POV de Gabriel Blackwolf
Continuação do Flashback (na mente de Gabriel, enquanto o sangue pinga na varanda):
Quando me levantei, o choque foi duplo.
Não era apenas Rafael. Meu pai, minha mãe e meus irmãos mais novos estavam ali, formando um comitê de recepção que eu definitivamente não esperava.
Coloquei Júlia rapidamente atrás das minhas costas, ainda arfando, tentando usar minha envergadura de Alfa em crescimento para escondê-la por completo.
Meu pai estava de braços cruzados, a carranca esculpida em pedra e os olhos azuis faiscando uma autoridade que me fez querer enfiar a cabeça na terra.
— Gabriel, o que está acontecendo aqui? — A voz dele era um trovão contido.
Meus irmãos soltaram risadinhas e zombarias abafadas, mas minha mãe... Babi parecia estranhamente satisfeita. Ela tinha um brilho nos olhos que eu não soube decifrar na hora.
— Meninos, circulando! — Ela bateu palmas, expulsando meus irmãos como se espantasse pássaros.
Depois, voltou-se para nós. Eu sentia Júlia tremer contra as minhas costas, minúscula e envergonhada. — Vistam-se agora. Quero ver os dois na cozinha.
Minha mãe levantou as bolsas que trazia, um sorriso de soslaio surgindo no rosto.
— Trouxe comida. Aposto que os dois estão com fome.
Eu não entendia a animação dela, mas entendia perfeitamente o tamanho da bronca que Nathanael me daria. Júlia não era uma garota qualquer; era a afilhada dele, filha do Malakai, o Gama braço direito do meu pai.
"p***a, que merda", pensei, o suor frio descendo pela nuca. "Eu deveria ter ido para o quarto".
Quando finalmente ficamos sozinhos na sala, me virei para ela. Júlia estava com o rosto em brasas, a vergonha irradiando de cada poro.
— Tá tudo bem agora — sussurrei, tentando acalmar o tremor dela enquanto buscava nossas roupas espalhadas pelo tapete. — Vamos nos vestir.
Ajudei-a com as peças dela primeiro, os dedos ainda trêmulos. Ela evitou meu olhar por um momento, a voz saindo pequena:
— Ah, que vergonha... Mas ainda bem que meus pais não estavam junto...
Fiz uma careta, imaginando o rastro de destruição que Malakai deixaria.
— Eu estaria morto agora, com certeza.
Rimos baixo, um riso nervoso que serviu para quebrar o gelo do flagra. Quando terminamos de nos arrumar, eu a puxei pela cintura. Me inclinei sobre ela, segurando seu rosto com as mãos e falando rente aos seus lábios, sentindo sua respiração ainda acelerada:
— Isso não terminou...
Júlia sorriu contra a minha boca e me deu uma mordidinha rápida no lábio inferior. Eu amava quando ela fazia aquilo, era a marca dela em mim.
— Não mesmo... — ela respondeu.
Júlia sempre foi totalmente entregue a mim. Naquele tempo, o "nós" era a única verdade que importava.
Na cozinha, o ar estava carregado. Minha mãe parecia radiante; seus olhos heterocromáticos brilhavam com uma intensidade que eu não via há muito tempo. Meu pai, por outro lado, continuava carrancudo, a mandíbula travada enquanto terminava de organizar o que tinham trazido. Sentamos no balcão em silêncio; Júlia mantinha o rosto baixo, o pescoço ainda tingido pelo rubor da vergonha. Eu esperava a bronca, o músculo da minha perna tremendo de ansiedade.
— Gabriel, o que eu te falei sobre as filhas dos meus homens? — A voz do meu pai soou como um trovão baixo, me atingindo em cheio. — Aliás, o que eu falei para você e todos os seus irmãos sobre respeitar elas?
Eu não me encolhi. Sustentei o olhar dele de frente. Eu podia ter sido pego em uma situação comprometedora, mas eu não ia recuar sobre o que sentia. Cruzei os braços sobre o peito e respondi com firmeza:
— Não estou usando ela como brinquedo, pai. Eu gosto dela. De verdade.
