POV GABRIEL BLACKWOLF
Eu encarava aquela mulher com uma irritação visível, meu maxilar travando, punhos cerrados.
Eu queria voltar pra Júlia e não queria mais falar com ninguém. A exaustão daqueles últimos dias já estava cobrando o preço nos meus músculos, e a política suja do meu pai tinha sido a gota d'água.
A porta da sala de reuniões havia se fechado atrás de nós com um clique abafado, isolando o conselho. O corredor VIP de mármore italiano estava deserto.
Apenas as luzes brancas e frias do hospital iluminavam o espaço.
Éramos só nós dois.
— Do que a senhora está falando? — eu pergunto, sem conseguir controlar minha irritação, a voz saindo mais grave e ameaçadora do que eu planejava.
Lyra não recuou diante da minha fúria. Pelo contrário.
A aura tranquilizadora que ela emanava lá dentro evaporou por completo. Sem aquele amortecedor místico, o ar ao nosso redor ficou denso, frio e sufocante. Como se a gravidade no corredor tivesse dobrado de peso.
Ela ergueu a mão lentamente. Os olhos rosados brilharam com uma intensidade sobrenatural, uma cor viva e ancestral que me paralisou no lugar, antes que ela espalmasse os dedos finos e gélidos direto no centro do meu peito.
Bem sobre o meu coração acelerado.
Um choque térmico atravessou minhas costelas.
Não foi apenas frio. Foi como se ela tivesse enfiado a mão através da minha carne, agarrando correntes enferrujadas que eu nem sabia que estavam amarradas na minha espinha. O ar foi expulso dos meus pulmões com um baque surdo.
— Sinto uma magia profunda em você... — a voz dela ecoou pelo corredor vazio, assustadoramente clara. — Maior e muito mais destruidora do que a sua maldição de sangue. É uma magia de bloqueio.
Fiquei paralisado. Minhas garras recuaram sob a pele no mesmo instante.
Lyra apertou os dedos contra a minha camisa, como se estivesse segurando fisicamente a própria escuridão que me habitava.
— Está suprimindo o seu poder de Alfa. Está drenando você de dentro para fora. Você realmente é um Alfa extraordinariamente forte, Gabriel. Se fosse qualquer outro, já teria morrido sob o peso contínuo disso — ela continuou, cada palavra soando como uma sentença desenterrada de uma cova rasa.
— Alguém colocou isso em você há muitos anos. Provavelmente para te enfraquecer, para te quebrar. Mas você é forte. Eu sinto o seu lobo resistindo a isso e ele o faz provavelmente dia após dia, lutando uma guerra invisível que ele não sabe como vencer.
Meu peito subia e descia com violência. O ar subitamente parecia rarefeito, como se a revelação dela estivesse ativando o veneno escondido no meu sangue.
Ela fez uma pausa, e a pena no olhar translúcido dela me cortou mais fundo do que qualquer lâmina de prata.
— E foi isso... — Lyra sussurrou, a verdade nua e crua estilhaçando o que restava do meu mundo. — Foi essa magia n***a que bloqueou você de sentir quem era a sua verdadeira companheira quando você completou dezoito anos. E foi isso que fez você perder metade dos seus poderes de Alfa.
O mundo parou.
O mármore sob os meus pés, as luzes frias do hospital, o cheiro de antisséptico, o som da minha própria respiração... tudo virou um borrão distorcido.
A única coisa real era a mão de Lyra cravada no meu peito, revelando o monstro invisível que me devorava vivo.
Senti o peso daquela verdade despencar sobre os meus ombros como uma montanha de chumbo.
Todo esse tempo. Todos esses sete anos malditos me culpando, me odiando, me achando um fraco.
Eu nunca entendi o porquê de não conseguir marcá-la.
Lembrei de cada noite m*l dormida. Das madrugadas em que o cheiro doce de baunilha e limão dela me inebriava, e meu corpo inteiro implorava para cravar as presas no pescoço da minha fêmea, para reivindicar o que era meu.
Mas então... o bloqueio agia.
Sempre que o pensamento de reivindicá-la cruzava a minha mente, a repulsa artificial me atingia como um soco. Meus dentes recuavam contra a minha vontade.
Um ódio envenenado, que não era meu, inundava minhas veias até eu me afastar dela, suando frio, enojado de mim mesmo. Uma barreira invisível e intransponível.
Eu simplesmente não conseguia de jeito nenhum.
