POV de Júlia
O silêncio reinou por um segundo, quebrado apenas pelo som da chuva batendo na janela.
E então ele respondeu.
A voz dele soou profunda, carregada de uma arrogância que só ele possuía, vibrando contra a minha espinha como um aviso.
— Por que eu procuraria uma p**a na rua se eu tinha a minha mulher na minha cama? — A voz dele soou profunda, carregada de uma arrogância que só ele possuía.
As palavras de Gabriel foram ficando lentas, arrastadas pelo cansaço que finalmente o vencia.
— Você pode ser muitas coisas, Júlia... mas r**m de cama você não é. Sempre me deixou louco. Eu estaria mentindo se dissesse que não te queria. Eu sempre vou te querer, independente da situação.
Senti o peso do corpo dele relaxar contra o meu.
O braço que envolvia minha cintura se moveu por puro instinto, um hábito que nem o divórcio ou o ódio foram capazes de apagar.
Como ele fazia em todas as noites dos últimos sete anos, Gabriel deslizou a mão por baixo da seda da minha camisola.
A palma grande e calejada buscou o calor da minha pele nua, subindo até se fechar com firmeza sobre o meu seio.
Ele não estava me pedindo sexo. Não era um prelúdio.
Era a âncora dele.
Gabriel enterrou o rosto no meu pescoço e afundou os dedos na minha carne, como se precisasse daquele contato direto e quente para conseguir respirar.
Ele sempre dormia assim. Só desligava o mundo quando sentia meu coração batendo contra a mão dele, protegida pelo calor do meu corpo.
Eu tentei me afastar, mas ele era pesado demais. Um muro de músculos e teimosia que se recusava a soltar o que considerava dele.
E, no fundo, a confissão dele afagou meu ego de uma forma doentia.
Ouvir aquela voz grossa dizendo que era louco por mim quebrou uma das pedras da parede que eu estava erguendo para afastá-lo.
Ele sempre fazia isso comigo. No passado, me destruindo com o silêncio e me mantendo cativa com esse conforto possessivo.
Fechei os olhos, sentindo o peso da mão dele dentro da minha roupa e o ritmo da sua respiração se acalmando.
Eu estava morrendo. Estávamos separados.
Mas, no escuro daquele quarto, eu ainda era o único lugar onde o Alfa conseguia encontrar paz.
[Flashback do passado 10 anos atrás]
Meus olhos estavam fechados, mas o sono não veio. Apenas o passado.
O calor da mão de Gabriel na minha pele agiu como um gatilho, me jogando de volta para sete anos atrás. Para o corredor escuro daquela mansão de veraneio, longe do barulho da festa e perto demais do som do mar.
Eu estava namorando o Arthur.
Ele era perfeito. Um lobo Alfa de porte, alto, loiro, musculoso e com um sorriso que deveria ter sido o suficiente para me salvar. Arthur me desejava, e eu me forcei a aceitá-lo, acreditando piamente que ele seria o rascunho que apagaria o desenho de Gabriel da minha vida.
Mas ali, naquele corredor estreito após eu sair do banheiro da piscina, a mentira desmoronou.
Eu tentava passar, mas parecia que estávamos em uma dança macabra. Eu ia para a esquerda, ele bloqueava. Eu ia para a direita, ele me cercava. Gabriel estava ali, exalando uísque e uma fúria contida que eu não entendia.
Estávamos há nove meses sem nos falar. Nove meses vendo-o postar fotos com a minha irmã, sorrindo para a Jade, agindo como o namorado ideal enquanto eu sangrava por dentro.
— Você seguiu em frente muito bem, Júlia... — A voz dele saiu arrastada, meio bêbada, crua. — Parece feliz com ele.
Eu encarei o chão. A raiva subiu como bile, queimando minha garganta.
— É... digo o mesmo de você. Parece feliz com ela. Parabéns. Agora, me dá licença.
Tentei passar, mas esbarrei no braço dele. O toque foi como uma descarga elétrica que me fez recuar como se a pele dele estivesse em brasa. No auge dos seus vinte e três anos, Gabriel já era uma muralha de músculos de quase dois metros. Ele era inevitável.
— Me dá licença! — rosnei, a irritação mascarando a dor.
— Tá com pressa de voltar para o seu namorado? — Ele não moveu um músculo. O tom era de puro deboche, de uma posse que ele nem tinha o direito de reivindicar.
— Sim! Na verdade, estou muita. Agora sai da minha frente!
— Por que não consegue olhar para mim? Hein? — Ele deu um passo à frente, invadindo meu espaço pessoal, me prensando contra a tensão do ar. — Olha nos meus olhos, Júlia...
