POV DANTE LEONE
A dor de cabeça pulsava forte na base do meu crânio, como se martelos estivessem quebrando meus ossos por dentro.
Eu m*l tinha aberto os olhos, o corpo ainda pesado pelo cansaço da madrugada, quando o som metálico da fechadura girando rasgou o silêncio da minha casa.
Meus músculos tensionaram no mesmo instante. O lobo dentro de mim despertou, as garras arranhando sob a pele.
O cheiro doce e enjoativo de perfume francês inundou a sala de estar, cortando o ar frio da manhã.
Meu peito apertou com uma familiaridade súbita. Uma lembrança que anos de separação não conseguiram apagar do meu sistema.
Chiara Salvatore. Minha ex-companheira.
A mulher que eu conhecia desde a infância. A única, além de Júlia, que eu realmente amei. E a mesma mulher que fez as malas, destruiu meu orgulho e me deixou.
Ela já estava no meio da cozinha quando eu apareci na porta do corredor, descalço, sem camisa e com os punhos cerrados.
Ela ainda tinha a cópia da chave. O metal brilhava na mão dela. Eu nunca tive coragem de pedir de volta.
Matteo, meu filho, estava ao lado dela. Os nós dos dedos do menino estavam brancos de tanto apertar a alça da mochila escolar com força. A tensão no ar era palpável.
Chiara me olhou de cima a baixo. Um brilho escuro de posse antiga cruzou os olhos mel-âmbar dela, afiados como lâminas.
Ela largou as chaves no balcão de mármore. O estalo seco ecoou pela cozinha inteira.
— Matteo, mio bambino — Chiara disse. A voz caiu para aquele tom italiano melódico, macio e perigoso que ela sempre usava com ele. — Por que você não sobe para o seu quarto um pouquinho? Mamma precisa falar com o Papà, sí?
Matteo olhou de mim para ela. O medo brilhava nos olhos dele. Ele apenas assentiu, subindo as escadas em silêncio, fugindo da tempestade que estava prestes a desabar.
Chiara só esperou o menino sumir no topo do corredor. O ambiente esfriou.
Então, ela deslizou pelo piso. Aproximou-se de mim com a graça letal e silenciosa de uma felina caçando sua presa.
Ela parou a centímetros do meu peito nu. O calor do corpo dela irradiava. O vestido de estampa de leopardo moldava cada curva que eu ainda conhecia de cor.
— Adoro seu cheiro pela manhã, Amore mio — ela sussurrou, a voz carregada de veneno e mel.
Ela se inclinou ligeiramente, inalando perto do meu pescoço. O roçar do nariz dela na minha pele mandou um arrepio pela minha espinha.
Travei o maxilar até os dentes doerem. A irritação que eu demonstrei era só da boca para fora. Um escudo frágil para esconder o quanto a presença autoritária dela ainda mexia com os meus instintos.
— O que você está fazendo aqui a essa hora, Chiara? — perguntei. A voz saiu mais rouca e gutural do que eu queria.
Ela não respondeu. Os olhos semicerrados farejaram o ar. O sorriso vitorioso dela sumiu, substituído por uma frieza cortante que congelou a sala.
O nariz dela captou o rastro fantasma. Limão e baunilha. O cheiro que ainda impregnava os lençóis da minha cama.
— Ela dormiu aqui. — Não foi uma pergunta. Foi uma sentença de morte.
A postura dela enrijeceu, perfeita e letal. A lembrança do dia em que ela me deixou bateu na minha mente com força, abrindo velhas cicatrizes.
As palavras dela ainda estavam marcadas a ferro quente na minha nuca: "Não sou mulher de ser segunda opção, muito menos ficar na sombra de uma mulher que nunca será sua."
— Chiara, não começa... — tentei cortar, passando a mão pelos cabelos, frustrado e exausto.
— Eu aceitei muita coisa, Dante. — Ela cravou as unhas compridas, pintadas de um vermelho-sangue vibrante, no mármore da ilha. O orgulho ferido dela era quase sólido no ar. — Mas eu não vou assistir você destruir a própria vida e a do nosso filho por causa daquela loba quebrada.
