Capítulo 19 - O primeiro segredo deles

1516 Words
⚠️ Aviso de Conteúdo Sensível + Posicionamento Importante⚠️ O capítulo a seguir contém cenas de abuso físico, s****l e psicológico, tortura e violência envolvendo adolescência. Essas passagens não foram escritas para chocar gratuitamente. Elas existem com um propósito narrativo: explorar o trauma profundo do protagonista, suas cicatrizes invisíveis e as consequências emocionais que moldaram quem ele se tornou. A dor retratada aqui não é espetáculo — é contexto. Ainda assim, o conteúdo pode ser perturbador e despertar gatilhos, especialmente para quem já viveu situações semelhantes. Respeite seus limites. Se precisar, pause a leitura. Sua saúde emocional vem primeiro. 🚨 Abuso infantil e contra adolescentes é crime. Não é segredo de família. Não é erro. Não é culpa da vítima 🚨 Se você suspeita ou sabe de alguma situação de abuso: 📞 Disque 100 – denúncia gratuita e anônima de violações de direitos humanos. 👮‍♀️ Em caso de risco imediato, ligue 190. Procure também o Conselho Tutelar da sua cidade. Se você é vítima: Você não tem culpa. Você não está sozinho(a). Você merece proteção, acolhimento e justiça. O silêncio protege o agressor. A denúncia protege a vítima. Leia com cuidado. E, acima de tudo, cuide de você. _________________________________ Continuação do Flashback... Antes mesmo de chegar ao local, escutei a conversa. Suspiros. E um som que me gelou: couro atingindo carne. — Ai... eu não quero mais... eu quero a minha mãe. A voz de Gabriel. Choramingando. Havia dor ali — e um cheiro estranho. Suor misturado com algo que eu não consegui identificar na época. Hoje eu sei o que era. Parei no alto de uma escada. A área comum era grande e estava totalmente vazia. Eu não entendia a ousadia — como alguém fazia aquilo ali, tão exposto? — Aaah, gatinho... pare com isso. Você já é um homem. E você sabe que sua mãe não te ama. Não vê como ela cuida dos filhos que teve com o Beto? A voz dela. Katherine. Ouvi o choro dele. E então minha visão alcançou a cena. Congelei no escuro, mãos na boca. Uma mistura de nojo e pavor pareciam embrulhar meu estômago. Gabriel sangrava. Katherine estava completamente nua. Partes do corpo dele estavam machucadas, vermelhas — com certeza de tanto serem usadas indevidamente. Eu engasguei. Ele chorava. De joelhos. Com uma coleira no pescoço. Todo suado. — Vamos, continue. Você ainda não me fez chegar lá. Lembre-se oque eu sempre falo: nunca deixe uma mulher insatisfeita. Ele soluçou. Ela puxou a coleira com força, a outra mão o chicote que ela usava para golpeá-lo sem piedade. — Pare de ser fraco. Sua mãe não liga pra você. Se você chegar assim perto dela, ela vai te olhar com o mesmo desprezo que olha seu pai. Você vê isso, não vê? Ele fechou os olhos. Tremia. O ódio e nojo começou a subir pelas minhas veias. Ela ergueu a mão para tocar o corpo dele — e ele sentiu dor só com o toque. Ela pousou a mão nas partes íntimas dele, que estavam vermelhas demais, inchadas de um jeito que não era normal. Ele soltou um grunhido de dor. — Por favor, tia Kat... eu não quero mais... tá doendo... — Arrrg. Eu não quero choro. Eu te amo, meu gatinho. Estou te dando o amor que sua mãe não te dá. Você está me amando de volta, não está? É nosso segredinho. Ela passava a mão no rosto dele manchado de suor lágrimas e sangue as unhas enormes apertando demais o rosto dele arranhando: — A tia Kat te ama, você sabe disso, né? As palavras dela eram veneno. Cada ato dela fazia o ódio crescer dentro de mim. Ela pegou a cabeça dele e colocou entre as pernas. — Vamos, termine o que começamos. E lembre-se você só tem a mim, nunca nenhuma mulher vai te amar como eu, você sabe que não será amado por nenhuma mulher não sabe? Ele fez que sim tremendo. E a obedeceu. Foi quando eu vi. Uma barra de ferro grande, usada na lareira que ficava ali só de enfeite. Nunca era usada. Ela não veria — estava ocupada demais machucando o garoto que eu amava. Eu estava descalça. Peguei a barra quieta, concentrando meu ódio em um único objetivo. Subi por trás do sofá. Ela estava com a cabeça jogada para trás, enquanto Gabriel fazia o que ela o obrigava. Então eu bati. Com toda a minha força. Na cabeça dela. Ela se assustou, olhou para trás. Ver a cara dela de frente me deu uma força descomunal. O