Eu mordi os lábios até sentir o gosto de sangue. Cruzei os braços, olhando para qualquer lugar — para a saída, para o mar, para as sombras — menos para aqueles olhos azuis elétricos que pareciam cães arrependidos e lobos famintos ao mesmo tempo.
"Nem fodendo que eu vou olhar para ele."
— Eu não tenho que fazer p***a nenhuma para você, Gabriel. Sai da minha frente e me deixa em paz.
Eu mentia. Eu gritava por paz enquanto cada fibra do meu corpo implorava para que ele me puxasse e acabasse com aquele teatro. A tensão era palpável — um misto de mágoa corrosiva e um desejo reprimido que ameaçava explodir o corredor.
Ele havia me humilhado. Tinha escolhido a Jade. E agora, ali, no escuro, ele agia como se o fato de eu estar com o primo dele fosse um insulto pessoal.
— Olha nos meus olhos, Júlia... — a voz dele desceu uma oitava, ficando perigosamente rouca.
Eu mantive meu queixo erguido, focada em um ponto morto na parede de mármore atrás do ombro dele. Se eu olhasse, eu desabaria. Se eu olhasse, ele veria que o Arthur era apenas uma tentativa desesperada de não morrer afogada na ausência dele.
— Da pra você sair da merda do meu caminho? — sibilei pra ele. O meu maxilar tava travado de tanta tensão.
Tentei empurrá-lo. Minhas mãos espalmaram contra o peito dele, sentindo a firmeza dos músculos sob a camisa social fina. Foi um erro. O calor da pele dele atravessou o tecido, disparando um choque que me fez perder o fôlego.
Ele não se moveu um milímetro. Em vez disso, Gabriel deu um passo à frente, me prensando contra a parede fria do corredor.
A diferença de altura era humilhante. Ele era uma muralha de 1,96m, me cercando, me sufocando com aquele cheiro de uísque e poder que eu odiava amar.
— Paz? — Ele soltou uma risada seca, sem alegria nenhuma. — Você acha que eu tenho paz vendo aquele i****a tocar em você? Vendo o Arthur exibir você como se fosse um troféu?
— O Arthur me trata como eu mereço! — disparei, finalmente encontrando coragem para cravar meus olhos nos dele. — Ele não me esconde. Ele não tem vergonha de estar comigo. Ele me escolheu, Gabriel! Coisa que você foi covarde demais para fazer.
O brilho azul elétrico nos olhos dele oscilou. A dor passou por ali antes de ser substituída por uma possessividade sombria.
— Eu nunca tive vergonha de você — ele rosnou, a mão dele subindo e batendo na parede, logo ao lado da minha cabeça. — Você não sabe porque eu fiz oque fiz.
— Eu sei que você é um mentiroso. — Minha respiração estava curta, meu peito subindo e descendo, roçando no dele a cada arfada. — Agora sai. O meu namorado deve estar me procurando.
Ouvir a palavra "namorado" pareceu quebrar o último resto de controle que ele tinha.
Gabriel se inclinou, o rosto a centímetros do meu. Eu conseguia sentir o calor da pele dele, o desejo emanando em ondas, misturado com a mágoa de nove meses de silêncio.
— Deixa ele procurar — ele sussurrou contra meus lábios, mas sem me beijar. Era uma tortura calculada.
— Deixa o mundo inteiro procurar.
Ele deslizou a outra mão pela minha cintura, os dedos longos se fechando com força no meu quadril, me puxando para cima, forçando meu corpo contra o volume da sua ereção que ele nem tentava mais esconder.
— Você pode deitar na cama dele, Júlia... — ele rosnou no meu ouvido, os dentes roçando no lóbulo da minha orelha, me fazendo estremecer da cabeça aos pés. — Mas nós dois sabemos quem é o dono desse corpo. Nós dois sabemos que, quando ele te toca, é o meu nome que você grita no escuro.
Gabriel ergueu a mão de forma audaciosa, afastando uma mecha do meu cabelo.
Agi por puro reflexo. Dei um tapa na mão dele, o estalo ecoando no corredor vazio.
— NÃO TOCA EM MIM, SEU BABACA! — Rosnei, a fúria vibrando em cada osso do meu corpo.
O sorriso que surgiu no rosto dele era predatório, de lado, mas não chegava aos olhos.
Nos olhos dele, havia uma confusão de tristeza profunda e um brilho sádico de diversão, como se uma chama pequena e doente estivesse queimando ali.
Tentei recuar, mas Gabriel foi mais rápido.
Ele me puxou com força e me prensou contra a parede. Eu estava encurralada entre o mármore frio e o calor sufocante do corpo dele.
A lembrança daquela mesa de jantar me atingiu como um soco.