POV de Gabriel Blackwolf
Dei um passo em direção a ele. O ódio de mim mesmo tinha gosto de cinzas, rasgando a minha garganta.
— A Júlia está morrendo, Dante.
A palavra caiu entre nós como uma bigorna. O silêncio que se seguiu foi denso, mastigável.
— No passado... eu a rejeitei. — Triturei as palavras entre os dentes. — A loba dela não aceitou e está tentando emergir. Ela tem uma loba rara dentro dela, e o corpo humano quebrado não suporta a transição sozinho.
Dante me encarou, paralisado. A empáfia sumiu do rosto dele como poeira no vento.
— Ela precisa ser marcada por um Alfa puro — continuei, impiedoso. — E você, infelizmente, é o único aqui que consegue fazer isso.
— Morrendo? — a voz de Dante finalmente saiu, esganiçada e fraca. — Ela tava bem... eu a vi esses dias...
— Ela oscila. Mas piorou depois que eu... — travei.
Fechei os punhos com tanta força que o sangue voltou a escorrer pelas minhas palmas. Eu não ia contar as minhas merdas para ele.
— Olha, o que você tem que saber é que ela está por um fio no hospital — cortei o assunto, brutal e direto. — O coração dela parou hoje. Várias vezes.
O silêncio no ambiente ficou denso, cortante.
Dante Leone se encostou na beirada da mesa tática de metal, cruzando os braços sobre o peito da farda. Ele me olhou com a calma de quem segura a corda no pescoço de um condenado.
— Eu a marco, sim — Dante respondeu, a voz arrastada, os olhos verdes brilhando com uma frieza mercantil. — Mas você terá que sair do meu caminho.
Eu quero ela por completo. Sem sombras, sem ex-maridos, sem você.
Senti meu sangue ferver. O rosnado vibrou no fundo da minha garganta, um som animal que fez os vidros da sala tremerem.
— Você está negociando comigo, p***a? — avancei, cravando as garras na borda da mesa. O metal rangeu. — Qual é o seu problema, c*****o? Ela está morrendo!
Dante nem piscou. Ele descruzou os braços e se inclinou para frente, apoiando o peso nas mãos. A face de "bom moço" desapareceu para dar lugar ao oportunista frio que ele escondia de Júlia.
— Você terá que decidir. Vai sair do meu caminho?
Ele deu de ombros, indiferente ao desespero cru que emanava de mim.
— Existem outros Alfas aqui. Vocês são Blackwolfs... se quiserem, podem arrumar um batalhão inteiro de Alfas para salvá-la. Mas se eu for fazer isso, eu quero ela inteira.
Dante apontou o dedo duro na minha direção.
— Não quero disputas. Você desistirá dela por completo. Para sempre. Sem visitas, sem olhares, sem o nome dela na sua boca.
O silêncio que se seguiu foi pesado como chumbo.
— Está de acordo ou não? — Dante finalizou, o tom de voz macio, mas mortal. — O tempo dela está acabando, Blackwolf. Escolha logo.
As palavras dele me atingiram como um golpe de machado no peito. Desistir dela. Entregar a única mulher que deu sentido à minha maldita existência para aquele verme. A dor física de imaginar uma vida inteira sem ela quase me derrubou ali mesmo.
Mas a lembrança do coração dela falhando no monitor me forçou a engolir o sangue.
Me aproximei de Dante de forma perigosa. Percebi que, de alguma forma, ele recuou, me olhando nos olhos. Ele sabia. Ele sentia a maldição tomando conta.
O ar ficou mais gelado ao nosso redor. Percebi a alteração na minha voz. Não era o lobo Alfa, Gideon, dentro de mim, que estava atualmente reduzido a um lobo Gama. Era o lobo n***o falando.
— Eu só vou permitir que ela seja marcada pra que ela viva, Dante. Não se engane — minha voz era um rosnado abismal. — Eu vou recuperar o meu poder e vou reivindicá-la. Não importa o inferno que eu tiver que percorrer, eu vou encontrar um jeito de voltar a ter meu poder de volta e eu vou recuperá-la.
Ele m*l se mexia. Mas o desgraçado, mesmo com medo, era ousado demais. Ergueu o queixo e me encarou.
— E se ela não te quiser? — Dante cuspiu as palavras.
— Foi ela que pediu o divórcio, ou seja, ela não quer mais você. Ela pode me escolher. Você a rejeitou, eu já matei por ela... Quem você acha que ela vai escolher?
Eu ri.
Um sorriso que eu sabia que não era normal, ou bonito, ou caloroso. Era um sorriso de um demônio olhando para uma alma que estava prestes a ser devorada.
— Você acha que é obcecado por ela? Que sabe tudo sobre ela? — sussurrei, a escuridão absoluta pesando sobre os ombros dele. — Deixa eu deixar claro pra você: você não é! Porque o que você sente tem limite, e você não ultrapassa ele. O que eu sinto não tem limite.
