POV GABRIEL BLACKWOLF
Continuação do Flashback do passado
Era uma tarde de domingo. O sol de Costa da Lua brilhava lá fora e a alcateia estava reunida, rindo e celebrando.
Eu ainda não tinha feito o pedido formal de namoro para o Malakai, mas a caixinha com o anel pesava no meu bolso, uma promessa do futuro que eu achava que merecia.
Foi quando passei pelo corredor do escritório e ouvi a voz do meu pai e do seu Beta, Alaric Ashworth. Eles falavam sobre a mulher que habitava meus piores pesadelos: Katherine.
— Ela está grávida — Alaric disparou. A voz dele carregava um peso sombrio que atravessou a madeira da porta.
Senti meu sangue congelar instantaneamente. Meus pulmões pareceram fechar, o ar se recusando a entrar.
Ouvi o silêncio tenso do meu pai, antes de ele responder em um tom nervoso.
— Porra... ela disse quem é o pai?
— Olha, não acho que seja seu — Alaric tentou acalmá-lo, embora o asco fosse evidente em sua voz. — Ela foi para o território Norte. O tempo da gravidez bate com o período em que ela ficou lá no internato, até a Beth resolver trazê-la de volta...
Eles continuaram conversando, tensos. Mas não tinham ideia do que aquelas palavras estavam fazendo comigo do outro lado da porta.
Eu estava petrificado.
O ódio subiu pelas minhas veias como um incêndio incontrolável, queimando a pouca paz que eu tinha conquistado. Aquela mulher tinha me destruído de todas as formas possíveis. Tinha roubado minha infância e marcado minha alma com ferro em brasa. E agora, ela ia gerar uma vida?
Desejei com cada fibra do meu ser que ela estivesse morta. Que o feto em seu ventre fosse apenas cinzas.
O mundo ficou vermelho. A doçura da Júlia, que me esperava no jardim, pareceu de repente algo distante. Algo que eu não merecia mais, ou que a sombra da Katherine nunca me deixaria ter por completo.
Minha mãe não a matou quando teve a chance.
Ela foi piedosa demais, e eu guardei cada gota desse rancor no fundo da minha alma. A Babi não impediu o que Katherine fez comigo e com meus irmãos, e depois de tudo, ainda não teve a coragem de finalizar a v***a.
Apertei os dedos na madeira da porta com tanta força que senti as fibras estalarem sob minhas unhas.
— Não me orgulho de ter ficado com ela, e tenho ódio de mim mesmo por ter confiado nela perto dos meus filhos... — Nathanael confessou lá dentro. Uma admissão rara de culpa que me fez congelar. — Um dia ainda terei o prazer de acabar com a raça dessa psicopata.
Mas para mim, aquelas palavras não eram consolo. Eram combustível.
Eu não queria que ele tivesse prazer em matá-la um dia. Eu queria que ela já estivesse morta. Saber que um pedaço dela — um filho — seria criado pela minha própria família, sob o mesmo céu que eu, transformou todo a paz que eu construí com a Júlia em algo manchado. Uma herança de sangue que eu nunca conseguiria lavar.
Toda a dor que eu pensava ter sufocado emergiu com uma força devastadora. Tive a péssima ideia de que precisava vê-la.
Queria ver Katherine presa, sofrendo, definhando.
No dia seguinte, fui sem pedir permissão. Atravessei de balsa até a penitenciária de segurança máxima, o estômago embrulhado pela ansiedade. O dia amanheceu cinza, como se o céu estivesse em luto. Eu só queria vê-la sofrendo.
Mas quando fiquei de frente para as grades da cela dela e a vi, a satisfação que eu esperava não veio.
Em vez disso, ela sorriu.
— Oi, gatinho lindo... que saudade de você... — ela ronronou do outro lado, a voz arrastada pela dor, mas mantendo aquele tom meloso que me causava calafrios.
Aquele sorriso que habitava meus pesadelos fez meu estômago revirar em puro asco. Ela estava carregada de correntes de prata nos pulsos e nos tornozelos. A prata reagia com a pele lupina dela, queimando e corroendo a carne de forma lenta e c***l.
O cheiro de carne queimada no ar era insuportável. Um odor adocicado e pútrido de tortura contínua.
Encarei-a com um ódio que fazia meus dedos tremerem.
— Eu só vim aqui para ver você derrotada. Exatamente assim: podre, suja, fedendo e humilhada nesse buraco... — as palavras saíram da minha garganta como cacos de vidro. — Meu desejo real é que você morra aqui, engasgada no seu próprio veneno.
Katherine me encarou com um vazio absoluto. Então, o vazio deu lugar ao deboche.
Ela soltou uma gargalhada c***l que ricocheteou nas paredes úmidas da cela. O som das correntes de prata arrastando no chão de pedra era um chiado de agonia quando ela se levantou e veio até as grades.
