O ar na sala estava parado, denso como breu. Eu sentia como se minha própria presença estivesse sendo sufocada pelo poder e pelo hálito gélido da morte que emanava do meu pai. Eu estava sentada naquela poltrona, mas meus pés não tocavam o chão. Eu flutuava em um abismo de vergonha.
— Eu estou morrendo — a voz de Malakai não soou como uma despedida, mas como um veredito.
Minha garganta se fechou. Eu queria chorar pelo meu pai, queria sentir a dor da perda, mas a única coisa que eu conseguia sentir era o peso do olhar de cada Blackwolf, Salazar e Ashworth presente. Para eles, eu era o defeito na linhagem. A peça que estragava a perfeição daquela sala.
Olhei para Gabriel. Ele era uma estátua de brutalidade e beleza, as mãos grandes e possessivas envolvendo Jade. Ver o modo como ele a tocava — com uma alma que ele nunca me mostrou — doía mais do que o tiro que dei no meu próprio peito.
A Loba dentro de mim deu um solavanco. Foi um movimento bruto, como se os ossos estivessem sendo moídos dentro das minhas costelas.
— Aquela tentativa patética e egoísta de tirar a própria vida... foi a gota d’água — o rosnado do meu pai me chicoteou. — Você nunca mais ouse fazer algo assim, entendeu?
Eu não respondi. Não conseguia. Um calor líquido e ferroso começou a inundar minha boca. Sangue. O gosto metálico era a única coisa real enquanto eu via Gabriel inclinar o rosto para o pescoço de Jade, ignorando minha existência como se eu fosse apenas mobília velha.
— Pare de envergonhar nossa família — Malakai continuou, sua voz ganhando uma agressividade que fazia os vidros dos lustres vibrarem. — Torne-se a mulher que eu te criei para ser. Não posso morrer sabendo que você causará mais problemas.
O subtexto era claro: eu era um fardo. Um erro que ele não queria deixar para trás.
Tentei respirar, mas meus pulmões pareciam cheios de vidro moído. O estresse emocional estava agindo como um combustível para a loba que me devorava por dentro. Senti uma queimação súbita na base da coluna, um calor que se espalhou como veneno pelas minhas veias, transformando meu sangue em lava.
“Luna Nascida”, a voz de Rafael ecoou como um aviso de naufrágio.
— Júlia? — a voz da minha mãe, Joannah, soou como um estalido. — Você ouviu seu pai? Prometa que vai parar com essas cenas.
Tentei focar, mas a visão estava borrada. Jade me olhava por cima do ombro de Gabriel. Ela estava radiante, o oposto exato da minha ruína.
— Ela está pálida demais, Gabriel — ouvi o sussurro doce de Jade. — Olhe como ela treme.
Gabriel finalmente desviou os olhos de Jade para mim. O azul elétrico dele me atingiu com um desprezo que me fez querer desaparecer.
— Ela está apenas colhendo o que plantou — ele respondeu, e a frieza daquela voz humana foi o golpe final.
Eu me levantei. Cada músculo do meu corpo gritou em protesto, uma pontada aguda atravessando minha medula como se agulhas estivessem sendo enterradas na minha carne. O mundo girou, mas eu obriguei minhas pernas a se moverem.
Caminhei até o meu pai e, diante de todos aqueles olhares predatórios, eu me ajoelhei.
O impacto dos meus joelhos contra o mármore ecoou no silêncio da sala. Eu tremia violentamente, o calor da loba interna ameaçando romper minha pele.
— Eu sinto muito, pai... por tudo — sussurrei, minha voz falhando. — Prometo não lhe dar mais dor de cabeça.
Peguei as mãos dele, sentindo a pele áspera e fria de Malakai. Beijei-as de leve, um gesto de respeito que parecia sugar o resto das minhas forças. Era o meu adeus à filha que ele nunca amou.
Levantei-me devagar e saí daquela sala sem olhar para trás. Eu não precisava ver o triunfo no rosto de Jade ou a indiferença de Gabriel. A agonia física era tão intensa que eu m*l sentia o chão sob meus pés, mas eu tinha um objetivo. Uma necessidade visceral.
O corpo estava dolorido de tanta porrada emocional, mas eu caminhei. Atravessei os corredores da mansão Montserrat sentindo cada fibra do meu ser se desfazer. Eu precisava de ar. Precisava deles.
Abri as portas que davam para o quintal. O sol de Costa da Lua parecia ofensivamente brilhante, mas eu continuei avançando até ver o gramado verde.
Lá estavam eles.
Eles brincavam com os primos, correndo de um lado para o outro como se o mundo fosse um lugar bom, sem dores ou traições. E, para eles, naquele momento, era.
Cassian e Connor. Meus gêmeos. Meus meninos perfeitos de sete anos.
No momento em que seus olhos me encontraram, o tempo parou. A dor que me consumia recuou por um segundo, empurrada pela força da vida que emanava deles.
— Mamãe! — os gritos de felicidade rasgaram o ar.
Eles correram na minha direção com toda a energia que possuíam. O impacto do abraço deles quase me derrubou, mas eu os envolvi em meus braços, apertando-os com uma força desesperada.
— Mamãe, eu senti sua falta — murmurou Cassian, apertando minha cintura.
— Não, mamãe! Eu senti muito mais que ele — Connor protestou, disputando meu abraço.
Os dois sempre competindo, um duelo de afetos que era o meu único oxigênio naquele momento.
