POV DE JÚLIA MONTSERRAT
[CONTINUAÇÃO DO FLASHBACK — 8/9 ANOS ATRÁS]
Perséfone me encarava com uma pena que doía no fundo da minha alma.
— Ju, amor mío... — ela começou, a voz suave e c***l ao mesmo tempo. — Não importa se vocês tiveram algo antes. Ele só te usou e te descartou, você não percebe?
Ela me olhava com pena.
— Ele não gosta de você. Só está te usando para alimentar o ego dele.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Cada palavra dela era como um prego sendo batido no caixão da minha dignidade.
— Isso não é verdade... — Gabriel resmungou do meu lado.
Ele deu um passo à frente, a mandíbula travada, os olhos fixos na minha irmã. O clima de "família" tinha acabado.
Daniel, que estava ao lado da Perséfone, rosnou baixo, a aura de Alfa dele pressionando o oxigênio para fora da cozinha.
— Não é verdade? — Perséfone desafiou, voltando-se para Gabriel com um sorriso amargo.
— Então por que é o nome da Jade que está no seu perfil nas redes sociais? Por que é com a Jade que você desfila na frente de todo mundo enquanto se esconde no escuro da cozinha com a Júlia?
Gabriel abriu a boca para responder, mas as palavras pareceram morrer.
Eu olhei para ele, esperando... rezando para que ele dissesse algo que me salvasse daquela humilhação.
Mas o silêncio dele foi a resposta mais barulhenta que eu já ouvi na vida.
— Amor mío, eu já estive no seu lugar, já cometi esse erro — Perséfone sussurrou, a voz embargada por uma memória que ainda parecia sangrar.
— O Gabriel é só uma cópia do Miguel. Eu me perdi por causa do Miguel... eu quase morri por causa dele.
Ela balançou a cabeça, os olhos distantes.
— Eu me transformei em uma pessoa que eu nem reconhecia, capaz de machucar pessoas e fazer coisas ruins. E eu não quero ver você cometer os mesmos erros que eu.
Ela pegou meu rosto com as mãos, segurando minha pele com uma delicadeza extrema, como se meu rosto fosse o meu próprio coração batendo nas mãos dela.
Ela usou os polegares para enxugar minhas lágrimas, mas outras vinham logo em seguida.
— Ju, você é tão linda, sabia? Lembra que a vovó Madrigal dizia que éramos meninas com beleza perigosa? Que os homens enlouqueceriam por causa de nós?
O polegar dela acariciou minha bochecha.
— Mas olha só para a gente aqui... enlouquecendo por causa deles. Se quebrando por causa deles.
Aquelas palavras doíam demais. Era a herança das mulheres da nossa linhagem sendo jogada na minha cara de forma c***l. Perséfone continuou:
— Você é inteligente, doce, gentil... e está com uma pessoa incrível. O cara perfeito, que tem orgulho de te assumir pro mundo. Não estraga isso por alguém que escolheu outra.
Ela me fixou com o olhar.
— Você se lembra? Eu estava lá no dia, Ju, na mesa de jantar. Ele escolheu ela.
A menção àquele jantar foi como uma facada final. O dia em que o Gabriel selou o destino dele com a Jade na frente de todos, enquanto eu morria por dentro.
— Se afasta dele antes que você perca uma pessoa incrível. Eu já estive no seu lugar, eu quase perdi o Daniel e, acredite em mim: você vai se arrepender muito se perder o Arthur.
Ela me abraçou. Foi um abraço de irmã, de proteção, mas eu chorava tanto que soluçava contra o ombro dela.
Eu estava com tanto ódio de mim mesma, sentindo o cheiro do Gabriel ainda na minha pele enquanto minha irmã tentava me salvar de mim mesma. Eu queria morrer naquele momento.
Apertei a Perséfone de volta com toda a força que me restava, buscando nela o chão que eu tinha acabado de perder.
Me afastei do abraço da Perséfone. O calor da minha irmã foi substituído pelo frio cortante daquela madrugada, e eu o encarei.
Meus olhos já deviam estar quase inchados de tanto chorar, a visão borrada, mas a determinação começando a endurecer o que restava do meu coração.
Gabriel me encarou de volta. Não havia remorso nele.
Não havia dor, nem o brilho de quem se sentia culpado por estar destruindo duas famílias ao mesmo tempo.
O que eu via naquelas orbes azuis era apenas um brilho de irritação, a impaciência de um Alfa que odiava ser questionado ou interrompido.
Meu peito subia e descia em uma respiração curta e errática.
Eu cerrei meus punhos com tanta força que minhas unhas cravaram na palma da mão, tentando encontrar um pingo de coragem naquela dor física.
Ele olhou ao redor, ignorando o meu estado deplorável, e se voltou para Perséfone e Daniel ao lado dela. A voz dele saiu firme, sem um pingo de hesitação:
— Será que dá pra vocês deixarem eu e ela conversar?
— Gabriel disparou, a arrogância vibrando em cada sílaba.
— Sinceramente, isso não é da conta de vocês. A gente já ouviu o que vocês tinham pra falar, agora precisamos conversar a sós!
O pedido dele soou como uma ordem, uma tentativa desesperada de retomar o controle da situação. Mas o silêncio que se seguiu foi mortal.
Daniel deu um passo à frente, a mandíbula tão travada que eu podia ouvir o ranger dos dentes dele.
Perséfone soltou uma lufada de ar, incrédula com a audácia do homem que acabara de ser pego em cima da irmã dela.
Eu olhei para o Gabriel e, pela primeira vez, a atração que eu sentia foi sufocada pelo nojo.
Ele queria "conversar a sós" para me manipular de novo? Para me convencer de que o que tínhamos era maior que a lealdade que eu devia ao Arthur ou à Jade?
Eu não ia permitir.
— A gente vai, mas eu vou ficar bem ali do lado de fora da cozinha, não vou deixar você se aproveitar mais dela de novo. Pode tirando seu cavalinho da chuva — Perséfone falou, a voz firme e gelada.
Ela e Daniel se viraram, mas o som dos passos deles parando logo no corredor indicava que a "privacidade" que o Gabriel tanto queria era apenas uma ilusão.
Eles estavam logo ali, como sentinelas da minha vergonha.
O silêncio que se instalou na cozinha era insuportável, carregado pelo cheiro do nosso pecado e pelo peso das palavras da minha irmã que ainda flutuavam no ar.
Ficamos apenas eu e ele.
Gabriel deu um passo na minha direção, tentando diminuir a distância. Ele parecia ignorar completamente o fato de que a minha vida estava desmoronando; para ele, o maior incômodo era ter sido interrompido.
— Júlia, olha pra mim — ele começou, a voz tentando recuperar aquele tom possessivo que sempre me desarmava.
Eu recuei até sentir o mármore da pia gelando as minhas costas. A camisa dele, que eu ainda usava para me cobrir, de repente parecia pesar toneladas.
Eu o encarei, vendo a marca vermelha do tapa da Perséfone no rosto dele, e a ficha finalmente caiu.
— Não chega perto, Gabriel — minha voz saiu trêmula, mas carregada de uma repulsa que eu nunca imaginei sentir por ele.
— A Perséfone tem razão. Você ouviu o que ela disse? Você me chamou de "a outra". Eu não vou virar sua amante, Gabriel!
Pela primeira vez ele me encarou como se estivesse me perdendo de verdade.
E naquele segundo... eu não fazia ideia do que essa escolha ia me custar.