Capítulo 58 - A mãe loba

1900 Words
(POV DE JÚLIA MONTSERRAT) Eu estava submersa no nada. A escuridão não era apenas um vazio; era um peso físico, gélido e opressor. O meu corpo, estraçalhado pela transformação incompleta de apenas uma hora atrás, tentava se reconstruir no silêncio. Eu não deveria ter acordado. O meu despertar fora errado. Doloroso. Uma heresia contra as leis da natureza lupina porque não fora o meu companheiro, o dono da minha marca negada, quem me trouxera à vida. Fora Dante. A marca dele no meu pescoço ainda queimava como brasa, um selo incompleto que mantinha a minha loba viva, mas aprisionada em um limbo. Ela não tentava me matar, mas também não estava completa. Era uma sombra latente. Até que a escuridão vibrou. Não foi um som. Foi uma ordem divina que estremeceu as fundações do meu espírito. "JÚLIA, ACORDE! NOSSO FILHOTE ESTÁ EM PERIGO!" A voz de Juno, a Loba Mãe, cortou o meu coma como uma lâmina de prata em carne viva. Eu despertei de um salto. O meu peito subiu violentamente em busca de ar. O quarto do hospital girou. Eu estava encharcada de suor frio, meu coração batendo contra as costelas como um animal enjaulado. — Júlia?! Meu Deus, ela acordou! — a voz de Rafael cortou o zumbido nos meus ouvidos. Eu o vi pelo canto do olho. O rosto dele estava pálido. Ao lado dele, Dante travou, os olhos arregalados como se estivesse vendo um fantasma. Eu era um fantasma. Um cadáver que Juno acabara de reanimar por pura urgência. A dor da transformação forçada ainda latejava em cada osso meu. Parecia que meu esqueleto havia sido quebrado e colado com vidro moído. — Onde... onde ele está? — minha voz saiu como um rascunho de som, arranhando a garganta. — Júlia, deita! Você não pode se mexer! — Dante avançou, as mãos grandes tentando me empurrar de volta. — Você quase morreu. Seu corpo não aguentou o despertar! — ME SOLTE! — eu rosnei. Não era o rosnado de uma loba Alfa. Era o rosnado de uma mãe que sentia o fio da vida de sua cria se esfiapar. A minha loba, aquela sombra incompleta, agitou-se sob a minha pele. Ela não estava totalmente ativa, mas o instinto de proteção era a única coisa que a mantinha desperta. Eu sentia o laço. Connor. O meu menino estava morrendo. Eu sentia o coração dele falhar, um eco distante e oco que fazia o meu próprio peito arder em agonia. Levei as mãos trêmulas ao rosto e arranquei o cateter de oxigênio do nariz. A borracha cortou a minha pele, mas eu não sentia nada. Agarrei o acesso do soro no meu braço. O metal da agulha rasgou a veia quando eu puxei com toda a minha força. O sangue espirrou. Vermelho vivo. Quente. Pintando os lençóis brancos. — Júlia, para! O que você está fazendo?! — Rafael tentou segurar o meu braço, pressionando o sangramento. — Você não está nem a dez por cento da sua força! — Ele está indo embora... — eu gemi, as lágrimas queimando a minha pele. — Eu ouço o coraçãozinho dele, Rafael! Me solta! Dante me segurou pelos ombros, tentando me manter na cama. Ele era forte, um guerreiro, e eu era apenas um farrapo humano. Mas Juno não me acordou para eu ficar deitada. Uma onda de calor sobrenatural percorreu a minha espinha. A aura da Deusa brilhou por trás das minhas retinas, suprindo a força que a minha própria loba não conseguia me dar. Empurrei Dante. O impacto o jogou contra a parede de equipamentos, derrubando monitores. Rafael recuou, em choque. Eu cambaleei para fora da cama. Meus pés descalços tocaram o chão frio de granito, e o mundo inclinou violentamente. Minhas pernas tremiam. Eu sentia