Capítulo 16 - O Gostinho da Liberdade

1034 Words
POV Júlia Montserrat Dante soltou um suspiro fundo, os ombros caindo levemente enquanto ele largava o celular sobre a mesa com um estalo seco. — Estão me chamando para a delegacia. Todos foram chamados... — Ele fez uma pausa, o olhar fixo no meu, carregado de uma intensidade sombria. — Encontraram um corpo na praia. De uma mulher. Eles acham que é você, Júlia. Eu paralisei. O pedaço de torrada na minha mão pareceu pesar toneladas. Senti meu sangue esfriar, uma dormência começando nas pontas dos meus dedos e subindo pelos braços. Franzi a testa ainda processando a informação. — Eu? Por que eles acham que sou eu? — As palavras saíram mecânicas. Minha mente começou a correr a mil por hora. Eu piscava devagar, tentando processar a imagem de mim mesma morta na areia. Uma reação nervosa me atingiu e eu soltei uma risada curta, seca, sem qualquer humor. Levei a mão à boca, sentindo meus lábios tremerem. — Eu não sei... — Dante respondeu, a voz rouca. Ele se inclinou para frente, cruzando os braços sobre a mesa. — O que você quer fazer? Todo tipo de emoção me atingiu de uma vez, como uma onda quebrando com violência. Por um segundo, a ideia brilhou na minha mente como um diamante bruto: era perfeito. Morta, eu não seria mais o peso da alcateia. Não seria mais a mulher que "destruiu" o herdeiro Blackwolf com um escândalo, ou a mulher que traiu a própria irmã e o próprio noivo anos atrás. O desgosto da linhagem Montserrat seria finalmente enterrado. Eu poderia ser livre. Poderia mudar de nome, atravessar a fronteira com Dante e nunca mais olhar para trás. Mas então, o pensamento minguou. Meus filhos. Senti uma pontada física no útero, uma dor visceral. Connor e Cassian. Eu via os rostos deles, as risadas, o jeito que eles me procuravam quando tinham pesadelos. Eu não podia deixá-los. Não podia viver sabendo que eles cresceriam acreditando que a mãe os abandonou da forma mais definitiva possível. Eles precisavam de mim, nem que isso significasse que eu teria que carregar minhas dores e enfrentar o inferno dos Blackwolfs novamente. — Parece que você está em conflito — Dante notou, a voz suave, observando a forma como eu apertava a camisa dele entre meus dedos, amassando o linho. — É... tive umas ideias, mas não consigo segui-las — admiti, soltando o ar que nem percebi que prendia. — Seria interessante, sabe? Desaparecer. Eu já tenho o álibi perfeito, o mundo já me enterrou... mas meus filhos... Olhei para Dante, esperando que ele usasse sua lábia de Leone para me convencer a fugir. Pensei que ele fosse me dar forças para desaparecer, para sermos apenas nós dois longe daquela guerra. Mas ele me surpreendeu. Dante esticou a mão sobre a mesa, não para me puxar, mas para me dar um ponto de apoio. Sua mão pousou na minha. — Eu entendo — ele falou, a voz firme e carregada de uma compreensão que me fez querer chorar. — Não dá para fazer isso com eles. Aquelas palavras selaram o meu destino. A paz na casa dos Leone tinha acabado. Eu não era mais um fantasma; eu era uma mãe que precisava voltar para o ninho, mesmo que o ninho estivesse em chamas. — Eu preciso ir, Dante. Eu preciso que eles saibam que eu estou viva antes que o Gabriel faça alguma loucura. Depois da notícia o café foi mais rápido. Tomei um banho rápido, sentindo a água quente levar embora o cheiro de sal e o rastro de medo da noite anterior, mas mantendo a memória do conforto daquela casa. Vesti minhas próprias roupas, sentindo o tecido familiar contra a pele, e Dante me levou até a mansão Blackwolf. O caminho foi feito em um silêncio denso. Eu sabia que todos estariam lá. A alcateia em peso, o luto, a dor. Quando ele parou o carro diante dos portões imponentes, o ar pareceu sumir dos meus pulmões por um segundo. Olhei para ele, para o homem que tinha sido minha sombra e meu salvador. Peguei na mão dele, sentindo o calor e a força que emanavam de Dante, e me aproximei. — Dante, obrigada por ter me salvado. Se não fosse você, eu realmente estaria morta... — Minha voz falhou por um instante. — Você salvou a minha vida pela segunda vez já. Eu não sei como te agradecer por tanto... Mordi os lábios, sentindo as emoções me inundarem. Gratidão, alívio e algo mais profundo, que eu ainda não tinha coragem de nomear, mas que queimava no meu peito. Ele se inclinou mais para mim, os olhos verdes fixos nos meus, devorando cada detalhe do meu rosto com uma intensidade que me fazia sentir viva como nunca. — Eu faria tudo de novo por você, Júlia... — ele sussurrou, e a promessa naquela voz rouca vibrou na minha alma. Pensei em como eu pediria para aquele homem me salvar uma terceira vez. Eu não queria ser apenas a vítima resgatada; eu queria ser a mulher que escolhia estar ao lado dele. Então, tomei minha decisão. — Que tal um jantar? Na sexta, o que acha? Os olhos dele brilharam imediatamente, uma faísca de triunfo e surpresa iluminando o verde profundo. — Claro. Eu acho perfeito. Te pego às 20h? — Às 20h está ótimo! — respondi, sorrindo de verdade pela primeira vez em muito tempo. Inclinei-me e dei um leve beijo nos lábios dele. Senti a surpresa percorrer o corpo de Dante, a forma como ele travou por um milésimo de segundo antes de relaxar completamente sob o toque. Nossos lábios pareciam se encaixar de uma forma diferente e estranha, nova e assustadoramente boa. Era o gosto da liberdade misturado com a promessa de algo real. — Até sexta — sussurrei depois que me afastei. Saí do carro sem olhar pra trás, sentindo o olhar dele me proteger até eu cruzar o portão. Encarei a mansão imponente. O cheiro de luto e desespero emanava das paredes. Mas eu não era mais a mesma. Eu tinha voltado dos mortos. E agora... eu ia buscar o que era meu. Mesmo que doesse. Mesmo que Gabriel tentasse me impedir.
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