Capítulo 53 - O preço da Culpa

1422 Words
🚨 ALERTA DE GATILHO 🚨 Este capítulo contém cenas de agressão e abuso físico e emocional. ‼️ Se isso for sensível para você, leia com cuidado ou pule este trecho. A culpa é do agressor, somente dele e nunca sua. Se você vive ou já viveu algo assim, denuncie: 📞 180 (Central de Atendimento à Mulher) Você merece estar segura. 💔✨ —————————————————————————— POV DE JÚLIA MONTSERRAT [CONTINUAÇÃO DO FLASHBACK — 8/9 ANOS ATRÁS] Lutei. Usei minhas unhas, chutei, tentei cravar meus dentes na mão dele. — Você não pode me prender aqui! Nós terminamos! Arthur tinha 1,98m. Loiro, musculoso, o gigante gentil que todos amavam. Eu nunca tive medo dele. Até aquele segundo. De repente, a mão dele soltou meu pulso e subiu para o meu pescoço. O impacto me calou. Ele apertou com tanta força que o oxigênio foi cortado instantaneamente. Meus pés saíram do chão por um milésimo de segundo. Com a outra mão, ele me prensou. Então, me jogou na cama com uma violência que fez minhas costas estalarem contra o colchão. Tudo rodou. O teto girava, as velas eram borrões de fogo. Eu estava sem ar, meus pulmões implorando por um buraco de agulha para respirar. Ele subiu em cima de mim, o peso de quase cem quilos de músculo me esmagando. Arthur pegou meu pulso de volta. Ele pegou a aliança no chão e a empurrou no meu dedo com tanta raiva que senti o metal cortar a base da minha pele. Eu tossia, um som sufocado. A mão dele era grande demais, grossa demais. Ele quase me esganou em segundos. Se tivesse continuado, ele teria quebrado meu pescoço. O mundo parou de rodar devagar. Mas o Arthur não parou. Quando ele soltou meu pescoço, o rosto dele estava distorcido por uma fúria cega. Uma negação doentia. — É mentira! — ele gritou, a voz rasgando a garganta. O primeiro golpe veio rápido. Um soco para me calar. O impacto virou meu rosto contra o colchão. O gosto metálico inundou minha boca na mesma hora. — Para de falar essas coisas! — ele berrou, as mãos grandes me atingindo de novo em meio ao caos. Eu não conseguia me defender. Ele estava totalmente descontrolado. Um Alfa completo esmagando a mulher que dizia amar. De repente, ele saiu de cima de mim. Eu fiquei ali, encolhida na cama, o sangue escorrendo pelo meu queixo, enquanto ele se virava para o quarto. Arthur pegou a garrafa de champanhe e a atirou contra a parede. O vidro estilhaçou, chovendo sobre o chão. Ele pegou o vinho e quebrou. Chutou a cômoda. Destruiu tudo o que eu tinha preparado para nós. Ele estava em frenesi. Eu olhei para a porta aberta. Era a minha única chance. Reuni cada gota de adrenalina que o medo injetou no meu sangue e corri. Corri como se a minha vida dependesse de cada centímetro. Mas ele foi mais rápido. Antes que eu cruzasse a soleira, a porta de madeira maciça bateu bem na minha cara. O impacto foi devastador. O som do meu nariz quebrando estalou dentro do meu crânio. As estrelas explodiram na minha visão. Meu rosto, que já latejava pelos socos na cama, recebeu o golpe final. Eu caí. O chão frio me recebeu enquanto a escuridão tentava me puxar. Fiquei ali, caída, o sangue quente empapando o tapete, quase apagando. O silêncio que se seguiu foi cortado por um som animalesco. Arthur começou a tremer. Ele olhou para as próprias mãos sujas do meu sangue. O monstro recuou, dando lugar a um homem apavorado e covarde. — Olha o que você fez comigo, p***a! — ele gritou, enfiando as mãos no próprio cabelo, puxando os fios com desespero. Ele caiu de joelhos ao meu lado. A negação tomava conta dele. — Você não pode estar falando a verdade... não pode... Ele pegou uma toalha desesperadamente. Tentou estancar o sangue que jorrava do meu nariz, da minha boca e do meu supercílio, meu olho já estava totalmente inchado. Arthur me puxou para o colo dele. E começou a chorar. Lágrimas grossas, soluços altos e histéricos de um homem que via a própria vida desmoronar. — Meu