O maxilar de Dante travou.
— No parto dela, o médico mandou eu escolher entre ela e os meus filhos.
Vi o choque puro apagar a arrogância do rosto dele.
— Eu escolhi salvar a vida dela — confessei sem qualquer remorso. — Eles quase morreram. Mas, pela graça da Lua, eles sobreviveram.
Inclinei meu rosto até quase tocar o dele.
— O seu limite é o seu filho, Matteo. Pra mim, ninguém tá acima dela, nem o meu próprio sangue. Não existe inferno ou abismo o suficiente que me impeça de viver por ela.
Bati a ponta do dedo duro contra o peito dele, bem em cima do coração.
— E quer saber por que o que você sente não é amor, p***a nenhuma? Porque você teve a coragem de negociar a vida dela agora mesmo.
Dante arregalou os olhos. A aura esmagadora da minha maldição expandiu, sufocando-o contra a mesa.
— Eu poderia sim ser altruísta. Poderia dizer que te entrego ela completamente pra mantê-la viva. Mas não depois disso. Não depois de você usar a morte dela como moeda de troca comigo.
Agarrei a gola da farda dele, puxando-o para perto.
— Você vai marcar ela, Leone. Nem que eu quebre a p***a da sua mandíbula direto no pescoço dela. E eu nunca vou me render ou jogar a toalha pra você ou pra filha da p**a nenhum.
Soltei-o com um empurrão brutal. Dante cambaleou, o medo cru finalmente o quebrando.
— Eu a amo. E morro lutando por ela. Mesmo que ela não me queira, eu vou continuar tentando. Você só me provou o que eu sempre soube... Você é um merda como eu, e não merece estar com ela!
Dei as costas para a mesa. O chão sob minhas botas parecia congelar a cada passo, o lobo n***o pulsando nas minhas veias.
Parei antes de cruzar a porta arrombada. Não olhei para trás. Apenas falei por cima do ombro, a voz letal:
— Na lua cheia você a marcará ou eu te mato. Esteja pronto!
Saí pelo corredor, deixando o silêncio fúnebre engolir a sala de operações.
Dei as costas para a mesa. O chão sob minhas botas parecia congelar a cada passo, o lobo n***o pulsando nas minhas veias.
A fúria ainda fervia no meu sangue, mas a mente do Comandante trabalhava rápido. Algo não se encaixava. Dante encontrou o maldito cativeiro na floresta rápido demais. O "herói" conveniente naquela noite.
A culpa nos olhos dele quando falou do ataque não era só de ter chegado tarde... Eu iria investigar aquela merda. Fio por fio.
O ar noturno bateu no meu rosto quando alcancei o estacionamento da delegacia, mas o som de coturnos pesados atrás de mim me fez travar.
Dante.
Ele parou a poucos metros do meu carro. A arrogância tinha sumido, substituída por uma cautela tensa. Culpa e raiva brigavam na expressão dele.
— A conversa acabou, seu merda! — rosnei, sem paciência.
— Eu sei... eu... — ele hesitou. O grande Leone, gaguejando. — Eu só quero entender. Posso?
Cerrei os punhos, a vontade de quebrar o pescoço dele formigando nas pontas dos meus dedos.
— Eu tenho dúvidas, Blackwolf — Dante continuou, a voz baixa. — A marca não tem que ser feita em Lunária? E também... se eu e ela não somos companheiros destinados, será que vai funcionar? A marca...
O medo patético dele me enojou. Ele não tinha certeza. Vi nos olhos dele que o desgraçado não acreditava que a própria mordida ia salvá-la.
— Vai funcionar! — rugi. O som vibrou no asfalto.
Ele engoliu em seco. O olhar dele escureceu, ganhando um tom quase mórbido que me irritou o triplo.
— Posso ir com você até o hospital? — Dante perguntou.
Abri a porta do meu SUV com violência, cravando os olhos nele.
— Nem fodendo.
Antes que eu pudesse entrar no carro, as portas automáticas da delegacia se abriram com um estrondo.
Asher saiu correndo, com Johnny logo ao seu encalço. O pânico estava estampado no rosto dos dois.
— Comandante! — Asher gritou, sem fôlego. — Tem algo acontecendo no hospital!
Meu coração falhou uma batida.
— Um homem todo de preto foi visto no andar da UTI. Ele tá no quarto da senhora Blackwolf! Os guardas não estão dando conta dele!
O mundo parou. O oxigênio sumiu do ar.
Aquele psicopata estava no quarto da minha mulher enquanto ela estava em coma.
Gideon uivou dentro de mim. Mas quem assumiu o controle total foi o lobo n***o. A escuridão absoluta.
— Vamos logo, oque vocês estão esperando? — rosnei, o som saindo demoníaco, inumano.
Não precisei dizer mais nada. Todos nós já estávamos a caminho do inferno.