ódio explodiu. Ela era maior que eu. Já tinha sua loba. Mas eu desci o braço de novo. Ela olhou para mim com os olhos arregalados quando o sangue começou a escorrer da cabeça dela. Eu não tinha terminado. Uma fúria primitiva me dominava. Desci o ferro de novo — não na cabeça, no braço dela. Ela gritou: — AAAAH, SUA p*****a DE MERDA! Tentei golpeá-la de novo. Ela segurou o ferro, tirou da minha mão. Tentou avançar, mas eu fui mais rápida. Desviei. — EU VOU TE MATAR, GAROTA! — ela rosnou. Gabriel estava atônito no chão. Machucado demais. Assustado demais para reagir. Mas eu era movida pelo ódio. Peguei um vaso de flores que estava ali na mesinha de canto e taquei na cara dela com toda a força. Ela cambaleou. Me virei desesperada e peguei uma mini estátua de gesso. Desferi na cabeça dela de novo. Eu só ia parar quando ela estivesse imóvel. A estátua rachou, mas não quebrou. Bati de novo enquanto ela segurava minhas pernas. Então ela amoleceu. Desmaiou. Caiu sobre minhas pernas. Eu suspirava forte, com dificuldade. Mexi nela — ainda com adrenalina a todo vapor, ela não se movia. Então eu a chutei. Com toda a minha força e todo o meu ódio. — AAAARG! — gritei enquanto chutava. — p**a DESGRAÇADA, MORRE! Chutei até não poder mais. Quando finalmente parei, corri até Gabriel. Levantei-o. Os olhos dele estavam esbugalhados de um jeito doloroso — aterrorizados, petrificados. Coloquei minhas mãos no rosto dele e o sacudi. — Você precisa se mover. Vamos, levanta. Ele não se mexia. Então eu o puxei. Corremos. Eu sabia para onde tinha que levá-lo. A enfermaria precisava cuidar das feridas dele. Corremos até a enfermaria — pela graça da lua, estava vazia. Tranquei a porta, com medo de ela acordar e vir atrás da gente. Sentei ele na maca. A visão dele era dolorosa demais. Mas eu tinha que me concentrar. Comecei a vasculhar tudo: antisséptico, gazes, soro, remédios, pomadas. Minhas mãos tremiam enquanto abria armários, enquanto meu coração ainda batia descontrolado. Enquanto procurava, olhei para ele mais uma vez. Gabriel estava sentado na maca, mas não estava ali. Os olhos vidrados, o corpo tremendo. As marcas no pescoço onde a coleira tinha apertado. Eu queria chorar. Queria vomitar. Em vez disso, encontrei o que precisava e voltei para perto dele. — Vai doer — avisei, com a voz estranhamente calma. — Mas você precisa deixar eu limpar. Ele nem piscou quando o antisséptico queimou o corte no lábio. — Júlia... — a voz dele saiu tão pequena dolorosa. Tão partida e quebrada. — Ela disse... que minha mãe... — Ela é uma mentirosa desgraçada. — interrompi, passando a gaze com cuidado. — As coisas que ela disse não são verdade. Ele me olhou. Pela primeira vez desde que eu o encontrara, ele realmente me olhou. — Como você sabe? Parei o que estava fazendo. Segurei o rosto dele com as duas mãos, focando-o a me encarar. — Porque eu sei. E não importa o que ela disse. Ela é uma cobra manipuladora e você não deve ouvir o que ela diz, vamos acabar com ela contar pros nossos pais e... — Não... — ele falou em desespero — Eu não quero contar pra eles você não vai contar nada, eles não ligam e já tem problemas demais. Olhei pra ele angustiada: — A gente precisa.... — Não júlia promete pra mim que não vai contar pra eles promete... — ele pediu em desespero. Meu coração doeu. Engoli em seco. — Tudo bem, mas eu não vou ficar quieta você vai deixar eu bolar um plano de acabar com ela. — falei determinada. — Tá bom eu confio em você. — ele falou. Alguma coisa mudou nos olhos dele. Foi uma centelha. Continuei limpando os ferimentos em silêncio. A noite estava longe de acabar. Só sabia que, enquanto eu estivesse ali, ninguém mais tocaria nele. [FIM DO FLASHBACK] Senti os músculos de Gabriel relaxarem sob meus dedos, a respiração dele finalmente perdendo o ritmo selvagem da maldição. O peso dele sobre mim era um lembrete de cada cicatriz invisível que eu ajudei a fechar. Eu conhecia o cheiro da agonia que ele carregava na alma, o gosto metálico de quantas vezes mergulhei na escuridão dele para trazê-lo de volta. Minhas forças haviam acabado há anos, eu estava no osso, na carne viva, mas o instinto era mais forte que a exaustão: eu ainda tentava curá-lo, mesmo que isso significasse me desfazer em pedaços.
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