Deus... você está toda machucada. O que foi que eu fiz? Minha Deusa! Pela Lua! — ele balançava meu corpo, o rosto vermelho, banhado em pranto. Eu olhava para ele através da névoa de dor. O choque anestesiava meus ossos. Mas o que me destruía não era a dor física. Era a culpa. Eu via o desespero dele e uma voz sombria sussurrava na minha cabeça: "Eu causei isso. Eu destruí tudo. Eu o provoquei. Eu o machuquei. Eu mereço." — Eu acabei com a minha vida... — Arthur soluçava, esfregando o pano no meu rosto com as mãos trêmulas. Ele olhou para a porta, os olhos arregalados de pânico. — Eu preciso te levar para o hospital... mas eu vou ser preso lá, Minha Deusa! E agora? Você vai me deixar... a minha vida acabou! Ele não chorava por mim. Chorava por ele. Mas eu estava tão quebrada por dentro que não percebi. Eu sentia pena dele. Engoli o sangue que descia pela minha garganta e forcei o ar a passar pela traqueia esmagada. — Me leva... — sussurrei, a voz não passando de um fio arranhado. — Pra Clínica Leone... Ele parou de chorar por um segundo. Olhou para mim, confuso. — O quê? — A Clínica Leone... — repeti, cada sílaba queimando como ácido. Os olhos dele brilharam com o alívio egoísta da salvação. — Sim... lá eles não vão fazer perguntas. Eles não vão saber o que aconteceu. Vou te vestir. Vamos, você vai ficar bem aguenta. A dor dos curativos não foi nada comparada à dor que veio depois. Quando fomos liberados e ficamos sozinhos no carro, Arthur desabou de novo. O rosto dele estava inchado de tanto chorar. Ele segurou minhas mãos com desespero, implorando. — Me perdoa... eu sou um monstro. Por favor, me perdoa... Eu olhei para o homem gigante, forte, encolhido no banco do motorista. Ergui a mão tremendo, com os nós dos dedos roxos, e toquei o rosto dele. — Você não é um monstro... — sussurrei. — A culpa foi minha. Ele soluçou, beijando a palma da minha mão machucada. — Então você não vai me deixar? — Não... — eu respondi, com dificuldade. Meu rosto estava todo machucado. Mas a minha alma estava muito mais quebrada. E eu continuei com ele. Fiquei com ele até o dia em que o álcool me dominou, eu dormi com o Gabriel e engravidei. A verdade sombria que eu nunca contei a ninguém era que eu me sentia tão culpada por amar o Gabriel, tão suja por ter deixado que ele me tocasse, que eu deixava o Arthur me punir para me sentir melhor. Ele não me agredia constantemente. Mas ele ficou totalmente paranoico e ciumento. "Acidentes" aconteciam quando ele explodia. Não como aquele, que quase desfigurou meu rosto. Foram menores. Mas ainda machucavam. E eu ainda permanecia. E encobria tudo com maquiagem e culpa. Eu fiquei, porque, até hoje... eu me sentia culpada por tudo. [VOLTANDO AO PRESENTE] O bipe rítmico do monitor cardíaco me puxou da escuridão. Cheiro de antisséptico. Lençóis ásperos. A luz fria do amanhecer invadindo a janela do quarto do hospital. Eu abri os olhos, mas o peso de oito anos continuava esmagando meu peito. Minha mente girava, um turbilhão de escolhas impossíveis e dolorosas. "Será que eu escolho o Dante e o machuco também?" Eu não posso fazer isso de novo com outra pessoa. Não quando, no fundo da minha alma quebrada, eu sei que ainda amo o Gabriel. "Ou será que eu escolho o Arthur?" "Deixo ele entrar na minha vida de novo? Será que ele me machucaria outra vez?" O choro preso queimava a minha garganta. Eu estava quebrada, pronta para me punir mais uma vez, pronta para tomar a pior decisão possível para proteger os outros de mim mesma. Mas o clique metálico da porta do quarto sendo trancada por dentro me avisou que eu já não tinha mais escolha. Meu coração falhou uma batida. E então eu vi. A lua cheia brilhando no céu, forte demais... como um aviso. Um lembrete c***l. Eu tinha dormido. Dormido até o dia seguinte. Até a noite. Até a hora marcada. E agora... meu tempo tinha acabado.
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