POV de Jade Montserrat
Um barulho alto me tira do sono.
Acordei em um solavanco, meu coração martelando contra as costelas. O suor frio colava o pijama à minha pele. Eu tinha acabado de chegar de um plantão pesado no hospital, exausta, querendo apenas desaparecer no escuro.
Ploft.
Outro barulho. Vinha da sala.
Eu me levanto, meu pé quente toca o chão frio. Eu me movo, e olho em direção a porta do meu quarto.
Minha respiração travou. O medo subiu pela minha garganta, amargo. Antes mesmo de eu abrir a porta, um calafrio percorreu minha espinha. Minha loba uivou lá no fundo, uma mistura de pavor e uma submissão maldita que eu odiava.
É ele...
Senti meus joelhos fraquejarem. Há muitos anos, eu assinei um contrato com o d***o. Tentei fugir dele por todo esse tempo, cruzei oceanos, mudei de nome... e agora ele estava na minha sala.
O pânico me dominou, mas a sobrevivência falou mais alto. Olhei ao redor do quarto e puxei uma barra de ferro decorativa de um suporte de vaso. O metal estava gelado, mas era a única coisa entre mim e o meu passado.
Caminhei em direção à sala em conceito aberto. O apartamento estava mergulhado na penumbra do amanhecer.
Ele estava completamente à vontade. Sentado em uma das banquetas da ilha da cozinha, segurando um copo de cristal com o meu uísque. A luz fraca batia em seu perfil, mas a escuridão parecia emanar dele.
— Olá querida, a quanto tempo.
O sorriso dele. Aquele maldito sorriso psicopata. Ele nem precisou me olhar para saber que eu estava ali, armada com um ferro que parecia um brinquedo em suas mãos.
— O que você está fazendo aqui? — sussurrei, apertando a barra contra o peito. — Como você me achou?
Ele deu uma gargalhada fria, tomando um gole lento.
— Você sempre foi burra, Jade, mas agora está se superando...
Me aproximei mais de onde ele estava. Meu companheiro — ou o monstro que eu evitava nomear — estava completamente à vontade. Sentado em minha cozinha ele deu um último gole no whiske. A luz do amanhecer batia em seu perfil gélido.
— Era mais óbvio do que o sol raiar todo dia que você voltaria pra cá.
Os olhos dele afiaram-se como lâminas. Ele se movimentou de forma rápida e sobrenatural e arrancou a barra de ferro de mim com uma facilidade humilhante e me prensou contra a parede.
— Me solta! — implorei, mas meu corpo me traiu. Minha loba se inclinou para o toque dele, aceitando o domínio de companheiro destinado, enquanto eu chorava de ódio.
Ele me jogou no chão e sentí o peso da bota dele no meu rosto, pressionando minha bochecha contra o piso frio. Puxou meu cabelo com força bruta, me fazendo olhar nos seus olhos verdes e gélidos.
— Sabe é realmente bem patético o quanto você nem se esforçou pra realmente se esconder de mim.
Ele me virou de costas com um solavanco, me prendendo contra o chão de forma brutal. Senti todo o peso do corpo dele ser pressionado em cima do meu, esmagando meus pulmões contra o piso frio.
Ele me deixou quase sem ar, mas nunca o suficiente para eu apagar; ele sempre sabia o limite exato. Ele sempre causava dor, mas deixava um fio de respiro para que eu pudesse sentir tudo, cada grama da sua crueldade, exatamente como ele queria.
Com as mãos frias e impiedosas, ele virou minha cabeça para o lado, expondo minha garganta. Minha loba uivou em antecipação, uma traição biológica que me dava náuseas.
Antes que eu pudesse protestar, ele cravou os dentes na curva do meu pescoço de novo, com a mesma violência de quando nos casamos.
— Aaaaah! — O grito de dor pura rasgou minha garganta.
Ele não estava me reivindicando; ele estava reafirmando seu domínio sobre mim. A dor era lancinante, misturada com uma onda de prazer proibido que me fez arquear o corpo contra o dele, odiando-me por isso.
Ele se afastou, seus lábios manchados com meu sangue, e segurou meu rosto com força, forçando-me a olhar para ele. O medo me paralisava, mas a raiva — uma fúria selvagem e impotente — fervia logo abaixo da superfície.