O gritinho de empolgação da minha mãe nos sobressaltou. Ela sorria de forma deslumbrada, as mãos unidas junto ao peito.
— Isso é perfeito! — ela exclamou, a voz doce preenchendo a cozinha. — Vocês dois são lindos juntos. Ela será uma Luna maravilhosa... eu estou tão feliz por você, meu filho! Eu sempre torci por vocês dois. Você e a Júlia me lembram tanto eu e seu pai quando éramos jovens.
Todos olhamos para ela enquanto Babi circulava a bancada com uma leveza quase feérica. Ela nos envolveu em um abraço coletivo e beijou nossas bochechas. Júlia deu uma risadinha sem graça, o corpo relaxando um pouco sob o carinho da madrinha.
Meu pai, no entanto, manteve o foco em mim. Ele ergueu a mão, pedindo seriedade.
— Então isso é sério, Gabriel?
— Sim, pai. É muito sério.
— Que ótimo. Porque não vou tolerar que nenhum de vocês desrespeite minhas afilhadas, entendeu?
— Claro, pai. Eu entendi.
Outro gritinho da minha mãe interrompeu o clima tenso. Ela já estava em outro planeta, planejando o futuro.
— Eu vou organizar um jantar e chamar a Jô e o Kai!
Eles vão amar a notícia. Vocês serão o casal mais lindo da alcateia, sem dúvida!
— Você vai conversar com o pai dela com o devido respeito e pedir permissão para namorar com ela. Entendeu, Gabriel? — Nathanael reforçou, o tom de Alfa deixando claro que não era uma sugestão.
Assenti com a cabeça, embora por dentro o nervosismo estivesse me corroendo. "E se o Malakai me achasse insuficiente para a filha dele?" Meu pai relaxou os ombros e soltou um suspiro pesado. O olhar dele suavizou, mas a advertência mudou de tom.
— Isso é bom, de verdade. Mas vocês precisam entender uma coisa: pode acontecer de encontrarem seus respectivos companheiros destinados no baile da primeira lua. Entendem a implicação disso? O que o destino decide nem sempre é o que o coração escolhe agora.
Júlia me olhou no mesmo instante, o pavor brilhando naquelas íris que eu tanto amava. Ela estava muda, sufocada pela vergonha e, agora, pelo medo do futuro. Eu não hesitei. Segurei a mão dela por cima do balcão, entrelaçando nossos dedos com força.
— Isso não vai acontecer — afirmei, olhando fixamente para ela, ignorando o aviso do meu pai. — Eu sei que ela é a destinada para mim. Eu sinto isso.
O tempo passou, mas a empolgação da minha mãe começou a agir em mim como um ácido. Eu não suportava a felicidade dela, o brilho nos olhos heterocromáticos enquanto ela planejava o meu futuro como se fosse o dela. Ela nunca tinha ligado para mim de verdade, nunca tinha enxergado o abismo onde eu vivia, e agora queria ser a arquiteta do meu destino?
Aquilo me sufocava, mas não foi o que mudou tudo.
A pior decisão da minha vida nasceu de uma conversa que eu nunca deveria ter ouvido e fodeu com todo o meu destino e vida.
Era uma tarde de domingo, o sol de Costa da Lua brilhava lá fora e a alcateia estava reunida, rindo e celebrando. Eu ainda não tinha feito o pedido formal de namoro para o Malakai, mas o anel pesava no meu bolso. Foi quando passei pelo escritório e ouvi a voz do meu pai e do seu Beta, Alaric Ashworth. Eles falavam sobre a mulher que habitava meus pesadelos: Katherine.
— Ela está grávida! — Alaric disparou, a voz carregada de um peso sombrio.
Senti meu sangue congelar instantaneamente. Meus pulmões pareceram fechar, o ar se recusando a entrar.
Ouvi o silêncio tenso do meu pai, antes de ele responder em um tom nervoso, os olhos provavelmente varrendo o corredor em busca da minha mãe.