— Não fale da Júlia — rosnei baixo. O peito vibrou com o aviso. O instinto de proteção brigando brutalmente com o carinho que eu ainda sentia pela mulher na minha frente.
Chiara se aproximou mais um passo. Não havia medo nela. A fúria no olhar dela era a de uma rainha destronada e sedenta por sangue.
— Eu vou acabar com a vida dela se você ficar com ela. Como eu fiz da última vez — ela ameaçou. A voz não passou de um sussurro letal e absoluto. — Você nunca vai ficar com ela, entendeu?
Meu sangue gelou nas veias. Eu conhecia Chiara Salvatore. Ela não fazia ameaças vazias. Se ela disse que iria destruir, não sobraria pedra sobre pedra.
— Fique longe dela — avisei, forçando minha postura de Tenente, tentando manter a voz firme contra a aura sufocante dela.
Chiara não recuou um milímetro. O olhar dela perdeu a fúria por uma fração de segundo, dando lugar a uma pena c***l que feriu meu orgulho como vidro quebrado.
— Cuidado com as suas escolhas, Dante — a voz dela soou quase nostálgica, como se cantasse uma marcha fúnebre. — A Júlia já foi o seu inferno antes e eu te tirei dele.
Ela deu mais um passo na minha direção. O perfume francês dominou meus pulmões, me asfixiando.
— Dessa vez eu não vou estar lá pra te salvar.
Engoli em seco. O nó na minha garganta arranhou.
Tentei disfarçar as lembranças doentias que me consumiam, lutando contra o peso do passado e das rejeições, mas ela me conhecia melhor do que eu mesmo.
— Lembre-se sempre... — ela sussurrou no meu ouvido, cada sílaba pingando veneno puro direto na minha mente. — Mulher de Blackwolf nunca deixa de ser deles.
Aquelas palavras doíam. Era mil vezes pior do que receber um soco direto no estômago. O ar faltou nos meus pulmões. O chão pareceu ceder.
— Ela não tem a marca dele... — murmurei. A voz saiu fraca, vazia de qualquer convicção, quase implorando para que fosse verdade.
Cruzei os braços sobre o peito nu, abaixando o olhar. Me recostei na pedra fria da pia da cozinha. A derrota vazava por cada poro do meu corpo, manchando o chão sob meus pés.
O som dos saltos finos dela estalou no piso de madeira. Senti o calor do corpo de Chiara colar no meu.
Ela se aproximou de vez, envolvendo os braços macios ao redor do meu pescoço. As unhas vermelhas roçaram levemente na minha nuca. Um toque que misturava posse, luto e aviso.
— Querido... — o tom dela era um lamento suave e imensamente perigoso. — Você só está cometendo os mesmos erros. De novo.
Ela encostou o rosto perto do meu. O hálito quente batendo na minha pele arrepiada.
— Ela nunca será sua. Entenda isso e siga em frente — Chiara pediu. Ela apertou o abraço por um segundo, um resquício da mulher que um dia me amou. — Por favor... pelo nosso bambino.
Ela me soltou devagar, como se arrancasse um curativo de uma ferida aberta.
Pegou a bolsa de grife no balcão e caminhou até a saída. Os cabelos castanhos cacheados e cheios dela balançaram enquanto ela se afastava. Ela deslizou para fora da minha casa com uma postura impecável, sem sequer olhar para trás.
A porta bateu com um estalo seco. O baque reverberou na minha espinha.
O silêncio voltou a reinar na cozinha. Estava tão sufocante quanto a certeza absoluta de que eu havia jogado fora uma família inteira por uma mulher que não me pertencia.
Mais tarde, o ar frio e úmido da rua pinicava minha nuca enquanto eu deixava Matteo na escola.
A ameaça fantasma de Chiara ainda ecoava no meu crânio como um sino quebrado, badalando sem parar.
Meus olhos varreram o pátio do colégio automaticamente. Meu lobo procurava. O cheiro de giz, asfalto e terra molhada dominava tudo.
