Capítulo 4 — O Retorno da Favorita

1993 Words
Eu a observei enquanto Rafael a ajudava com as últimas formalidades. Júlia parecia um fantasma, uma sombra pálida da mulher que, semanas atrás, teve a audácia de apontar uma arma contra a própria cabeça. O cheiro dela havia normalizado finalmente o cheiro conhecido de limão, flor e baunilha, que eu amava e nunca admitiria em voz alta aquilo. Mas havia algo metálico, algo que cheirava a doença, meu lobo sentiu, ele sempre ficava inquieto quando ela se machucava. Rafael se aproximou, o rosto vincado por uma preocupação irritante. Ele me estendeu os papéis da alta. — Ela está fraca, Gabriel. Você deve ter cuidado com ela — Rafael disse, a voz baixa. — Ela não parece fraca e ela sempre soube se cuidar — respondi da forma mais fria que consegui, sem desviar os olhos dela. Ela sentiu cada palavra. Vi o tremor leve em seus ombros pálidos. Eu não queria que ela se sentisse cuidada; eu queria que ela soubesse que eu estava vendo através daquela fragilidade. Segurei seus braços para ajudá-la a sentar na cadeira de rodas. Meus dedos apertaram sua pele com uma firmeza desnecessária. Estávamos cruzando a ala de observação quando o mundo dela parou. Luke Hunter estava ali, em uma baia entreaberta, o rosto desfigurado por hematomas, costelas quebradas. O cheiro de sangue pisado e dor era o meu troféu. Júlia soltou um arquejo de agonia. — Luke? Oh meu Deus! — ela colocou as mãos no rosto, em puro desespero. Depois, ela virou para mim e exclamou: — Gabriel... o que você fez? Parei a cadeira. Inclinei-me sobre ela, bloqueando a visão de qualquer curioso. Dei um sorriso curto, totalmente satisfeito. Levantei as mãos e tirei uma mecha do cabelo dela do rosto de forma leve, com uma ternura fingida que, para quem via de longe, parecia o ápice do carinho marital. — Eu não fiz nada, amor. O pobre rapaz teve um azar terrível. Parece que ele caiu muitas vezes daquelas escadas do prédio mais alto da cidade. Algumas pessoas são simplesmente desastradas. Me abaixei, roçando minha barba por fazer em sua orelha. Senti ela se arrepiar toda e se encolher sob meu toque. — Espero que você fique ciente de que qualquer um que você ousar tentar se aproximar terá acidentes assim. Ou pior. Eu me afastei e olhei no fundo dos olhos dela. Estavam inundados de lágrimas. Aqueles olhos amarelos... a cor da minha ruína e da minha perdição. Senti a raiva e o desejo se misturarem. Aproximei-me e colei meus lábios nos dela. Estavam quentes e, mesmo saindo de um hospital, eram doces. Um beijo que era um aviso: você me pertence. — Você enlouqueceu? — ela sussurrou, tremendo contra mim. — Não, meu amor. Eu sempre fui assim. Só estou te lembrando exatamente como sou — respondi, sorrindo de forma sombria. O trajeto até a mansão Montserrat foi um campo de batalha silencioso. Quando ela percebeu que não íamos para casa, o choro de raiva começou. — Eu não quero ir para lá, Gabriel. Por favor... eu só quero ver meus filhos. — Olha, eu não estou nem aí para o que você quer, Júlia — cortei, o tom de comando fazendo-a encolher-se no banco. — Seu pai convocou uma reunião e nós vamos. Nossos filhos já estão lá. O trajeto até a mansão Montserrat foi um campo de batalha silencioso. As lágrimas dela rolavam sem parar. Ela chorava de raiva, de frustração, sabendo que seria novamente o alvo dos comentários maldosos de sua família. Eu sabia que ela odiava ser o centro das atenções, especialmente quando o assunto era sua "falha" como loba. Mas eu precisava dela lá. Quando estacionei na mansão, o pátio estava lotado. O poder ali era quase tangível. Meu pai, o Alfa Nathanael, estava lá, acompanhado pelo Beta Alaric Ashworth. Os Salazars e os Mykonos também haviam chegado. A elite lupina estava toda ali para testemunhar o retorno da "esposa