(Dez anos antes)
Naquela noite a chuva batia tão forte contra as janelas de vidro da sala que era como se a violência estivesse prevendo o desastre. Arthur Vane, com apenas vinte e poucos anos, com o rosto ainda livre das linhas de expressão que o poder lhe trará, estava curvado sobre uma tela de código, mergulhado em números e previsões que não parecem boas. Seus olhos azuis, quase explodindo de sangue pelo cansaço, não piscavam.
Ele já estava exausto, mas se recusava a parar ainda. Vane nunca soube o que é desistir, e sua teimosia, levaria o resto de sua juventude.
A porta se abriu com um estrondo que fez Arthur apertar os olhos, sentindo o p.eito doer o barulho. Ele sabe exatamente o que vai acontecer aqui. Quando Marcus Thorne entrou, exalando o cheiro de charuto caro e o suor do desespero, Arthur soube que não teria chances.
Sim, enquanto Arthur trabalhava incansavelmente, Thorne passou a noite comemorando sua conquista que amanhã, se finalizaria, ou ao menos é o que ele está se vangloriando para seus parceiros e amigos.
— É amanhã, Arthur! Por que dia.bos você ainda está mexendo em Ícaro? — Thorne gritou, como se Arthur não soubesse e não tivesse justamente ganhando algumas rugas por isso. Apesar disso, o respeito e gratidão por seu mentor o impedia de contraria-lo. Marcus joga uma pasta de couro sobre a mesa, estressado. É lógico que colocar mais um peso em suma dele não é uma boa opção, mas Arthur não tem outra escolha.Thorne precisa saber. — Por que os servidores ainda estão em modo de segurança? Libere-os para funcionar e prepare o código, agora.
Arthur se levantou lentamente. Suas mãos tremiam, não de medo, mas de uma decepção profunda. Thorne não só um chefe, era seu mentor, era quem havia desde o início da faculdade te incentivado e até ensinado muito do que Arthur sabia – até se tornar tão desleixado e orgulhoso. Ele é a única coisa mais próxima de um pai que Arthur conheceu.
— Marcus... eu não posso tirar os servidores do modo segurança. Não posso colocar o projeto para funcionar nem liberar o código final. Eu sinto muito, mas encontrei um bug no Projeto Ícaro. Não um erro de qualquer. Uma falha estrutural na sua arquitetura de programação. Temos que cancelar. — Arthur avisou, ouvindo a razão, a honestidade, e não o seu coração que odiava estar indo de encontro a Marcus.
Thorne parou, o rosto ficando vermelho, bem perto de perder o controle. Ele estava longe de querer assumir qualquer falha, muito menos de cancelar um Projeto complexo, que ele precisou de anos para pensar e desenvolver. Droga, era como se fosse uma espécie de filho para ele.
— Falha? — Gargalhou, incrédulo. — Não há falha na minha arquitetura, Vane, é impossível quando eu passei malditos cinco anos nela! Você acha mesmo que viu algo que eu não vi, quando foi eu quem construiu você?
— Marcus, se lançarmos amanhã, o sistema de defesa terá uma porta dos fundos aberta para qualquer invasor. Pense um pouco, como eu disse, não estou falhando de uma falha qualquer. O bug de Ícaro dá a******a a qualquer hacker amador conseguir invadir o servidor que ele estiver ligado. E não estamos falando de um servidor de uma empresa automobilística, é simplesmente o Pentágono. — Arthur explicou, a voz rouca, entristecido, preocupado. Eles não haviam criado um projeto que ajudaria na segurança, e sim, uma arma. — Se pessoas m*l intencionadas e Deus sabe quantas dela existem por aí, descobrirem, cidades inteiras podem ficar no escuro. Segredos expostos. Pessoas vão morrer, Marcus. Precisamos ao menos adiar. Precisamos confessar a falha ao governo, ganhar mais tempo, consertar. Deixe-me pelo menos mostrar a você e verá que eu tenho razão.
Thorne caminhou até ele e o agarrou pelo colarinho da camisa. Arthur sempre foi alto, robusto, então precisou permitir e não se defender para que Marcus conseguisse mantê-lo parado. Os dois se encaram, a decepção começando a se tornar tão grande que Arthur sente como algo o corroendo por dentro.
— Adiar? Se eu adiar, eu perco a empresa, por.ra! Eu estou devendo milhões, Arthur, milhões! Ícaro levou todas as minhas economias. Mas você não sabe o que significa isso, não é, perder milhões? Não sabe nem o que é tanto dinheiro assim. Se o contrato não for assinado amanhã, eu estou acabado. Então pare de tentar procurar falhas que não existem, porque eu já revisei isso e conheço o Projeto Ícaro como a palma da minha mão. — Não. Arthur sabe que há algo ali, e que Marcus não pode ter visto. — Envie a dro.ga do código. Essa história se encerra aqui. Amanhã você vai sorrir e falar como eu nunca cometeria qualquer falha estrutural. Falará como eu criei uma revolução, a proteção perfeita para nosso país.
— Então você prefere lançar uma arma com defeito, pelo seu ego? — Arthur perguntou, confuso. Thorne está fechando os olhos, e Arthur teme que a cegueira seja proposital, mas ele também não quer acreditar nisso. Não era esse homem que ele achava conhecer.
— Eu prefiro que você faça o seu trabalho e se há mesmo alguma pequena brecha, esconda o erro! — Thorne rugiu. — Limpe o código superficialmente. Ninguém vai notar por meses. Até lá, teremos o dinheiro e o tempo para consertar.
Arthur olhou para o homem à sua frente. Se Thorne seguisse com aquilo, ele não apenas faliria, ele seria preso. O nome Thorne seria seria aniquilado, com certeza, uma mancha não só no mundo corporativo por um erro desses, mas por se tornar um traidor do seu pais – e levaria Arthur com ele.
— Eu não posso fazer isso — Arthur sussurrou.
— Então você está fora! — Thorne o empurrou contra a bancada. — Saia daqui. Se você não fizer, outra pessoa fará. Ou acha que eu preciso de você? Qualquer um pode apertar o botão de lançamento que você tem medo de apertar, até o i****a do Miller. Você é um covarde, Vane. Eu te tirei da lama, garoto, mas está claro que foi um erro. Você não tem estômago para o topo, nunca terá.
Arthur ficou parado, sentindo sombras o abraçando tão forte que ele nunca havia sentido. Thorne saía enfurecido, perdendo não só o garoto prodígio, um gênio, mas também o seu maior admirador. Vane sabia o que precisava fazer.
Se deixasse Thorne lançar o sistema, o nome dele seria destruído para sempre, e não importa o qual rachada está a relação dos dois, para Arthur, sua dúvida era grande demais para deixar que Marcus fosse lançado tão fundo.
Com os dedos ágeis, Arthur sentou-se novamente ao computador. Naquela noite, ele não escondeu a falha, desobedecendo as ordens. Em vez disso, ele injetou um vírus de “autodestruição” de dados que faria o sistema colapsar durante a demonstração oficial.
Para o mundo, pareceria que Arthur Vane, o jovem onde olhares curiosos se concentravam esperançosos, tinham cometido um erro amador catastrófico, destruindo a apresentação e a empresa. Mas Marcus, sabia bem que Arthur nunca faria isso, ele nunca erraria assim.
Aquilo não foi um erro.
O que Marcus encarou como traição, foi o último ato de lealdade de Arthur.
O projeto de cinco anos, o Projeto Ícaro, morreu naquela sala, naquela noite, e levou com ele o antigo Arthur Vane.