Capítulo 22 - Memórias do Paraíso

1788 Words
POV GABRIEL BLACKWOLF O céu sangrava enquanto eu, sentado no banco de madeira na varanda, sangrava junto. O horizonte da Costa da Lua estava tingido de um laranja doentio, um rastro de fogo que parecia zombar do estado do meu corpo. A mansão Blackwolf pulsava atrás de mim, uma carcaça de luxo cheia de estática e sussurros pesados. Eu sentia cada centímetro da minha pele latejar sob o mormaço da tarde. Júlia estava ali, entre as minhas pernas. Ela era a única coisa real naquele cenário de ruínas. Seus dedos estavam gelados, um contraste brutal com a febre que parecia consumir meu peito. Eu estava sem camisa, o suor misturando-se ao sangue que escorria dos cortes que meu pai havia deixado. As garras de Nathanael tinham perfurado mais do que a carne do meu ombro. Elas tinham rasgado o que restava da minha dignidade. Rafael tinha me medicado, mas não havia droga no mundo capaz de anestesiar a humilhação de ser domado como um animal diante da alcateia. Ao longe, o vulto de Jade era uma mancha verde na varanda. Ela me observava com uma angústia silenciosa, mas não ousava se aproximar. Eu desviei o olhar. Não tinha estômago para a presença dela. Cada vez que eu olhava para Jade, eu via a materialização da minha própria covardia. Júlia não me olhava nos olhos. Sua atenção estava presa no corte sobre o meu supercílio. O cheiro químico do antisséptico invadia minhas narinas, lutando contra o perfume de limão e baunilha que sempre exalava dela. Aquele aroma me deixava tonto, me puxando para um lugar onde eu não tinha o direito de estar. — O que aquele desgraçado queria, Júlia? — disparei. Minha voz saiu como um rosnado baixo, carregada de um ciúme que ardia mais que o ferimento aberto. Dante Leone era um nome que eu queria apagar da existência. A gaze parou contra a minha pele. Júlia soltou um suspiro exausto. — Ele estava preocupado, Gabriel. Soube que você sucumbiu à maldição e veio ver se eu estava bem. A honestidade dela foi um soco. Meu maxilar trincou. — E desde quando ele tem i********e para se preocupar com você? Por que está dando essa liberdade a ele, Júlia? Esqueceu que ele quase te matou? Ela finalmente levantou o rosto. Havia uma palidez doentia nela, um cansaço que ia além do estresse físico. Lembrei-me do tiro que ela levou por minha causa, e minha irritação vacilou sob o peso da culpa. Mas o meu lobo estava agitado, rosnando por dentro, sentindo que o território estava sendo invadido. — Ele não me machucou, Gabriel — ela respondeu, a voz gélida. — Ele me salvou. Foram os desgarrados que me feriram. Ele foi preso injustamente por um erro seu. Eu sustentei o olhar dela. Por um segundo, a esperança sussurrou que o amor dela ainda estava ali, escondido sob as camadas de mágoa. — Não importa. Ele é perigoso. Eu não quero ele perto de você, entendeu? O olhar de Júlia mudou. O gelo se transformou em aço. — Estamos divorciados, esqueceu? — O golpe foi seco. — Divórcio significa que você não tem mais voz sobre a minha vida. Se meta na sua e na da mulher que você escolheu! Cada palavra dela era um prego no meu caixão. O instinto de defesa — aquele que sempre me fazia afastar quem eu amava — agiu por conta própria. — Eu sei o que eu fiz, Júlia. Mas foi você quem pediu o divórcio. Foi escolha sua acabar com a nossa família, não minha. Menti. Menti porque a verdade era insuportável. Enquanto falava, meus olhos focaram nas mãos dela. Quantas vezes ela já tinha limpado o meu sangue? Quantas vezes ela me trouxe de volta da beira do abismo, apenas para eu empurrá-la de volta para o escuro? Meu coração doeu. Uma fisgada física que me tirou o fôlego. Fechei os olhos e, subitamente, o cheiro de antisséptico foi engolido pelo aroma de pipoca com manteiga. O sol da varanda sumiu, substituído pela luz azulada de uma TV na penumbra de anos atrás. Eu estava voltando para lá. Para o paraíso que eu mesmo decidi queimar. Flashback (na mente de Gabriel, enquanto o sangue pinga na varanda): O cheiro forte de antisséptico, sangue e maresia foi engolido pelo aroma doce de pipoca estourada na manteiga, pelo perfume de baunilha e lavanda que grudava na pele dela naquela época. A sala na penumbra, luz azulada da TV piscando nas paredes. O ar gelado de Angra entrando pelas frestas, arrepiando a nuca, mas o sofá era quente onde nossos corpos se encostavam. Os casais tinham sumido um a um — risadas abafadas, portas fechando. Restamos só nós dois. O silêncio caiu pesado, quebrado só pelo som distante das ondas e pelo filme esquecido. Júlia se virou devagar. Aquele olhar — semicerrados, lábios entreabertos num sorriso safado que fodia com meu juízo. Ela mordeu o lábio inferior de leve, e meu coração deu um salto violento. Nossos rostos se aproximaram. Narizes quase se tocando. O fôlego dela quente, irregular, batendo na minha boca como uma promessa. — Você tá nervosa? — sussurrei, voz rouca, tremendo no peito. Ela fez que não devagar, o movimento fazendo nossos narizes roçarem. Os olhos dela brilhavam na penumbra, pupilas dilatadas. — Nem um pouco... — sussurrou de volta, voz baixa, carregada de algo que me incendiava. — Esperei muito por isso. Não deixei a conversa se esticar. Não dava mais. Colei meus lábios nos dela, faminto. O impacto foi