🚨 ALERTA DE GATILHO 🚨
Este capítulo contém cenas de agressão e abuso físico e emocional.
‼️ Se isso for sensível para você, leia com cuidado ou pule este trecho.
A culpa é do agressor, somente dele e nunca sua.
Se você vive ou já viveu algo assim, denuncie: 📞 180 (Central de Atendimento à Mulher)
Você merece estar segura. 💔✨
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POV DE JÚLIA MONTSERRAT
[CONTINUAÇÃO DO FLASHBACK — 8/9 ANOS ATRÁS]
Lutei. Usei minhas unhas, chutei, tentei cravar meus dentes na mão dele.
— Você não pode me prender aqui! Nós terminamos!
Arthur tinha 1,98m. Loiro, musculoso, o gigante gentil que todos amavam. Eu nunca tive medo dele. Até aquele segundo.
De repente, a mão dele soltou meu pulso e subiu para o meu pescoço.
O impacto me calou.
Ele apertou com tanta força que o oxigênio foi cortado instantaneamente. Meus pés saíram do chão por um milésimo de segundo.
Com a outra mão, ele me prensou. Então, me jogou na cama com uma violência que fez minhas costas estalarem contra o colchão.
Tudo rodou. O teto girava, as velas eram borrões de fogo. Eu estava sem ar, meus pulmões implorando por um buraco de agulha para respirar.
Ele subiu em cima de mim, o peso de quase cem quilos de músculo me esmagando.
Arthur pegou meu pulso de volta. Ele pegou a aliança no chão e a empurrou no meu dedo com tanta raiva que senti o metal cortar a base da minha pele.
Eu tossia, um som sufocado. A mão dele era grande demais, grossa demais. Ele quase me esganou em segundos. Se tivesse continuado, ele teria quebrado meu pescoço.
O mundo parou de rodar devagar.
Mas o Arthur não parou.
Quando ele soltou meu pescoço, o rosto dele estava distorcido por uma fúria cega. Uma negação doentia.
— É mentira! — ele gritou, a voz rasgando a garganta.
O primeiro golpe veio rápido. Um soco para me calar.
O impacto virou meu rosto contra o colchão. O gosto metálico inundou minha boca na mesma hora.
— Para de falar essas coisas! — ele berrou, as mãos grandes me atingindo de novo em meio ao caos.
Eu não conseguia me defender. Ele estava totalmente descontrolado. Um Alfa completo esmagando a mulher que dizia amar.
De repente, ele saiu de cima de mim.
Eu fiquei ali, encolhida na cama, o sangue escorrendo pelo meu queixo, enquanto ele se virava para o quarto.
Arthur pegou a garrafa de champanhe e a atirou contra a parede. O vidro estilhaçou, chovendo sobre o chão.
Ele pegou o vinho e quebrou. Chutou a cômoda.
Destruiu tudo o que eu tinha preparado para nós.
Ele estava em frenesi.
Eu olhei para a porta aberta. Era a minha única chance.
Reuni cada gota de adrenalina que o medo injetou no meu sangue e corri. Corri como se a minha vida dependesse de cada centímetro.
Mas ele foi mais rápido.
Antes que eu cruzasse a soleira, a porta de madeira maciça bateu bem na minha cara.
O impacto foi devastador. O som do meu nariz quebrando estalou dentro do meu crânio.
As estrelas explodiram na minha visão. Meu rosto, que já latejava pelos socos na cama, recebeu o golpe final.
Eu caí. O chão frio me recebeu enquanto a escuridão tentava me puxar.
Fiquei ali, caída, o sangue quente empapando o tapete, quase apagando.
O silêncio que se seguiu foi cortado por um som animalesco.
Arthur começou a tremer.
Ele olhou para as próprias mãos sujas do meu sangue.
O monstro recuou, dando lugar a um homem apavorado e covarde.
— Olha o que você fez comigo, p***a! — ele gritou, enfiando as mãos no próprio cabelo, puxando os fios com desespero.
Ele caiu de joelhos ao meu lado.
A negação tomava conta dele.
— Você não pode estar falando a verdade... não pode...
Ele pegou uma toalha desesperadamente. Tentou estancar o sangue que jorrava do meu nariz, da minha boca e do meu supercílio, meu olho já estava totalmente inchado.
Arthur me puxou para o colo dele. E começou a chorar.
Lágrimas grossas, soluços altos e histéricos de um homem que via a própria vida desmoronar.