cada ligamento esticado ao limite, o útero contraído de dor, o cheiro de morte impregnado nas minhas roupas de hospital. Mas o cheiro do meu filho era mais forte. Atravessei a porta do quarto, deixando um rastro de gotas de sangue no chão. Eu via através das paredes. Eu via a luz da UTI brilhando como um farol de agonia. — Júlia, você não pode! Os médicos estão tentando! — Dante me alcançou no corredor, tentando me conter. Eu me virei para ele. Meus olhos brilharam com a chama prateada de Juno. — Saia... da... minha... frente. — cada palavra foi um decreto. Dante hesitou. O instinto dele reconheceu a divindade agindo através de mim. Foi o suficiente. Corri. Cada passo era uma facada. Cada respiração era como engolir brasas. Arrombei as portas da UTI. O cenário era o meu pesadelo. Havia pelo menos seis profissionais ao redor da maca. O monitor cardíaco exibia aquela linha reta e c***l. Pi-i-i-i-i-i-i-i... Connor estava pálido. Azulado. O peito pequeno estava aberto, gazes ensanguentadas por todos os lados. — AFASTEM-SE DELE! — meu grito silenciou o hospital inteiro. Os médicos pararam. Annelise, a enfermeira, me olhou com um desespero profundo. — Júlia... por favor... — ela começou. — Ele se foi, Júlia. Eu sinto muito. — ELE NÃO FOI A LUGAR NENHUM! — rosnei, avançando para a maca. Eu não era eu. Eu era a fúria da loba e a misericórdia da Deusa da Lua. Cheguei à beira da maca. Connor parecia uma boneca de porcelana quebrada. Tão pequeno. Tão frágil. — Connor... — sussurrei. A dor no meu peito era insuportável. Minha loba incompleta começou a rugir, uma vibração rouca que implorava por cura. TOQUE NELE! CURE O NOSSO SANGUE! Meus olhos focaram na ferida aberta. O sangue não parava de sair. Levei as minhas mãos, ainda sujas do meu próprio sangue, ao peito do meu filho. No momento em que a minha pele tocou a dele, o mundo desapareceu. — Selene... — roguei em pensamento. — Leve a minha vida. Me apague de vez, mas deixe ele ficar. Por favor. Uma luz branca, puríssima e violenta, explodiu das minhas palmas. Eu senti a energia sendo drenada da minha medula óssea. Era como se estivessem sugando a minha alma para preencher o vazio dele. As veias do meu braço saltaram. Eu sentia os meus órgãos falhando, o meu despertar incompleto sendo consumido para pagar o preço. Sob as minhas mãos, o impossível aconteceu. As fibras musculares de Connor começaram a se entrelaçar como fios de seda divina. A hemorragia estancou em um segundo. A luz atravessou o corpinho dele, iluminando cada vaso sanguíneo. O monitor deu um solavanco. Tum-tum. O som foi como um tiro no silêncio da sala. Tum-tum. Tum-tum. A ferida se fechou completamente, restando apenas uma cicatriz pálida. A cor voltou às bochechas dele. Connor deu uma lufada de ar, os pulmões se expandindo com força. Ele abriu os olhos. — Mamãe? — ele sussurrou, a voz frágil, mas viva. — Eu estou aqui... meu amor... — eu solucei. O choro veio de forma convulsiva. Eu o puxei para o meu colo, ignorando os fios. Apertei o corpo dele contra o meu, sentindo o calor voltando. Mas o preço chegou. O calor de Juno evaporou. O frio voltou, dez vezes mais forte. Minha loba se encolheu, exausta, voltando para o sono profundo que a marca de Dante não sustentava. Minha visão começou a se apagar. Meus braços ficaram pesados como chumbo. O último cheiro que senti foi o dele. O cheiro de vida. Meus joelhos cederam. As portas da UTI bateram contra a parede. O cheiro de sândalo e tempestade inundou o ar. Gabriel. Ele atravessou a sala em dois passos. O