— Porra... ela disse quem é o pai?
— Olha, não acho que seja seu — Alaric tentou acalmá-lo, embora o asco fosse evidente em sua voz. — Ela foi para o território Norte. O tempo da gravidez bate com o período em que ela ficou lá no internato, até a Beth resolver trazê-la de volta...
Eles continuaram conversando, tensos, mas não tinham ideia do que aquelas palavras estavam fazendo comigo do outro lado da porta. Eu estava petrificado. O ódio subiu pelas minhas veias como um incêndio incontrolável, queimando a pouca paz que eu tinha conquistado.
Aquela mulher tinha me destruído de todas as formas possíveis, tinha roubado minha infância e marcado minha alma com ferro em brasa. E agora, ela ia gerar uma vida?
Desejei com cada fibra do meu ser que ela estivesse morta. Que o feto em seu ventre fosse apenas cinzas. O mundo ficou vermelho, e a doçura da Júlia, que me esperava no jardim para o nosso pedido de namoro, pareceu de repente algo distante, algo que eu não merecia mais ou que a sombra da Katherine nunca me deixaria ter por completo.
Minha mãe não a matou. Ela teve a chance de extinguir aquela praga da face da terra, mas foi piedosa demais, e eu guardei cada gota desse rancor no fundo da minha alma. Ela não impediu o que Katherine fez comigo e com meus irmãos, e depois de tudo, ainda não teve a coragem de finalizar a v***a.
Apertei os dedos na madeira da cadeira com tanta força que senti as fibras estalarem sob minhas unhas, enquanto eles continuavam a conversa no escritório.
— Bom, menos m*l — ouvi meu pai suspirar, o alívio na voz dele me causando náuseas. — Seja lá quem for o pai, ela não vai poder criar essa criança na cadeia, não é?
Ouvi o som do líquido sendo servido. Alaric bebeu um gole longo da própria cerveja antes de responder, o tom carregado de resignação.
— Não. Eu e a Beth vamos cuidar...
O silêncio que se seguiu foi pesado, denso como o ar antes de uma tempestade. Então, a voz do meu pai mudou. Não era mais o Alfa soberano; era um homem sendo corroído por um arrependimento tardio.
— Não me orgulho de ter ficado com ela, e tenho ódio de mim mesmo por ter confiado nela perto dos meus filhos... — Nathanael confessou, uma admissão rara de culpa que me fez congelar. — Um dia ainda terei o prazer de acabar com a raça dessa psicopata.
Ele nunca admitia falhas. Agia como um Alfa intocável, mas ali, no segredo daquelas paredes, ele revelava a ferida que também carregava. Mas para mim, aquelas palavras não eram consolo; eram combustível.
Eu não queria que ele tivesse prazer em matá-la um dia. Eu queria que ela já estivesse morta. E saber que um pedaço dela — um filho — seria criado pela minha própria família, sob o mesmo céu que eu, transformou todo o amor que eu sentia pela Júlia em algo turvo, manchado pela herança de sangue que eu nunca conseguiria lavar.
— Você não teve culpa, Nate. Estava solteiro, e ela era uma oferecida descarada e não tinha como prever que machucaria as crianças... — Alaric tentou consolidá-lo, mas as palavras dele eram inúteis para mim.
Ouvir o nome de Katherine foi como desenterrar um cadáver que eu tentava ignorar me distraindo nos braços da Júlia. Mas toda a dor, que eu pensava ter sufocado, emergiu com uma força devastadora. Tive a péssima ideia de que precisava vê-la.
Queria ver Katherine presa, sofrendo, definhando.
Naquela noite, o sono não veio; fechei os olhos e só conseguia visualizá-la com uma coleira no pescoço, machucada e humilhada atrás das grades. Pensei que o espetáculo da sua ruína me traria paz.
O ódio subiu pelas minhas veias como um incêndio. O mundo ficou vermelho.
Ouvir aquele nome foi o começo da minha ruína,
Eu precisava ir para a penitenciária. Precisava olhar nos olhos do meu próprio inferno.