— Ah, amorzinho... você nunca vai se libertar de mim. Olha só você aqui, agora, comigo. Rastejou até mim. — Ela se inclinou, o cheiro de prata queimada e suor me atingindo. — Você acha o quê? Que vai seguir em frente e ser feliz com aquela ratinha irritante?
Trinquei os dentes, sustentando o olhar acinzentado dela.
Katherine soltou uma risada baixa, suave, quase afetuosa. Ela encostou o rosto nas grades, deixando a prata abrir novas feridas frescas na sua pele.
— Pobrezinho... você ainda não entendeu, né? — Ela sussurrou, a voz deslizando como uma cobra para dentro da minha mente. — Enquanto a Babi te abandonava, enquanto ela escolhia os outros filhos e te deixava pra trás como se você não existisse... eu estava lá.
Meu peito travou. O ar sumiu.
— Eu te criei. Eu te moldei — ela continuou, os olhos acinzentados brilhando com prazer puro. — Eu coloquei a minha escuridão bem no fundo de você.
Dei um passo para trás por instinto, minhas mãos suando frio.
— Sabe eu te conheço como ninguém... Você é podre, Gabriel. Só tem escuridão dentro de você. E você vai destruir a Júlia exatamente como eu destruí você.
Minha respiração falhou, a garganta fechando.
— A luz dela vai acabar — Katherine saboreava cada palavra. — Vai murchar devagar nas suas mãos, vai apagar até não sobrar nada. Porque é isso que você faz com tudo que é puro... você contamina. Você quebra. Você destrói.
Ela sorriu. Os dentes à mostra, a voz descendo para um sussurro que parecia entrar direto na minha alma.
— Ela vai te amar por um tempo. Vai achar que pode te salvar. Mas um dia vai sentir o cheiro da podridão que eu deixei.
Balancei a cabeça, o pânico subindo pela minha espinha.
— Vai ter pena... depois nojo... e vai fazer igual a Babi: vai embora. E quando ela te deixar, você vai lembrar das minhas palavras. Porque eu sou a única que nunca te abandonou. Eu vou continuar vivendo dentro de você... pra sempre.
— Cala a boca, sua p**a desgraçada! — rosnei, a Maldição de Sangue vibrando em cada fibra do meu ser.
Desferi um soco violento contra a grade de prata. O impacto fez o metal vibrar com um som seco, mas ela sequer piscou.
— Ah, amorzinho... você nunca vai se libertar de mim. Olha só você aqui, agora, comigo. Mesmo que negue, você rastejou até mim. — Ela se inclinou, o cheiro de prata queimada e suor me atingindo.
— A Júlia me ama e eu vou ser feliz com ela! Você não me quebrou!
— Você vai voltar aqui, Gabriel! — A voz dela me perseguiu, subindo de tom, tornando-se um grito histérico que ricocheteava nas paredes de pedra. — Vai voltar me dizendo que a Júlia te largou e se casou com outro homem, exatamente como a sua mãe fez! Você nunca será amado de verdade, me ouviu? Ninguém vai ficar!
Me virei bruscamente.
O peito subia e descendo em arfagens descontroladas.
Caminhei em direção à saída.
Precisava de ar. Do cheiro do mar.
Qualquer coisa que arrancasse o odor de podridão dela de mim.
Mas o estrago estava feito.
A armadilha havia fechado no meu pescoço.
Parei na borda do pátio externo.
Ali, onde a penitenciária se debruçava sobre o penhasco de Costa da Lua.
O vento gelado chicoteou meu rosto.
Mas as palavras de Katherine continuavam ecoando. Um mantra maldito.
"Você quebra. Você destrói. Você mata a luz."
Minha mão tremeu no bolso da jaqueta.
Os dedos envolveram a caixa de veludo.
A promessa do futuro.
O anel da Júlia.
Puxei a caixa. Abri.
O diamante brilhou sob o céu cinzento. Puro. Impecável.
Exatamente tudo o que eu não era.
Apertei o veludo até as bordas machucarem a palma da mão.
Ela era a única coisa limpa na minha vida.
E eu estava prestes a arrastá-la para a minha podridão.
Eu não posso destruí-la.
O pensamento rachou meu coração ao meio.
O sangue parecia escorrer por dentro, quente e amargo.
Para salvá-la de mim, eu precisava desaparecer.
Dei o primeiro passo em direção ao precipício.
As pedras rolaram sob minhas botas, sumindo no vazio lá embaixo.
O rugido do mar, centenas de metros abaixo, parecia um convite.
Um lobo que não pode proteger sua fêmea não merece o chão que pisa.
Guardei o anel. Fechei os olhos.
Inclinei o corpo para frente, sentindo a gravidade puxar meu peito.
O vento tentou me empurrar de volta, mas o abismo era mais forte.
— Adeus, minha luz — sussurrei para o nada.
Meus calcanhares deixaram o solo.