Capítulo 29 - A marca do inimigo

1761 Words
POV DE GABRIEL BLACKWOLF Parei na porta da cozinha. Meus músculos travaram. O ar lá dentro era tão denso que quase podia ser cortado com uma faca de prata. Minha mãe, a Luna Babi, estava no centro do cômodo. Chorando em silêncio. Meus irmãos a cercavam como uma guarda de honra letal. Quando me notaram, dezenas de olhos se viraram na minha direção. Eles me fuzilavam. O cheiro de ódio e ressentimento entupiu minhas narinas. Todos ali sabiam que eu era o culpado por aquelas lágrimas. Todos achavam que eu a odiava. Mas a verdade era muito mais suja: eu me odiava. E a machucava apenas para que ela sangrasse junto comigo. O ressentimento infantil de ter que dividir a atenção dela com tantos irmãos ainda apodrecia no meu peito. A culpa nunca foi dela. Babi sempre deu o melhor que tinha, e eu fui um escroto, exigindo que ela fosse mais do que conseguia. Não era justo. Engoli em seco. Minha garganta parecia forrada de vidro moído. Caminhei devagar, me aproximando dela por trás. Passei os braços ao redor dos ombros da minha mãe. Um abraço que eu não dava há anos. Deixei um beijo leve, quase imperceptível, em seu ombro trêmulo. — Desculpa, mãe... — sussurrei, a voz rasgada de vergonha. — Pelo que eu falei. Afastei-me devagar e sentei no banco da ilha de mármore. Para minha surpresa, ela não recuou. Continuou ali, perto da minha ruína. Eu não queria pedir mais desculpas. Não queria entrar em assuntos dolorosos que faziam meu peito arder. Mas depois de tudo que eu fiz, ela merecia a minha submissão. Então, eu fiquei. Meus irmãos e meu pai não arredaram o pé. Eles pareciam sombras espalhadas ao redor da cozinha. Alguns em pé, encostados nas paredes. Outros sentados de costas. Todos com os músculos rígidos. Em posições de bote, prontos para acabar com a minha raça se eu vacilasse. Meu pai me olhou. Um olhar frio que me avisava: se eu tiver que bater de novo, você não vai sobreviver. Se ele partisse para cima de mim, eu ficaria de cama por semanas. Suspirei fundo. Puxei uma garrafa de cerveja do balcão, o vidro gelado suando na minha palma manchada com o sangue da minha mulher. — Mãe... eu sinto muito. Eu não quis dizer aquelas coisas... Minha voz saiu baixa. Fudida. Dolorida como uma fratura exposta. Ela baixou o rosto molhado. — Tá tudo bem, meu filho. Eu sei que você me odeia... A voz dela saiu tão dolorosa, tão frágil, que a cozinha inteira sentiu o golpe. Os irmãos se contorceram ao redor. O ranger de dentes foi alto. Bufos agressivos de lobos segurando a fúria no peito para não me dilacerar ali mesmo. Eles não falaram nada. Não precisavam. O desconforto era coletivo e letal. "Por que eles simplesmente não vão embora e me deixam sozinho com ela?", pensei, sentindo o ardor do julgamento da matilha. Babi ergueu o rosto. Os olhos heterocromáticos cravados nos meus. — Você acha que me odeia, meu filho? Estremeci. A máscara de Alfa não existia mais. — Não, mãe... eu não te odeio. — Minha voz falhou miseravelmente. — Eu só sou um merda. Me desculpa... Ela segurou meu rosto com as duas mãos trêmulas. Ela não recuou do monstro. — Você pode apostar a sua vida que eu me odeio muito mais. As lágrimas dela molharam meus dedos. — Eu estava lá — ela sussurrou, a voz ganhando uma ferocidade absurda. — Não importa o que a Katherine te disse ou o que ela fez com você. Você é o meu menino e eu estava lá. Ouvir o nome daquela mulher na boca da minha mãe foi como engolir ácido. Babi soltou meu rosto e bateu a mão espalmada contra o próprio ventre. — Eu te gerei aqui dentro, Gabriel! — a voz dela rasgou a cozinha, feroz e absoluta. — Eu te conheço mais do que qualquer um, não me importa o que você pensa. E sabe quem foi que eu formei aqui dentro? Eu travei, a garganta fechando. — Não foi o homem fraco e quebrado que aquela v***a convenceu você a ser! — ela gritou, a dor maternal transbordando. — O homem que saiu das minhas entranhas é forte. É o herói de alma gentil que arrisca a própria vida todos os dias para salvar os outros. Esse é você! O peso daquelas palavras esmagou meus pulmões. Tentei me afastar, recuar para a minha escuridão, mas Babi avançou. Ela cravou as unhas afiadas nos meus braços, me prendendo no lugar. — Eu sei do ódio podre que ela plantou dentro de você — Babi rosnou, a centímetros do meu rosto. — Quero que você pegue esse ódio... e use como combustível! Havia um vulcão explodindo nos olhos dela. — Não deixe aquela v***a ganhar! Eu sei o que ela te disse. Sei por que você se destrói assim. Ela cravou na sua mente que você não é bom, que é sujo e não merece ser amado. Meu peito subia e descia em arfagens pesadas. Ela estava tocando nos lugares mais obscuros e podres da minha alma. — Você tem que provar que essa p**a desgraçada está errada! — Babi chacoalhou meu rosto. — Não por mim. Porque