POV DE JÚLIA MONTSERRAT
[CONTINUAÇÃO DO FLASHBACK — 8/9 ANOS ATRÁS]
O sangue que fervia nas minhas veias estancou. O calor do meu ventre se transformou em um bloco de gelo, pesado e incômodo.
Eu olhei para as velas, para o champanhe caro, para a renda que m*l cobria meus m*****s. Tudo aquilo parecia, de repente, uma fantasia ridícula de uma mulher desesperada.
— Cansado? Com fome? — repeti, a voz saindo cortante, carregada de um veneno que eu não consegui esconder.
Arthur suspirou, um som de impaciência que me atingiu como um tapa. Ele se afastou da minha coxa e se sentou na beira da cama, de costas para mim.
— Sim, Júlia. O dia foi exaustivo na delegacia, tive reuniões operacionais seguidas. Eu só preciso relaxar um pouco antes, não é o fim do mundo.
Eu me sentei na cama, sentindo o atrito da renda contra a minha pele sensível. O cheiro da baunilha das velas agora me dava náuseas.
— Não é o fim do mundo? — perguntei, minha voz subindo um tom. — É Dia dos Namorados, Arthur! É Lua Cheia! Eu me produzi inteira, eu criei esse clima porque eu precisava de você!
Ele virou o rosto levemente, o olhar frio, sem um pingo daquela adoração de segundos atrás.
— Você está sendo dramática. Eu não disse que não vamos fazer nada, só disse que quero comer primeiro. Qual o problema de esperar uma hora?
O problema era que eu estava queimando.
E pior...
Não era uma loba ainda.
Era só instinto.
Cru. Descontrolado. Prematuro.
Algo dentro de mim, algo que ainda nem tinha nome, se contorcia, exigindo alívio, exigindo fogo... qualquer coisa que apagasse o eco do rosnado do Gabriel no palco.
— O problema é que você nunca está no meu ritmo — disparei, a frustração transbordando. — Você é sempre morno, Arthur. Sempre controlado. Parece que eu tenho que implorar por um pouco de paixão!
Arthur suspirou. Foi um som de impaciência que me atingiu como um tapa. Ele se afastou da minha coxa e se sentou na beira da cama, de costas para mim.
— Sim, Júlia. O dia foi exaustivo na delegacia. Eu juro que não vou te deixar na mão, só quero tirar o suor e comer algo. Podemos pedir uma pizza.
Aquilo foi o fim para mim. Eu explodi.
Me levantei de um pulo. O colchão oscilou com a minha fúria. Ele me acompanhou com o olhar, pego de surpresa.
— Arthur, qual a p***a do seu problema? Você é gay por acaso? — as palavras saltaram da minha boca, ácidas, letais.
Ele continuou sentado na cama, me olhando com uma confusão que só alimentava meu ódio.
— O quê?
Eu estava em pé, gesticulando, o ar do quarto parecendo rarefeito pela tensão
.
— Você chega em casa e vê uma mulher na sua cama, toda aberta para você, e você quer tomar banho e comer antes de fazer alguma coisa? Eu não te atraio, é isso?
Ele franziu a testa. Arthur nunca tinha me visto assim, tão visceral, tão fora de controle.
— Claro que me atrai, Júlia. Não precisa ficar brava, eu só estou cansado mesmo. Não vou deixar de te satisfazer, calma...
A palavra "calma" foi como jogar gasolina na fogueira.
Uma raiva que eu conhecia muito bem me dominava.
Aquela que me impulsionava ao erro. Aquela que me deu apelidos.
Eu passei a mão no rosto, sentindo minha pele queimar.
— Minha Deusa, como eu estou cansada de você! Não é possível que você prefira comer e descansar antes de me comer. Eu estou frustrada, Arthur!
Dei um passo na direção dele, a voz subindo um tom a cada sílaba.
— Você parece a p***a de um homem de gelo. Eu preciso implorar para ter sexo? Isso não é normal, c*****o! Qual o seu problema?
Arthur engoliu em seco. Eu vi as mãos dele começarem a tremer sobre o lençol.
Se eu tivesse parado ali, talvez o destino fosse outro.