problemática" do filho do Alfa. Ajudei Júlia a sair do carro, mantendo minha máscara de carisma impecável para os convidados na varanda. Dei um aceno respeitoso para os anciãos, o sorriso sedutor e carismático que todos esperavam do herdeiro Blackwolf. Entramos no grande saguão de mármore. O cheiro de poder era sufocante. Perto da lareira, Malakai Montserrat, meu sogro e Gama do meu pai, estava de pé com uma expressão severa. Ao lado dele, minha sogra Joannah e minha mãe, a Luna Babi, observavam nossa entrada. Todos já estavam sentados. O tribunal estava montado. Malakai ignorou o estado deplorável da própria filha e fixou os olhos na escadaria principal. O rosto daquele homem de pedra se iluminou de uma forma que eu nunca tinha visto. — Finalmente, Júlia, você chegou — ele disse, a voz de Gama ecoando com autoridade. Ele olhou para cima. Meu pai, o Alfa Nathanael, ocupava a poltrona central com a imponência de um rei. Ao lado dele, o Beta Alaric Ashworth e os patriarcas das famílias Salazar e Mykonos observavam nossa entrada com olhos críticos. Perto da lareira, Malakai Montserrat, meu sogro e Gama do meu pai, mantinha-se de pé, exalando uma autoridade gélida. Ajudei Júlia a se sentar. Ela estava pálida, quase translúcida sob as luzes de cristal. Eu evitei olhar diretamente para ela; o cheiro de sua agonia estava começando a irritar meu lobo. — Obrigado a todos por virem — Malakai começou, sua voz de Gama ecoando com uma vibração que exigia silêncio absoluto. — Convoquei esta reunião porque a linhagem Montserrat e, por extensão, a alcateia Blackwolf, sofreu um abalo que não podemos mais ignorar. Ele fez uma pausa, olhando para a escadaria. — Mas, antes de tratarmos das sombras, vamos celebrar a luz. Finalmente, minha filha Jade retornou da Suíça. O som de saltos no mármore precedeu a imagem que eu esperei sete anos para ver. Jade surgiu, impecável, uma visão de saúde e inteligência que fazia Júlia parecer um erro de rascunho. O rosto de Malakai se iluminou com um orgulho que ele nunca demonstrou à filha mais nova. Jade caminhou em direção ao centro da sala, mas seus olhos encontraram os meus. Vi o brilho das lágrimas neles. Ela soltou um soluço baixo, a emoção de sete anos de exílio transbordando. Eu não pensei. Apenas agi. Deixei o lado de Júlia e caminhei até Jade, envolvendo-a em um abraço protetor. Senti o corpo dela tremer contra o meu enquanto ela chorava baixinho no meu ombro. — Pela Deusa... você está aqui — sussurrei, minha voz falhando pela primeira vez em anos. — Como senti sua falta. “Eles são perfeitos um para o outro”, o sussurro mental parecia ecoar entre as famílias Salazar e Mykonos. Todos ali lembravam do casal de ouro que fomos antes do desastre. Jade retribuiu o aperto, as mãos pequenas espalmadas nas minhas costas. Ela se afastou apenas o suficiente para olhar nos meus olhos e sorriu daquele jeito doce que me desarmava por completo. — Sim, eu voltei. E é para ficar — ela sussurrou, a voz macia como seda. Eu m*l olhava para Júlia, mantendo meu foco total em confortar Jade. Mas, no fundo da minha mente, algo estava errado. Meu lobo, a fera que eu sempre mantive sob controle férreo, não estava satisfeito. Ele se inclinava, inquieto, na direção de Júlia. Havia um puxão invisível, um instinto biológico que reconhecia a dor dela e tentava me forçar a protegê-la, apesar do meu ódio humano. Eu ignorei a fera. Apertei Jade com mais força, reafirmando que ela era quem eu queria ali. Malakai limpou a garganta, o clima pesado de adoração sendo substituído por uma severidade brutal. Ele se virou para Júlia, que parecia estar a ponto de desmoronar na poltrona. — Agora, um dos motivos de estarmos aqui — o Gama sibilou, e toda a atenção da sala se voltou para Júlia como uma matilha pronta para o