você merece ser feliz! Fechei os olhos. O Alfa caído sendo forçado a encarar a própria covardia. — Eu amo você, Gabriel. — O tom dela caiu, íntimo e cortante. — E eu quero que você seja diferente do seu pai. Abri os olhos em choque. Até Nathanael parou o copo de bebida no ar. — O seu pai desistiu de mim por não se achar bom o suficiente. Ele destruiu o que a gente tinha. Ela engoliu em seco. — Eu sei o que ele te disse lá fora hoje. E eu sei que eu mesma mandei você deixar a Júlia ir. Mas você não vai. Arfei, o ar faltando. — Porque a Júlia é a única que te faz bem. Sem ela, você vai entrar num buraco sem fim e eu não quero ver meu filho sofrer de novo! Os olhos dela brilharam com uma certeza ancestral. — Você vai lutar por ela com tudo o que tem! E se disser que não tem nada, você vai encontrar. Porque ela te tirou da maldição, Gabriel! Ela é destinada a você. Só não dá para provar porque ela não tem uma loba, mas eu sei que, se ela tivesse, você sentiria! O meu lobo, acuado e ferido, choramingou, reconhecendo a verdade pura daquelas palavras. — Ela cuidou de você... e você vai dar tudo o que é para ela voltar. — Babi bateu no meu peito. — E sabe por que mais você vai lutar? Porque tem duas crianças lá fora que precisam do pai! A menção aos meus filhos foi o nocaute. A lembrança dos gritos de terror do Cassian e do Connor rasgou minha mente. — Não deixe aquela desgraçada destruir o pai deles! Não deixe a Katherine atingi-los por tabela! Babi apontou o dedo na minha cara. — Ela está morta, mas ainda te controla. Não deixe isso acontecer. Eles merecem um pai curado. Um pai que luta pela mãe deles e não se curva para fantasmas do passado! Foi golpe baixo falar dos meus filhos. Mas ela usou as exatas palavras para me destruir e me reerguer. Meu sangue ferveu. A fera dentro de mim, que estava chorando pela parceira, rosnou. Um som letal. Eu não aceitaria a derrota. Eu iria consertar a p***a do meu erro. Levantei e saí da cozinha. O chão tremendo sob os meus pés. Fui para o meu quarto de hóspedes. Entrei embaixo do chuveiro gelado. A água lavou o sangue seco da minha pele. O vermelho rodopiou ralo abaixo, mas a culpa continuou incrustada nos meus ossos. Eu esfreguei minhas mãos até a pele arder. O sermão da minha mãe queimava nas minhas veias. A estátua de gelo havia derretido. O instinto protetor estava gritando. Vesti roupas limpas. Uma calça escura e uma blusa preta. Eu estava pronto para a guerra. Eu ia voltar para aquela enfermaria e não sairia do lado da minha mulher até que ela abrisse os olhos. E quando abrisse, eu provaria que era um companheiro digno. Marchei pelo corredor escuro. Meus passos eram firmes. Determinados. Parei na porta da enfermaria. Estava entreaberta. Uma fresta de luz branca cortava a penumbra. O som do monitor cardíaco estava calmo e rítmico. Mas a voz sussurrada de Rafael me paralisou no lugar. — Júlia... você está morrendo. O tom médico e desesperado do meu irmão fez o chão sumir sob os meus pés. — Precisamos arrumar um Alfa puro para te marcar com urgência. Seu quadro está piorando ainda mais. Engoli em seco. O oxigênio travou. Alfa puro? Marcar? — Acredito que, de alguma forma sombria, a sua loba responde ao lobo do Gabriel. Meu coração errou uma batida violenta. A loba dela? Do que ele está falando? — E o fato de ele te rejeitar... está te matando. E agora está pior. Ouvi Rafael soltar um suspiro pesado, o som de um homem perdendo a guerra. Um farfalhar de lençóis arranhou o silêncio. A voz de Júlia soou. Ela estava em um estado de quase inconsciência. A voz era um fio. Fraca. Debilitada. Um sopro fantasmagórico. — Eu vou... o Dante... O nome me atingiu como um tiro de escopeta no peito. O lobo dentro de mim, que instantes atrás estava revigorado para lutar, rosnou em fúria pura e possessiva. — Dante?! — Rafael não escondeu o repúdio. — Júlia, pelo amor da Deusa, ele não presta! Aquele lixo não serve! Vamos conseguir alguém melhor... — Ele é... a minha escolha... A respiração dela era pesada, lutando contra o próprio corpo. — Vou pedir... que ele me marque... na próxima lua cheia. O escuro do corredor pareceu me engolir vivo. Meu coração martelava contra as costelas, ameaçando quebrar a caixa torácica. Minha boca secou como poeira de cemitério. Aquela conversa de trinta segundos revelou um inferno de informações. Ela escondia uma fera letal dentro de si. Ela estava morrendo de forma irreversível por causa da minha rejeição. E, para sobreviver ao que eu causei, a mulher da minha vida iria se entregar ao maior desgraçado que eu conhecia. O Alfa que acordou em mim uivou de agonia. Eu queria destruir o mundo por ela. Mas como eu poderia lutar, se o preço para mantê-la viva era assistir o Alfa Dante fincar os dentes no pescoço da minha parceira?
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