imediato, como um soco no estômago — mas do tipo que faz você querer mais. O primeiro toque foi elétrico, lábios macios colidindo com força, abrindo caminho. O gosto dela explodiu: mel, sal da pipoca grudado nos cantos da boca, morango doce da bala que ela chupava escondido, algo quente, úmido e vivo que era puro Júlia. Minha língua invadiu sem pedir, procurando a dela com desespero. Ela respondeu na mesma moeda a língua quente, molhada, dançando contra a minha em movimentos frenéticos, quase agressivos. Ela subiu no meu colo de uma vez, pernas abertas de cada lado dos meus quadris, peso dela pressionando exatamente onde eu já estava duro pra c*****o. Nossos corpos colaram: peito contra peito, barriga contra barriga, o calor dela vazando através do moletom fino. Senti os m*****s dela endurecidos roçando meu peito através da roupa, e um gemido baixo escapou da minha garganta direto na boca dela. As mãos dela cravaram no meu cabelo, puxando com força, unhas arranhando o couro cabeludo — dor boa, que fazia meu sangue ferver mais rápido. As minhas desceram pela cintura dela, apertando a carne macia sob o tecido, subindo pelas costas, sentindo cada vértebra, cada músculo tenso. Eu a prendi contra mim, como se pudesse fundir nossos corpos. O beijo virou bagunça: molhado, barulhento, saliva escorrendo pelos cantos da boca, dentes roçando lábios, mordidas leves que faziam ela soltar suspiros roucos contra minha língua. Nossas respirações saíam em golfadas quentes, entrecortadas, o ar grosso de desejo. O sofá rangeu sob nós, protestando contra os movimentos involuntários dos quadris dela roçando nos meus — devagar no começo, depois mais urgente, ritmados, desesperados. Eu gemia na boca dela, sons abafados que vibravam entre nossas línguas. Ela respondia com pequenos choramingos, o corpo tremendo inteiro, coxas apertando minhas laterais como se quisesse me prender ali pra sempre. Meu coração batia tão forte que eu sentia pulsar contra o dela, um tambor descontrolado. O calor subia pela minha nuca, pelo peito, concentrando tudo entre as pernas meu m****o latejava pulsando por ela. Era visceral. Animal. Perfeito. Eu era dela. Ela era minha. O mundo inteiro sumiu: só existia a boca dela devorando a minha, o gosto doce-salgado misturado à saliva, o cheiro dela me envolvendo, o tremor dos corpos colados. O tempo passou e eu não precisava mais das artimanhas do meu irmão. Estávamos vivendo um sonho, mergulhados um no outro com uma intensidade que chegava a doer. O anúncio do nosso namoro era apenas uma formalidade que planejaríamos para os próximos dias. Pelo menos, era o que eu acreditava. Em uma tarde quente, aproveitando que a mansão estava vazia, nos escondemos em uma das salas menores. O que começou com beijos castos no sofá rapidamente se transformou em um incêndio. As roupas voaram. Foram descartadas pelo chão como obstáculos desnecessários entre nossas peles. Júlia estava quase nua. Restava apenas a calcinha de renda que contrastava com a pele dourada dela. Eu estava sobre ela, mantendo o peso nos braços apenas para admirá-la. Meus olhos brilhavam, fixos na perfeição que ela era sob a luz suave que entrava pelas cortinas. — Você é perfeita... eu... — Engoli em seco. O nervosismo lutava contra a adoração pura. Mas as palavras precisavam sair. — Eu sou totalmente apaixonado por você. Ela sorriu. Aquele sorriso... eu nunca esqueceria. Ele iluminou o rosto dela enquanto nossos corações batiam em uma sintonia tão perfeita que pareciam um só tambor. — Eu te amo, Júlia — confessei, minha voz vibrando contra a pele dela. Estávamos quentes, quase nus, o peito dela subindo e descendo em uma arfagem que me deixava louco. O cheiro de desejo dela era o meu único oxigênio. — Eu também te amo, Gabriel... — ela sussurrou de volta, com uma entrega que me desarmou por completo. Ela me puxou para um beijo que selava aquela promessa. Eu não tinha pressa. Queria beijar cada centímetro daquele corpo, gravar o gosto dela na minha língua, mapear cada sarda como se fosse um tesouro. Desci meus beijos pelo pescoço, sentindo o pulsar frenético da sua jugular, até chegar aos seus s***s. Eram quentes, macios. Perfeitos. Quando abocanhei um deles, Júlia soltou um gemido agudo que ecoou na sala vazia. Ela se contorceu sob mim, as mãos enterradas no meu cabelo, me puxando para mais perto, querendo ser consumida. Eu estava perdido na geografia do corpo dela quando o mundo real decidiu invadir o meu paraíso. — Ah, vão se agarrar em um quarto! — A voz de Rafael estalou no ar, carregada de deboche. O choque foi como um balde de água gelada. Meu sangue congelou. O sobressalto foi instintivo. Mesmo com o coração saindo pela boca, meu primeiro movimento foi cobri-la com o meu corpo. Eu estava apenas de cueca e ela, vulnerável e linda, só de calcinha sob mim. Tentei escondê-la, protegê-la da invasão. Quando me levantei, o choque foi duplo. Não era apenas Rafael. Meu pai, minha mãe e meus irmãos mais novos estavam ali. Um comitê de recepção que eu definitivamente não esperava. Coloquei Júlia rapidamente atrás das minhas costas, ainda arfando, tentando usar minha envergadura para ocultá-la por completo daquela humilhação. Encarei meu pai e soube eu estava fodido.
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