bote. — Primeiro Júlia, olhe para mim. Ela ergueu o rosto devagar, os olhos amarelos nublados pela dor e pelo choque de me ver abraçado à irmã. — Sua imprudência cruzou todos os limites — Malakai continuou, sua voz subindo de tom. — O escândalo no restaurante, a exposição da nossa espécie... e, acima de tudo, a sua tentativa desesperada e egoísta de suicídio. Você não pensou nos herdeiros Blackwolf? Não pensou na honra deste nome? O silêncio que se seguiu foi cortante. Eu senti a agonia da Júlia atravessar a sala e me atingir como um soco no estômago. Eu podia sentir a humilhação dela, a sensação de ser dissecada viva diante de todas as famílias influentes da cidade. Ela parecia estar à beira de um desmaio, a respiração curta, os dedos cravados no veludo da poltrona. — Depois de tudo que você, você ainda me faria o desgosto de ter que enterrar minha própria filha? Eu continuei abraçado a Jade, sentindo o calor dela, mas meus olhos agora estavam fixos em Júlia. Eu via a destruição no rosto dela e, por um segundo, a satisfação da minha mágoa foi engolida por uma agonia que não era minha, mas que eu sentia como se fosse. A reunião estava apenas começando. Malakai ergueu a voz, a autoridade de Gama cortando o burburinho de admiração que cercava a mim e a Jade. Imediatamente, o foco da sala mudou. Eu soltei Jade devagar, mas mantive minha mão possessiva sobre o braço dela, sentindo o calor da sua pele contra a palma da minha mão. Todos pararam de encarar a cena que proporcionamos e voltaram os olhos para o patriarca dos Montserrat. Malakai parecia subitamente mais velho sob a luz do lustre de cristal, as sombras se aprofundando nos sulcos de seu rosto de pedra. — Já que estão todos aqui, vou comunicar o motivo do chamado — ele disse, a voz firme, mas com um cansaço que eu nunca tinha notado antes. Ele olhou para Nathanael, meu pai, e depois varreu a sala com um olhar gélido que parou por um segundo em Júlia. Ela estava imóvel, pálida como um cadáver, as mãos agarradas ao veludo da poltrona. — Eu vou ser direto — Malakai continuou, e o ar da sala pareceu sumir. — Eu estou morrendo. Tenho pouco tempo de vida. O impacto foi visceral. Senti o corpo de Jade retesar sob meus dedos; ela soltou um suspiro de choque, a médica nela provavelmente já processando a gravidade daquelas palavras. Minha mãe, Babi, levou a mão à boca, trocando um olhar alarmado com Joannah. Eu endureci a mandíbula. Como homem, eu sabia o que aquilo significava. O poder estava mudando de mãos, e a linhagem Montserrat estava em jogo. Olhei para Júlia pelo canto do olho. Ela parecia estar em transe, o desespero de ser humilhada minutos antes agora substituído pelo horror da morte do pai. Meu lobo se agitou de novo, um desconforto bruto arranhando meu peito ao ver o estado dela, mas eu o sufoquei. Eu estava com Jade. A mulher que eu amava estava de volta, e o homem que nos separou estava anunciando seu fim. O tribunal de Malakai não era apenas sobre o divórcio ou a imprudência de Júlia. Era sobre a sucessão. E, naquele momento, com a morte rondando a sala, a fragilidade de Júlia não era apenas uma vergonha — era uma sentença. — Por isso — Malakai retomou, sua voz ganhando uma agressividade perigosa — não tenho tempo para lidar com fraquezas. E o que aconteceu no restaurante... aquela tentativa patética e egoísta de tirar a própria vida, Júlia... foi o a gota d’água você nunca mais ouse fazer algo assim de novo entendeu ? Ele apontou o dedo para ela, e todos os olhos da elite lupina se cravaram na minha esposa como se ela fosse uma ferida aberta. Eu continuei ali, abraçado a Jade, sentindo a agonia da Júlia vibrar no ar, mas sem mover um músculo para defendê-la. O jogo de poder tinha acabado de subir de nível.
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