Um barulho incessante em minha mente me tira do sono. Aquele barulho não era normal. Não era meu celular despertando ou as crianças me gritando. Era um som ritmado e irritante, um bipe eletrônico que parecia martelar dentro do meu crânio.
“Mas que droga está acontecendo?”, penso.
Abro os olhos com dificuldade. Minhas pálpebras pareciam mais pesadas do que geralmente são quando acordo, como se estivessem coladas com chumbo.
“Aonde estou?”. Tento falar, mas minha garganta não obedece.
Sinto uma dor percorrer meu corpo. Não é uma dor comum; é uma queimação que começa na minha têmpora e se espalha como veneno pelas minhas veias. Tento buscar conforto no lugar onde todos os lobos buscam: o interior. Mas, como sempre, não encontro nada.
Dentro de mim há apenas o silêncio. Um vácuo gelado e mudo onde deveria estar o rosnado da minha loba. Para a alcateia, eu sou uma falha. Uma Ômega de loba tão fraca que m*l consegue ser sentida. Eles acham que eu sou vazia. m*l sabem eles que esse silêncio é o que mais dói.
Tento mover o braço, mas o movimento é travado por um puxão. Vejo o tubo de plástico preso à minha pele, injetando um líquido frio. O cheiro de antisséptico hospitalar invade meu nariz, misturado ao cheiro metálico de sangue seco.
As imagens do restaurante brilham na minha mente. A fúria cega de Gabriel. O peso frio do metal contra a minha cabeça. Meu próprio grito silencioso por liberdade. Por que ainda estou sentindo o peso do meu corpo?
— Júlia.
A voz dele é um trovão baixo. Gabriel está ali, nas sombras, com os olhos fixos em mim. Ele parece um predador esperando que a presa dê o primeiro sinal de vida apenas para dar o bote novamente.
— Você acordou.
A voz dele corta o silêncio do quarto. Eu não preciso virar o rosto para saber que Gabriel está ali, sentado na poltrona ao lado, me vigiando como se eu ainda fosse sua prisioneira, mesmo em uma cama de hospital.
Gabriel se aproxima de mim com passos pesados. Estranho imediatamente: ele não está mais de uniforme policial. Veste roupas normais e está com a barba m*l feita. Antes do tiro, antes de eu apagar, a barba dele estava perfeitamente aparada.
“Há quanto tempo eu estou desacordada?”
Ele percebe minha confusão. De braços cruzados, Gabriel parece exausto; as olheiras são fundas, marcando um rosto que parece ter sido mastigado pelo tempo. Como se lesse minha mente, ele responde com a voz grossa e pesada:
— Você está aqui há quatro semanas... Pensei que não acordaria.
Ele suspira profundamente. O silêncio da minha loba, que sempre foi minha maldição, agora parece um abismo. Quatro semanas de silêncio absoluto no mundo real, enquanto eu estava presa no vácuo da minha própria mente.
Gabriel se inclina sobre o leito, invadindo meu espaço pessoal com aquele cheiro de café forte e o rastro do perfume de madeira e sândalo que eu costumava amar, mas que agora só me lembrava da minha cela.
— Como você pôde fazer algo tão imprudente? — ele pergunta, a voz oscilando entre a incredulidade e a irritação pura.
Eu não respondo. Apenas o encaro, mas por dentro, o peso das palavras dele me esmaga. “Como eu pude fazer isso?”, penso, e uma onda de náusea me atinge. “Eu nem pensei nos meus meninos... Cassian e Connor.”
A culpa é um ácido que queima mais que o ferimento. Gabriel suspira fundo de novo, o azul elétrico dos olhos dele brilhando com uma mágoa sombria.
— Os médicos disseram que o tiro não deveria ter te deixado assim por tanto tempo. Mas você se recusava a voltar. Você realmente preferiu o inferno a mim, Júlia?
Eu continuo em silêncio. O que ele não entende é que o inferno sempre foi o brilho azul daqueles olhos me vigiando todos os dias.
A porta do quarto é aberta com um estrondo, interrompendo a fúria contida de Gabriel.
— Ela acordou! Por que não me chamou? — A voz era irritada, mas carregada de uma preocupação genuína.
Era Rafael Blackwolf. Irmão gêmeo de Gabriel, meu cunhado e amigo de infância. Enquanto Gabriel era moreno e sombrio, Rafael era loiro e trazia uma luz que tentava iluminar aquele quarto gelado.
Rafael marchou até a minha cama, ignorando a postura defensiva de Gabriel, e começou a checar meus sinais vitais. Ele se virou para mim, os olhos analisando cada detalhe do meu rosto empalidecido.
— Como está se sentindo? — ele perguntou, a voz baixando o tom.
— Sinto... sede — consegui dizer, a garganta queimando.
Rafael trocou um olhar rápido com Gabriel. Foi um relance fugaz, carregado de segredos que eu ainda não conseguia decifrar. Vi o rosto de Rafael ficar tenso, os músculos da mandíbula se retraindo à medida que ele lia o prontuário.
— Gabriel, cai fora — Rafael ordenou, sem desviar os olhos do papel. — Preciso examinar a Júlia e falar com ela sobre os exames. A sós.
— Eu não vou a lugar nenhum, Rafael. Ela é minha mulher — Gabriel bufou, dando um passo à frente.
— É mesmo? E você se lembrou que ela é sua mulher agora ou foi quando ela puxou o gatilho na sua frente? — Rafael rebateu, a voz gélida. — Vai dar uma volta, Gabriel. Agora. Antes que eu chame a segurança do hospital e te tire daqui como um estranho.
O ar entre os dois irmãos gêmeos parecia prestes a entrar em combustão. Gabriel soltou um rosnado baixo, um som que fez o monitor cardíaco acelerar de medo. Ele me lançou um último olhar de posse, um aviso silencioso de que ele voltaria, e saiu, batendo a porta com uma força que fez os quadros na parede tremerem.
O silêncio que ficou era pior do que o bipe da máquina. Era um silêncio de morte. Rafael soltou o ar que parecia estar prendendo há horas e se aproximou da cama, sentando-se na beirada. Seu olhar estava suavizado, mas havia uma sombra de terror ali.
— Júlia... — ele começou, hesitando por um segundo antes de tocar minha mão. — O que você pode me falar da sua loba? Alguma coisa mudou nesses 7 anos?
O ar pareceu sumir do quarto. Eu senti um estalo de pânico no peito, um desconforto que me fez querer me fundir ao colchão e desaparecer.
Minhas mãos, ainda trêmulas e pálidas, agarraram o lençol com força, amassando o tecido áspero até que meus nós dos dedos ficassem brancos.
Eu não podia contar a ele. Eu não podia admitir que, no fundo do meu vácuo, algo estava começando a queimar.
Algo que não era fraco. Algo que me apavorava mais do que o próprio Gabriel.