou muito. Eu sentia minhas energias exauridas, como se a Maldição de Sangue tivesse tentado drenar a minha vida também. Apenas fiquei ali deitada com ele, deixando o calor da pele dele aquecer o frio que ainda restava nos meus ossos.
Fechei meus olhos, e antes que o sono me levasse, as memórias me inundaram. Imagens de um passado que parecia ter sido em outra vida, mas cujas feridas ainda sangravam no presente.
[FLASHBACK — ANOS ATRÁS]
Éramos jovens, jovens demais. Mas eu sempre percebi tudo com muita clareza; o caos me ensinou a ler as sombras cedo demais.
Aquele dia era só mais um em que meu padrinho Nathanael, o Alfa, enchia a cara e arrumava briga com o tio Beto. Eu via a madrinha Babi correr para cuidar dele depois, e não entendia como ela aguentava aquele inferno. Eram dois homens em uma guerra eterna por ela, uma luta em que Nathanael sempre parecia perder, afinal, ela havia se casado com Beto.
Eu saía na ponta dos pés do meu quarto de hóspedes na mansão Blackwolf. O som de vidros quebrados e gritos dos adultos ecoava pelos corredores, mas eu tinha um destino certo: Gabriel.
Tínhamos uma conexão profunda. Mesmo pequena, eu sentia no meu sangue que, quando crescesse, ele seria meu companheiro. Tínhamos que esperar a hora certa, as leis da alcateia exigiam isso, mas quando você encontra a pessoa perfeita tão cedo, era impossível ficar longe.
Eu ouvia a disputa lá embaixo — a rivalidade que, anos depois, terminaria na morte do tio Beto. Meu coração batia forte no peito, uma batida de medo e proteção.
Gabriel ficava m*l, o rosto se contorcia a cada grito do pai. Nathanael, Beto e Babi eram obrigados a conviver sob o mesmo teto, e o preço era aquele: uma infância marcada pelo cheiro de álcool e pelo som da violência.
Naquela época, no escuro do quarto ou no canto do celeiro, eu era a única que segurava a mão dele enquanto os gigantes brigavam.
Eu precisava encontrar Gabriel.
Procurei pela casa toda. Não estava no quarto. Mas eu não ia desistir — ele precisava de mim, eu sentia nos ossos. Fui para a parte mais distante da mansão, onde não dava mais para ouvir a festa nem a briga. Só o vento vindo do mar. Uma espécie de área comum reservada, meio abandonada.
Foi quando ouvi a voz dele.
CONTINUA NO PRÓXIMO CAPÍTULO O FLASHBACK