As mãos pequenas deles se agarravam à minha roupa, e o calor de seus corpos contra o meu peito ferido era o único bálsamo capaz de estancar a hemorragia da minha alma. Eu chorei. Não pela humilhação, não pela morte do meu pai, mas pelo medo de que aquele fosse o último abraço que eu pudesse sentir antes que a loba me consumisse por inteiro.
— Mamãe, você está triste? — a voz de Cassian era um sussurro que doía mais do que os gritos de Malakai lá dentro. Ele sempre via através de mim.
Connor franziu a testa, os pequenos punhos cerrados ao meu redor. Ele tinha herdado aquela postura protetora, o instinto de defesa que os Blackwolfs carregavam no sangue.
— Foi o papai, não foi? — Connor perguntou, a voz subindo um tom. — Ele te deixou assim?
O pânico de ver a inocência deles ser manchada pela minha dor me atingiu como um choque. Balancei a cabeça freneticamente, forçando meus dedos trêmulos a limparem o rastro salgado do meu rosto. O esforço para sorrir fez os músculos da minha face latejarem.
— Não, meus amores. Nada disso — menti, e o gosto da falsidade era amargo como bile. — Mamãe está chorando de emoção. Eu estava com tanta saudade de vocês que os meus olhos transbordaram. Só isso.
Eu os puxei para mais perto, escondendo meu rosto em seus pescoços para que não vissem o brilho amarelo e doentio de desespero nos meus olhos.
Não importava o quanto Gabriel me quebrasse.
Não importava que ele estivesse lá dentro, segurando a mão de Jade enquanto me jogava aos leões. Eu nunca os colocaria contra ele. Eles mereciam amar o pai que acreditavam ter, mesmo que eu estivesse sendo devorada viva pelo homem que ele realmente era.
Acompanhei cada movimento de Cassian e Connor até que meus olhos ardessem. Eles eram o único ponto de cor em um mundo que, para mim, tinha se tornado cinza e estéril. Quando me levantei, cada vértebra pareceu protestar, um rangido seco que ecoava o cansaço da minha alma.
Caminhei até o bar da área externa. Eu não precisava de água ou de fôlego; eu precisava de anestesia. O balcão de mármore estava frio sob minhas palmas trêmulas.
Enchi um copo com vodka. O líquido desceu queimando, um rastro de fogo que competia com a brasa que a loba Luna Nascida mantinha acesa no meu peito. Eu bebia para esquecer o gosto de ferro na boca e o peso do abraço de Gabriel em Jade.
Senti a aproximação delas antes mesmo de ouvi-las.
Ártemis Mykonos chegou primeiro, com aquela lealdade silenciosa que os Mykonos sempre tiveram. Logo atrás, Kaía Donavan e minha irmã, Safira. Das minhas irmãs, Safira era a única que não me olhava como se eu fosse um erro biológico.
Faltava a Melissa. Minha Melissa Salazar. Minha irmã de alma que o destino jogou para fora do país quando eu mais precisava do seu abraço. O vazio que ela deixou era uma cratera que a vodka não conseguia preencher.
— Oi, amiga... você está bem? — a voz de Ártemis foi um sussurro cauteloso, como se ela estivesse falando com um animal ferido.
Elas se acomodaram ao meu redor, cercando-me com uma proteção que eu não tinha forças para pedir, nem para rejeitar. Eu não olhei para nenhuma delas. Meus olhos estavam fixos no fundo do copo, onde a transparência do álcool refletia a minha própria derrota.
— Oi — respondi curta, a garganta áspera.
Tomei mais um gole longo. O líquido desceu rasgando, mas a dor no peito permanecia intacta. Eu sentia o calor delas, o perfume de flores e preocupação que emanava do grupo, mas eu estava em outra frequência. Eu estava no silêncio da minha loba, esperando o próximo golpe que eu sabia que viria de dentro daquela mansão.
Mesmo no meu pior momento, elas estavam ali. Inabaláveis. E aquilo, de certa forma, doía ainda mais.
Ficamos ali um tempo até que a área começou a encher de gente. Conversas, risadas, o som de gelo batendo nos copos. Eu não queria estar ali com as pessoas que não poupavam esforços para me julgar quando podiam. Dei uma desculpa qualquer e me retirei. Meu destino era a praia, o único lugar onde eu conseguiria respirar.
Mas antes de meus pés tocarem a areia, Gabriel me interceptou. Ele parecia uma parede de músculos e raiva contida.
— Vamos conversar — não era um pedido, era uma ordem.
— Não temos o que conversar — falei, tentando ultrapassá-lo sem olhar para ele.
Ele estendeu o braço e eu esbarrei em seu peito duro como pedra. Ele me segurou.
— Gabriel, me solta! — falei irritada, puxando meu braço.
Ele não usou palavras. O aperto em meu braço se tornou um torno de ferro, ignorando a fragilidade da minha pele. Sem qualquer permissão, Gabriel me arrastou de volta para a mansão.
Meus calcanhares arrastavam pelo mármore, um som seco que ecoava pelas paredes como o grito que eu não conseguia soltar. Eu protestava, tentava fincar os pés, mas era como tentar parar uma avalanche com as mãos nuas. A brutalidade dele era silenciosa, eficiente e assustadoramente familiar.
— Gabriel, para! Você está me machucando! — minha voz saiu curta, entrecortada pelo esforço.
Ele não respondeu. A mandíbula dele estava travada, uma linha rígida de fúria. Ele chutou a porta de uma das salas de estudo, me jogando para dentro antes de bater a madeira com uma força que fez os quadros nas paredes tremerem.
O estalo da fechadura sendo trancada foi o veredito final.