Nada do toque cítrico de limão. Nada da doçura da baunilha. Nada da presença suave e curativa de Júlia.
— A professora Blackwolf não veio hoje? — perguntei à coordenadora no portão. Forcei um tom casual, escondendo as garras que queriam sair rasgando minhas próprias mãos.
A mulher ajeitou os óculos no rosto. O olhar dela desviou do meu, claramente evasivo.
— Não. Ela está de licença há uns dias.
Um gosto ácido e amargo subiu à minha boca. O estômago despencou.
“Licença? Dias? O que estava acontecendo que eu não sabia?”
Entrei na viatura e dirigi para a delegacia com os punhos cerrados, apertando o couro do volante até os nós dos dedos estalarem de tensão.
O saguão da delegacia fedia a suor velho, mofo escondido nas paredes e tensão policial pura. O caos estava instaurado. Telefones tocavam sem parar e policiais corriam pelos corredores.
Gabriel Blackwolf, o maldito Comandante da Polícia Lupina, não havia aparecido para o plantão de novo. O cheiro de alfa ausente deixava todos agitados.
— Onde caralhos está o seu Comandante? — exigi, parando abruptamente na frente da mesa do Sargento Johnny Blackwolf. Bati as mãos na madeira.
O desgraçado parou de digitar no teclado. Ele ergueu os olhos azuis e me mediu de cima a baixo com um deboche insuportável.
— Cuidando de assuntos pessoais, Tenente Leone. Não é da sua conta.
A insolência bateu de frente com meu orgulho. O rosnado rasgou minha garganta, mas o som morreu instantaneamente quando as portas duplas do saguão foram escancaradas com uma brutalidade ensurdecedora.
O oxigênio da sala inteira foi sugado de uma vez só.
Todos os policiais congelaram em suas mesas. Ninguém respirava. Ninguém se movia.
Emmett Blackwolf. O Comandante Geral da Polícia Lupina.
Ele era um Gama. O tempo não o havia envelhecido, apenas o forjado em granito puro e violência contida.
Fios prateados se misturavam ao cabelo loiro militar.
Uma cicatriz brutal marcava o maxilar rígido, e a postura na farda n***a era de uma precisão impecável e mortal.
A aura esmagadora que emanava dele parecia gravidade pura. Era o tipo de presença que dobraria a espinha e estilhaçaria os ossos de qualquer Alfa frouxo.
O olhar de gelo de Emmett varreu o saguão e cravou direto em mim. Pesado como blocos de concreto.
— Meu sobrinho não está. Então você responde por esta merda até ele voltar, Leone. — A voz dele era cascalho puro. Cortante, fria e sem margem para erro ou discussão.
Ele atirou uma pasta preta de arquivos direto no meu peito. O baque me fez dar um passo para trás.
— Temos um assassino retalhando mulheres na nossa praia. Eu quero relatórios e contenção agora, ou eu arranco a sua patente com os dentes. Fui claro?
A humilhação engoliu meu dia inteiro. Senti o olhar de escárnio de cada policial nas minhas costas. Eu era o palhaço do circo daquela família.
A madrugada caiu, pesando violentamente nos meus ombros na sala de operações. O escritório pequeno fedia a café frio e frustração.
Espalhadas pela mesa tática estavam as fotos da última vítima do mascarado. O corpo mutilado tinha cabelos castanhos e uma estrutura que se parecia bizarramente com Júlia. A semelhança me causava náuseas que reviravam meu estômago.
Foi quando as dobradiças da porta estalaram, quebrando sob uma força desumana.
Gabriel arrombou a sala. A madeira lascou no batente.
Ele fedia a sangue puro. Um odor metálico e doce que encheu meus pulmões. O sangue dela.
O pânico bateu tão forte no meu peito que o ar fugiu do meu corpo.
Ele ergueu o rosto para mim. Os olhos azuis elétricos estavam sombrios, carregados de pavor e morte.
— A Júlia está morrendo, Dante.