— Sabe... eu vou amar ver a sua derrota quando ele descobrir todas as coisas podres que você fez, Jade... — A voz dele desceu uma oitava, tornando-se um sussurro sussurrado que deu calafrios na minha alma.
— Você quer ser doce e inocente como ela, não é? Mas ela é uma coelhinha... assustada e pura.
O sorriso dele ficou mais sádico.
— Mas você... você é uma cobra venenosa, Jade. E ele vai acabar descobrindo sua podridão. E no final, não só ele, mas todos vão te odiar. E só vai restar eu. Como sempre.
Ele me soltou como se eu fosse lixo e saiu do apartamento, deixando apenas o cheiro de uísque e o rastro de terror para trás.
Fiquei lá, tremendo no chão, o pescoço latejando e a alma em frangalhos. Eu precisava de uma âncora. Precisava que o Gabriel fosse meu escudo, custasse o que custasse.
Levantei-me, o corpo doendo, e fui para o banheiro. Tomei um banho rápido, escondendo as marcas da agressão sob a maquiagem, e fui para a casa do Gabriel à beira-mar, cega pela necessidade de sobrevivência.
— O que você está fazendo aqui? — ele perguntou, a voz carregada de agressividade defensiva.
— Eu vim te ver, amor — usei minha voz mais doce, escondendo o terror que ainda vibrava em mim. — Já tem dias que não nos vemos. Você está trancado aqui dentro com ela. Você prometeu que moraríamos juntos, que iríamos nos casar...
Gabriel passou a mão pelo cabelo, visivelmente atormentado. Ele engoliu em seco, desviando o olhar.
— Eu... sinto muito, Jade, mas não posso fazer isso. Eu agi por impulso. Me perdoe, mas eu vou ficar com ela. Vai embora, por favor, e não me procure mais. Eu escolho a minha família.
A raiva me consumiu como um incêndio. Não... ele é minha tábua de salvação. Se ele me marcar, eu serei companheira dele e se aquele demônio me tocar, Gabriel o destruirá com o poder da maldição Blackwolf. Ele não pode me deixar...
Minha garganta queimou. Minhas veias pareciam carregar ácido em vez de sangue.
— Você não pode fazer isso! Você me escolheu na frente de todos. O seu pai não vai deixar você me descartar desse jeito!
Os olhos dele faiscaram e a mandíbula travou em uma linha rígida.
— Meu pai não manda na minha vida, Jade. Eu escolho quem eu quero e eu nunca quis estar com você. Eu só usei você para me afastar dela. Não vou cometer esse erro de novo. Eu preciso que você entenda e vá embora!
Ele apontou para a porta, os músculos retesados. Mais alguns segundos e ele começaria a me empurrar, mas eu não podia recuar. Ele já me amou um dia, eu sei que posso fazer ele me amar de novo. Ele foi o único homem bom para mim, o único que me amou sem me machucar.
Eu me aproximei dele, ignorando o sinal de expulsão.
Segurei o rosto dele com as minhas mãos. Ele estava em puro desespero, com medo de Júlia nos pegar ali, com certeza. Minha voz baixou, tornando-se aveludada, enquanto eu olhava no fundo dos olhos dele.
— Gabriel, por favor... eu te amo. E eu sei que você me ama. Eu preciso de você. Eu esperei sete anos. Por favor, você prometeu que ia tentar. Por favor... me escolhe. Eu preciso que você me escolha...
Minha raiva contra o demônio no meu apartamento transbordou, misturando-se à minha súplica em uma energia violenta.
O azul dos olhos de Gabriel vacilou sob o meu toque. Ele tentou lutar, mas algo que vinha de dentro de mim o envolveu.
Vi o momento em que ele "apagou". Seus olhos ficaram vidrados. Mortos. Uma casca vazia.
— Diga que você vai ficar comigo — sibilei.
— Eu vou... ficar com você — ele repetiu, a voz oca de um autômato.
O triunfo foi interrompido por um suspiro no corredor, logo atrás dele. Júlia estava ali. Pálida, acabada por algo que a consumia, vendo o seu Alfa reduzido a um fantoche vidrado sob as minhas mãos.
— Gabriel? — a voz dela foi um sussurro de horror puro.
Ele não piscou.
Não se moveu.
O olhar dele ficou parado no meu.
E algo naquela quietude fez o ar da sala ficar pesado demais para respirar.