POV DE JÚLIA MONTSERRAT
[CONTINUAÇÃO DO FLASHBACK — 8/9 ANOS ATRÁS]
Gabriel não voltou.
Mas foi como se nunca tivesse ido embora.
Ele estava em todos os cantos e no silêncio, nos espaços vazios, no ar pesado que eu ainda era obrigada a respirar.
E doía.
Doía existir onde ele ainda existia.
Não adiantava evitar o escuro, fugir dos encontros, desviar o olhar... porque, mesmo assim, ele estava lá.
Em cada ambiente.
Em cada segundo.
Em mim.
E o pior não era a ausência.
Era quando, no meio de todo mundo, ele me olhava daquele jeito...
Como se ainda fosse meu.
Como se sentisse falta.
Como se isso não tivesse me destruído.
E depois de meses de silêncios e olhares ele finalmente se comunicou comigo.
O bar estava sufocante era uma noite verão. O ar parecia ter sido substituído por uma mistura espessa de fumaça, cheiro de cerveja barata e o suor de centenas de corpos aglomerados.
Fazia um calor de cinquenta graus, mas o incêndio real estava no palco.
Gabriel estava lá em cima. Ele estava sem camisa, a pele bronzeada brilhando sob as luzes fortes, coberta por uma camada fina de suor que destacava cada músculo e tatuagem a imagem do pecado.
Ele parecia um animal selvagem em exibição. E as mulheres ao redor surtavam.
Ele já estava bêbado. O rosto estava vermelho, os olhos azuis injetados e brilhantes, fixos em um ponto invisível no fundo do bar.
Arthur não estava lá. Nem a Jade. Ela odiava aqueles shows, odiava o pagode que ele cantava e a bagunça que Gabriel atraía.
Eu estava com meus amigos e familiares, tentando fingir que o buraco no meu peito não estava ali.
Tentando ser a noiva perfeita.
Gabriel segurou o microfone com força, as veias do braço saltadas. Ele deu um sorriso torto, perigoso.
— Essa música vai para a dona e proprietária dos meus sonhos e do meu coração — ele disparou, a voz rouca ecoando pelos alto-falantes.
O bar silenciou por um milésimo de segundo.
— Quando eu era pequeno, aprendi a falar a língua materna dela só para falar com ela. Essa vai para a minha garota babilônica... porque eu não consigo tirar você da minha cabeça.
Eu engasguei.
O gole de cerveja queimou a minha garganta. Ouvir aquele apelido me quebrou em mil pedaços.
Eu sempre fui intensa, um caos antes de tudo desmoronar. Me chamavam assim porque me comparavam com a Babi, minha futura sogra e madrinha.
Diziam que eu era o mesmo furacão que ela.
Mel deu um tapinha nas minhas costas enquanto eu tossia, tentando recuperar o ar. Artemis me olhou com uma careta; Kaía tocou meu ombro, todas na mesa sabiam de onde vinha aquele nome.
Gabriel não esperou. Ele deu o sinal para a banda e os primeiros acordes de reggaeton começaram a vibrar no chão do bar.
Ele começou a cantar em espanhol. E eu quase infartei.
— Dime cómo le explico a mi destino que ya no estás ahí…
— Me diga como eu explico pro meu destino que você já não está mais lá…
— Me rehúso a darte un último beso, así que guárdalo... — a voz dele era maravilhosa, potente, carregada de uma dor que ele não tentava mais esconder.
— Eu me recuso a te dar um último beijo… então guarda ele com você…
Era uma tortura para a minha alma seca e vazia.
Ele cantava olhando para o nada, mas eu sentia cada palavra como se ele estivesse gritando no meu ouvido, prensando meu corpo contra aquela geladeira de novo.
— Sé que, en el amor, cuando es real… ese vuelve, vuelve…
— Eu sei que quando o amor é real… ele sempre volta…
O som da voz dele atravessou o bar como uma lâmina.
Meus dedos apertaram a borda da mesa com tanta força que as unhas doeram.
O ar ficou pesado demais para entrar nos meus pulmões.
Minha garganta ardeu.
— Pero ¿cómo olvidar tu piel? ¿Y cómo olvidarte, mujer?
— Mas como esquecer sua pele? Como esquecer você?
Meu corpo travou.
O copo na minha mão tremeu, o líquido balançando perto de transbordar.
Engoli em seco, mas não adiantou.
A sensação da pele dele ainda estava ali.
Viva demais.
A música falava sobre amores obrigados a se separar. Falava sobre a química que ele ainda provocava em mim.
Eu olhei para as minhas mãos trêmulas sobre a mesa.
O anel de noivado do Arthur brilhava, frio e sem vida.
Gabriel continuava o show, suado, bêbado, entregando o coração dele em uma língua que só nós dois realmente sentíamos no fundo da alma naquela mesa.
— Nena, discúlpame... si te ilusioné, yo no lo quise hacer...
— Me desculpa, se eu te iludi… não foi minha intenção…
Eu queria levantar e correr. Queria sumir daquele bar, mas meus pés pareciam colados no chão.