— Meu Deus... você está toda machucada. O que foi que eu fiz? Minha Deusa! Pela Lua! — ele balançava meu corpo, o rosto vermelho, banhado em pranto.
Eu olhava para ele através da névoa de dor. O choque anestesiava meus ossos.
Mas o que me destruía não era a dor física.
Era a culpa.
Eu via o desespero dele e uma voz sombria sussurrava na minha cabeça: "Eu causei isso. Eu destruí tudo. Eu o provoquei. Eu o machuquei. Eu mereço."
— Eu acabei com a minha vida... — Arthur soluçava, esfregando o pano no meu rosto com as mãos trêmulas.
Ele olhou para a porta, os olhos arregalados de pânico.
— Eu preciso te levar para o hospital... mas eu vou ser preso lá, Minha Deusa! E agora? Você vai me deixar... a minha vida acabou!
Ele não chorava por mim. Chorava por ele. Mas eu estava tão quebrada por dentro que não percebi.
Eu sentia pena dele.
Engoli o sangue que descia pela minha garganta e forcei o ar a passar pela traqueia esmagada.
— Me leva... — sussurrei, a voz não passando de um fio arranhado. — Pra Clínica Leone...
Ele parou de chorar por um segundo. Olhou para mim, confuso.
— O quê?
— A Clínica Leone... — repeti, cada sílaba queimando como ácido.
Os olhos dele brilharam com o alívio egoísta da salvação.
— Sim... lá eles não vão fazer perguntas. Eles não vão saber o que aconteceu. Vou te vestir. Vamos, você vai ficar bem aguenta.
A dor dos curativos não foi nada comparada à dor que veio depois.
Quando fomos liberados e ficamos sozinhos no carro,
Arthur desabou de novo.
O rosto dele estava inchado de tanto chorar. Ele segurou minhas mãos com desespero, implorando.
— Me perdoa... eu sou um monstro. Por favor, me perdoa...
Eu olhei para o homem gigante, forte, encolhido no banco do motorista. Ergui a mão tremendo, com os nós dos dedos roxos, e toquei o rosto dele.
— Você não é um monstro... — sussurrei. — A culpa foi minha.
Ele soluçou, beijando a palma da minha mão machucada.
— Então você não vai me deixar?
— Não... — eu respondi, com dificuldade.
Meu rosto estava todo machucado. Mas a minha alma estava muito mais quebrada.
E eu continuei com ele.
Fiquei com ele até o dia em que o álcool me dominou, eu dormi com o Gabriel e engravidei.
A verdade sombria que eu nunca contei a ninguém era que eu me sentia tão culpada por amar o Gabriel, tão suja por ter deixado que ele me tocasse, que eu deixava o Arthur me punir para me sentir melhor.
Ele não me agredia constantemente. Mas ele ficou totalmente paranoico e ciumento.
"Acidentes" aconteciam quando ele explodia. Não como aquele, que quase desfigurou meu rosto. Foram menores.
Mas ainda machucavam. E eu ainda permanecia. E encobria tudo com maquiagem e culpa.
Eu fiquei, porque, até hoje... eu me sentia culpada por tudo.
[VOLTANDO AO PRESENTE]
O bipe rítmico do monitor cardíaco me puxou da escuridão.
Cheiro de antisséptico. Lençóis ásperos. A luz fria do amanhecer invadindo a janela do quarto do hospital.
Eu abri os olhos, mas o peso de oito anos continuava esmagando meu peito.
Minha mente girava, um turbilhão de escolhas impossíveis e dolorosas.
"Será que eu escolho o Dante e o machuco também?"
Eu não posso fazer isso de novo com outra pessoa. Não quando, no fundo da minha alma quebrada, eu sei que ainda amo o Gabriel.
"Ou será que eu escolho o Arthur?"
"Deixo ele entrar na minha vida de novo? Será que ele me machucaria outra vez?"
O choro preso queimava a minha garganta. Eu estava quebrada, pronta para me punir mais uma vez, pronta para tomar a pior decisão possível para proteger os outros de mim mesma.
Mas o clique metálico da porta do quarto sendo trancada por dentro me avisou que eu já não tinha mais escolha.
Meu coração falhou uma batida.
E então eu vi.
A lua cheia brilhando no céu, forte demais... como um aviso.
Um lembrete c***l.
Eu tinha dormido.
Dormido até o dia seguinte.
Até a noite.
Até a hora marcada.
E agora...
meu tempo tinha acabado.