rosto estava manchado de sangue e lágrimas. Cassian estava grudado nas costas dele, os bracinhos apertando o pescoço do pai como um macaquinho assustado. Gabriel me amparou antes que meus joelhos tocassem o granito. O toque dele me queimou. Não era a dor da rejeição de antes; era um calor possessivo, desesperado. — Rafael, pegue o Cassian! — Gabriel ordenou, a voz rouca. Rafael puxou o meu pequeno guerreiro das costas do pai. — Vamos, campeão. Deixe o titio te examinar. Gabriel me tirou do chão em um movimento único, me carregando nos braços até o meu quarto. Ele me deitou com uma delicadeza que eu não sentia há anos, sentando-se logo em frente a mim, na borda do colchão. Ele prendeu as minhas mãos entre as dele. As palmas eram trêmulas, mas o aperto era possessivo. Eu o sentia perto, mas a escuridão me puxava para longe. Eu era um barco se soltando do cais. — Gabriel... — sussurrei. Meus olhos pesavam uma tonelada. — Eu sinto sua falta. Ele colou a testa na minha. O azul-elétrico dos olhos dele estava embaçado, uma tempestade de culpa. Ele me beijou. Foi um beijo de vida. Doce, quente, com o gosto metálico do destino. Pela primeira vez em sete anos, a minha loba não ganíu de dor. Ela ronronou. Ele me queria. Ele finalmente me queria de volta. — Eu estou bem aqui, minha vida... — ele sussurrou contra meus lábios. Respirei profundamente, lutando para manter as pálpebras abertas. — Não... eu sinto sua falta de antes. De quando você não foi naquela penitenciária e deixou ela te envenenar. Eu sinto falta do nosso primeiro amor. Senti os dedos de Gabriel se entrelaçarem nos meus, apertando com força, como se tentasse me costurar à alma dele. Ele deu uma leve tremida. O som dele engolindo o choro foi como um osso quebrando no meu ouvido. — Me perdoa, amor... eu não deveria ter ido lá — ele confessou, a voz quebrada. — Eu não quero outra marca... eu quero a sua. Um soluço baixo escapou dele. Senti as lágrimas quentes de Gabriel escorrerem sobre as minhas mãos. Eu queria abrir os olhos e me afogar naquele azul oceano, mas a escuridão era um abismo me puxando pelos pés. — Terei que ficar com ele agora e me afastar de você de novo — minha voz era um fio de agonia. — Vou sentir tudo o que ele sente, Gabriel. Não era para ser assim. — Eu sei, amor. Me perdoa. — Ele colou os lábios no meu ouvido, um segredo compartilhado entre a vida e a morte. — Você só precisa aguentar até a Lua Azul. Eu vou conseguir te marcar. Você vai aguentar só até lá, tá? Meu coração falhou uma batida. A Lua Azul. O evento lunar mais poderoso da nossa linhagem. O único momento em que uma marca pode ser sobreposta sem matar a fêmea. — Você vai me marcar na Lua Azul? — ecoei na escuridão. — Eu vou. Eu prometo. Até lá... você vai ter que ficar com o Dante. Só até a Lua Azul. E eu nunca mais vou te deixar. Eu prometo. Meu corpo pesou. O abismo me reivindicou. — Promete? — Sim, minha vida, Prometo. Fica tranquila. Você é minha. Vou lutar por você com todo o meu ser. Eu te amo mais do que tudo no mundo. Acho que sorri. Senti o rastro da escuridão me levar, mas a promessa dele era a minha âncora. — Até a Lua Azul... — sussurrei, antes de apagar. A porta do meu quarto se abriu. O cheiro de Dante inundou o quarto, reivindicando o que a marca dele mantinha vivo. Gabriel rosnou, o som vibrando no peito onde minha cabeça repousava, enquanto o rival dele parava diante de nós. O pacto de sangue estava selado. E a guerra pela minha alma estava apenas começando.
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