O apelido "Babilônica" ainda ecoava na minha mente, me lembrando de quem eu era antes de tentar me tornar a boneca de porcelana do Arthur.
Eu era o caos. Eu era o fogo. E o Gabriel sabia disso melhor do que ninguém.
— Me rehúso a darte un último beso…
— Eu me recuso a te dar um último beijo…
— Para que, en la próxima vez, te lo dé haciéndolo... — ele rosnou a última frase, os olhos finalmente encontrando os meus no meio da multidão.
— Pra que na próxima vez eu te dê ele… fazendo amor com você…
Naquele segundo, o bar inteiro desapareceu. Ficamos só eu, ele e a promessa de um beijo que nenhum de nós dois queria que tivesse sido o último.
Quando a música acabou, o silêncio que se seguiu na minha mente foi ensurdecedor. Gabriel não desviou o olhar. Ele mirou direto na minha alma por segundos que pareceram séculos.
Mas ele cumpriu a promessa. Ele não desceu do palco para me buscar. Ele não precisava vir até mim para me quebrar; ele já tinha feito isso com cada estrofe.
A semana que se seguiu foi uma tortura lenta. Cada respiração parecia um esforço consciente, um peso que eu me obrigava a carregar para provar que ainda estava viva.
Eu me forçava a sorrir para o Arthur. Me forçava a planejar o futuro. Mas o apelido "Babilônica" ecoava nas paredes do meu crânio, me lembrando de que eu estava fingindo ser alguém que não existia mais.
Então, o Dia dos Namorados chegou.
Era a mesma semana. O ar estava carregado, eletrizante. E era noite de Lua Cheia.
Meu sangue fervia. Como loba, o instinto rugia por liberação, por algo ardente que queimasse a melancolia que me sufocava.
Eu precisava esquecer. Precisava apagar o rastro de Gabriel com a presença de Arthur.
Preparei tudo no apartamento dele.
Espalhei velas pela suíte, o cheiro de baunilha tentando mascarar o cheiro do meu próprio medo.
Comprei o melhor champanhe, o vinho mais caro.
Brinquedos sexuais estavam dispostos sobre o móvel, uma tentativa desesperada de inflamar uma chama que teimava em ser apenas fumaça.
Eu me produzi como nunca.
A lingerie preta era de uma renda fina, agressiva. Ela não tapava nada; apenas emoldurava a pele que clamava por um toque que a fizesse vibrar de novo.
Me maquiei, me perfumei, transformando meu corpo em uma oferta. Eu precisava de uma noite de sexo ardente. Precisava ser preenchida até que não sobrasse espaço para lembranças.
Ouvi o som metálico da chave na fechadura. O coração deu um solavanco.
Arthur entrou.
Eu já estava deitada na cama, o corpo marcado pela renda da lingerie, as pernas entreabertas, não em desespero... mas em um convite claro.
Para ele.
Eu queria que ele me visse.
Queria o efeito que eu causava nele.
Arthur parou na porta do quarto.
E no segundo em que os seus olhos encontraram o meu corpo... eu soube.
O olhar dele mudou.
Escureceu.
A boca curvou de leve, como se estivesse segurando um sorriso satisfeito.
— Você... — a voz saiu baixa, rouca, cheia de intenção — tá espetacular.
Sem pressa, ele deixou o casaco cair.
A gravata veio logo depois.
Cada movimento era deliberado, como se ele quisesse que eu acompanhasse tudo.
Como se estivesse gostando de ser visto... tanto quanto gostava de me ver.
Os botões da camisa foram abrindo um por um.
Depois a calça.
Até restar apenas a cueca preta.
E ele não desviava o olhar.
Nem por um segundo.
Pelo contrário...
Se aproximou.
Seguro.
Quente.
Feliz.
Como um homem que finalmente tem nas mãos exatamente o que quer.
— Vem cá... — ele murmurou, a voz carregada de desejo — deixa eu chegar mais perto.
O calor subiu pelo meu ventre, uma queimação que eu precisava que ele apagasse.
— Vem... estou esperando por você... — falei, minha voz saindo sedosa, sedutora, um convite desesperado.
Ele deu risadinhas. Caminhou até a cama, se ajoelhou e pegou meu pé.
Arthur começou a beijar minha pele, acariciando minha coxa, subindo devagar.
— Você está linda, minha noiva...
— Huuum... ronronei — obrigada, amor. Me preparei toda para você...
As coisas começaram a esquentar. Fechei os olhos, imaginando que aqueles beijos continuariam subindo.
Senti a minha i********e ficar molhada com os toques e as carícias dele, a promessa de alívio finalmente chegando.
Até que ele parou. E murmurou contra a minha pele:
— Deixa só eu tomar um banho e a gente pede alguma coisa enquanto vê um filme. E depois a gente continua.
Eu travei.
O mundo parecia ter parado de girar.
— O quê? — a minha voz saiu muito mais alta do que eu esperava.
Era desespero puro. Era incredulidade.
Eu comecei a respirar pesado o meu peito subia e descia as minhas veias começaram a queimar eu não conseguia acreditar nisso. A raiva começou a me dominar e eu não fazia ideia de como tudo ia explodir naquela noite e continuei.