Mas eu estava há meses engolindo a passividade dele, e agora o dique tinha rompido.
— Arthur, você nem parece um alfa. Nem parece um Blackwolf! Olha só para você... é enorme e não sabe usar um terço do que a Deusa fez. É tão frustrante estar com você!
Ele me encarava de boca aberta, o choque paralisando suas feições.
— Você me deixa tanto na seca que eu quase dei para outro cara várias vezes! — disparei, a metralhadora de mágoas destruindo tudo. — Porque você não é capaz de me satisfazer.
Eu andava de um lado para o outro, expondo cada ferida, cada pensamento impuro que guardei no silêncio do meu quarto.
— Isso não pode ser verdade. — ele falou incrédulo.
— É a verdade! Eu quase deixei outro cara me f***r até eu esquecer quem eu era, porque você está sempre cansado ou tem algo para fazer! Que ódio!
O rosto dele escureceu de repente. A luz de "bom moço" nos olhos dele se apagou, dando lugar a uma sombra densa.
— Você está mentindo, né, Júlia? Isso não pode ser verdade — a voz dele saiu baixa, rouca de um jeito que eu não conhecia.
Eu passei as mãos no cabelo, rindo e gritando ao mesmo tempo. Eu estava louca. O cheiro das velas agora era sufocante, como incenso em um velório.
— É verdade, Arthur! É a pura verdade! E quer saber mais? Eu queria pra c*****o!
Eu parei na frente dele, o peito arfando, a lingerie preta parecendo uma armadura de guerra.
— Eu só fiquei com você para esquecer ele. E eu só queria que você fizesse isso, mas não! Você parece assexuado! Meu Deus, como você me deixa frustrada!
O silêncio que se seguiu foi mortal. Arthur não se moveu, mas a aura ao redor dele mudou. O ar na suíte ficou pesado, carregado com o cheiro de um perigo iminente que eu, na minha fúria, ignorei.
Eu olhava para ele e queimava. A raiva era um ácido que corroía qualquer vestígio de carinho que um dia nutri por aquele homem.
— E quer saber mais? Eu não quero passar o resto da minha vida com um cara que não está nem aí para nada!
Enfiei a mão no dedo e puxei. A aliança saiu raspando na pele, um metal frio que agora parecia uma algema quebrada.
Arthur se levantou de um salto. A altura dele, de quase dois metros, costumava me passar segurança. Agora, parecia uma montanha desmoronando sobre mim.
— Júlia, o que você está fazendo?
— Acabou, p***a! Você não está vendo? — gritei, a voz falhando pelo ódio.
— Você não quer descansar e comer? Pois pode fazer isso sozinho. Eu vou embora. Estou exausta dessa farsa.
Dei um passo na direção dele, o veneno transbordando.
— Eu não sei o que tenho que fazer para você virar homem. Será que eu teria que deixar outro me comer bem na sua frente para você reagir?
Joguei a aliança. O ouro bateu no peito dele e caiu no tapete com um som surdo.
Eu não sabia o ódio que estava provocando. Não via o monstro que minhas palavras estavam despertando. Estávamos juntos há quase dois anos e eu o tratei como um porto seguro, mas aquele porto tinha virado uma prisão de tédio.
Ele era o "príncipe", o cara que me respeitava porque eu era jovem. Mas agora, éramos noivos. E ele agia como um amigo. Um amigo assexuado.
Tentei me virar para pegar minhas coisas, mas o mundo parou.
Uma mão se fechou no meu pulso. O aperto não era humano; era ferro puro.
— Aonde você pensa que vai? — a voz dele não era mais a do Arthur. Estava oca. Morta.
Puxei o braço com força, mas ele nem se mexeu.
— Me solta, seu merda! Eu não quero mais você! Eu vou embora agora!
Eu era o caos. Minha respiração era um chiado de fúria. Mas o rosto dele... o rosto dele era uma máscara de pedra. O brilho doce tinha sumido.
— Você não vai a lugar nenhum!
Arthur me segurou, e a sombra que cruzou o rosto dele me avisou, tarde demais, que eu acabara de acordar o monstro.