Passei anos me chamando de fraco no espelho.
Acreditei que eu era um Alfa inútil. Achando que eu tinha falhado com a Júlia por um defeito biológico do meu lobo ou pela maldição de sangue da minha família que tinha me corrompido.
Mas não foi o destino.
Não foi um erro genético ou a p***a da biologia lupina.
Foi um ataque.
Alguém me mutilou. Alguém me aleijou espiritual e fisicamente antes mesmo de eu ter a chance de lutar pela minha mulher.
"Quem fez isso comigo? E por quê?"
Minha mente girava em uma fúria cega. Os Leone? Algum feiticeiro obscuro contratado por um Alfa rival? Ou alguém de dentro? Alguém que andava pelos mesmos corredores que eu, sorrindo e apertando a minha mão, enquanto me assistia apodrecer por dentro?
Alguém garantiu que eu não pudesse protegê-la.
Alguém garantiu que eu não a reconhecesse e a perdesse para o desgraçado do Arthur.
A bile subiu pela minha garganta, amarga e ácida.
Minhas pernas, que suportaram exércitos, treinos brutais, torturas e guerras, simplesmente cederam.
O Comandante da Polícia Lupina, o Alfa que nunca se curvava diante de ninguém, caiu de joelhos no piso frio do corredor. O baque dos meus ossos contra o mármore ecoou pelo vazio.
Agarrei o meu próprio peito com as unhas enterradas na camisa de linho, puxando o tecido, tentando rasgar a pele e arrancar aquela magia n***a que me sufocava.
Eu não conseguia respirar. A sala inteira parecia girar.
Um ganido dilacerante rompeu a garganta de Gideon.
Não era um rosnado de fúria; era o lamento da tortura do meu lobo. Uma alma sendo desintegrada pela descoberta de que toda a nossa dor, toda a dor lancinante de ver a nossa mulher nas mãos de outro homem, havia sido minuciosamente orquestrada.
E não era só ele. O lobo n***o, a b***a letal e instável que carregava a maldição da nossa linhagem, se debateu nas sombras do meu subconsciente. Pela primeira vez na minha vida, os dois lobos dentro de mim não lutavam um contra o outro. Eles uivavam juntos, em uníssono, sentindo a mesma dor dilacerante da violação.
— Isso então significa que, se a senhora recuperar a minha magia... eu posso marcá-la...
A esperança cresceu dentro de mim. Uma fagulha desesperada e violenta no meio do caos.
Lyra se ajoelhou na minha frente. O vestido roçando no chão. Ela ignorou o perigo de estar tão perto de um Alfa instável e segurou o meu rosto com as duas mãos, forçando meus olhos turvos de lágrimas não derramadas e fúria cega a encontrarem os dela.
— Escute bem, Gabriel. — O tom dela agora era de uma Alta Sacerdotisa inquestionável. A entidade viva da Lua. — Eu posso limpar isso. Eu posso quebrar esse bloqueio, expurgar essa sujeira e devolver tudo o que roubaram de você.
Meu coração deu um salto no peito.
— Mas uma magia tão antiga e enraizada não some em uma noite — ela alertou, as feições endurecendo. — O processo será brutal. Você vai sangrar, Gabriel. O lobo n***o vai tentar assumir o controle para se defender, e teremos que acorrentar você com prata maciça para que ele não emerja e mate todos nós. Eu preciso de tempo até a próxima Lua Azul para expurgar isso do seu sangue completamente.
Pisquei, a respiração entrecortada, os pulmões queimando sob a mão dela.
— A Lua... Azul... — minha voz saiu como um r***o na garganta, arranhada e fraca.
Faltavam semanas para a Lua Azul. Meses. A Júlia não tinha semanas. Ela morreria amanhã.
— Sim. E até lá, você não pode entrar no círculo e marcá-la. Mas na lua azul você pode reivindicá-la.
Lyra sentenciou.
A verdade bateu no meu rosto como uma bigorna caindo do céu. O peso da realidade esmagou a fagulha de esperança que tinha acabado de nascer.
— Se o seu lobo tentar selar o vínculo com o bloqueio ainda aí, essa magia n***a vai usar a conexão de almas para viajar de você e invadir o corpo dela.
Os olhos de Lyra escureceram, vazios e letais.
— E como ela é uma Luna Nascida frágil e em transição... a sua marca vai matá-la na mesma hora.
O ar sumiu.