— Prazer em conhecê-la, Kimberly — falei cumprimentando-a — me chamo Cornelius.
— Nome curioso — falou, rindo de leve, tentando não parecer escrota.
A minha vida toda eu sempre fui zoado por causa do nome que a minha mãe escolheu para mim, pois era um nome que remetia a algo pejorativo. Sempre me caçoaram, mas com o tempo eu aprendi a ignorar, ou a pelo menos fingir que não me importava com aquilo, e deu certo por um tempo. De certa forma foi bom, mas eu poderia ter aprendido essas técnicas antes de ter apanhado tanto nas ruas e na escola, pois eu sempre costumei falar tudo que me vinha à mente e isso sempre me prejudicou.
— Sempre me dizem isso — falei — mas já me acostumei de ser chamado de corno sem nem ter mulher.
Kimberly era não só bonita, mas bem simpática também, não era daquele tipo de mulher falsa e fútil como eram a maioria no mundo. Depois de algumas outras doses de Whisky, pagos por ela, que fazia questão, acabamos nos conhecendo melhor. Ela me contou sobre a sua vida e eu contei um pouco sobre a minha, com exceção da parte da Máfia, pois eu não confiava tanto assim nela.
— Meu tio sempre me treinou para que quando atingisse maioridade pudesse trabalhar para ele — falei para ela — mas ele quer deixar alguém no meu encalço pois acha que ainda preciso de supervisão.
— Ele não confia em você? — perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Ele disse com todas as letras que “não” — falei dando outro gole no Whisky, o líquido descia queimando pela garganta, mas nem liguei àquela altura do campeonato.
— Bom, é só passar no teste que ele fará com você que logo ficará sozinho para fazer suas atividades — ela deu de ombros, como se fosse óbvio.
Acabamos nos tornando muito amigos depois de algum tempo, nos vendo quase sempre para reclamar das nossas vidas, e tentar achar soluções para cada problema, mas nunca conseguindo. Ela dizia que sua família era muito importante na Itália, era a família Médici, e que era r**m fazer parte de uma família assim, pois esperavam muito dela, mas que ela não ligava, só queria ser normal sem se preocupar com essas coisas de famílias importantes.
— Aqueles idiotas, vulgo meus pais — ela dizia — esperam que eu case com alguém rico para agregar na família, mesmo que não tenha status, pelo menos teria dinheiro — ela sempre revirava os olhos ao dizer isso.
— Ache um velho e rico e finja a sua morte — eu falava, dando de ombros — assim você fica com o dinheiro e sem o velho.
Ela estava atrás de um homem rico e ele não era eu, então seríamos apenas amigos. Ou pelo menos assim eu pensava, pois não demorou muito para que ela começasse a ficar diferente comigo.
— Sabe, Cornelius — ela dizia deitada no meu colo enquanto estávamos em um piquenique no parque — você é um dos poucos homens que ainda valem a pena.
— Os outros não são do seu interesse?
— Eles só pensam em sexo e em quantidade — ela disse como se estivesse lembrando do gosto r**m de algo — para eles, nós mulheres apenas servimos de troféu.
— Você diz como se eu não fosse homem.
— É que você é diferente, querido — ela disse me olhando nos olhos — é gentil, paciente, um cavalheiro completo.
Kimberly então se levantou e me olhou nos olhos profundamente, como se tivesse um desejo profundo querendo sair, mas que não estivesse certa se queria deixar. Ela então passa os seus dedos suavemente pela minha barba por fazer áspera, brincando com os pelinhos para em seguida encostar os seus lábios contra os meus. Eu cedi, deixando que nossas línguas dançassem em conjunto, sempre prevendo o próximo passo uma da outra, entrosando os hálitos refrescantes e quentes. Ela tinha um gosto muito bom, como de canela com café, algo sério porém perigoso.
— Vamos para o meu apartamento — ela sussurrou ao meu ouvido, de modo sensual.
Eu queria ficar com ela, não é que não gostasse de Kimberly, mas não desse jeito. Era muito rápido, recém havíamos nos beijado e ela já queria ir para a cama, mas eu achava que era melhor ir com calma, com vários beijos antes de uma cama, para que não acabemos nos arrependendo depois. Um passo de cada vez.
— Melhor irmos com calma — falei lhe afastando um pouco.
— Tudo bem, eu entendo — ela disse, mas eu sabia que havia lhe magoado.
Romeu então me ligou, me tirando daquele sufoco de clima tenso pós-rejeição. Na verdade eu não estava rejeitando ela, mas eu só não queria já partir de primeiro beijo para o sexo, pois preferia algo mais devagar para poder apreciar se era algo que valia a pena. Mas creio que na cabeça dela, não era esse tipo de pensamento que se passava. Atendi ao telefone.
— Sr. Evans? — Romeu perguntou, ouvi ele fumando do outro lado da linha, soprando a fumaça.
— Sim — falei, sério.
— Está na hora — aquelas palavras me fizeram gelar — espero você no endereço que lhe passei por mensagem — ele disse firme, porém descontraído ao mesmo tempo.
Ao dizer isso, ele desligou e eu guardei o celular. Kimberly me olhou como se eu tivesse tomado um tiro, estava parecendo preocupada.
— Está tudo bem? — ela perguntou, me olhando.
Eu não sabia como deveria responder àquela pergunta, pois sinceramente não tinha certeza se estava bem. p***a, eu tinha 19 anos e precisava passar pelo meu primeiro serviço da Máfia. Era algum tipo de ritual de iniciação para ver se era digno de fazer parte da organização e, principalmente, se estava pronto para fazer os serviços sozinho.
O que eu mais queria era passar nesse teste, nessa iniciação para não precisar mais de supervisão, pois meu tio precisava confiar em mim. E eu queria provar para ele que após todos os seus ensinamentos, eu podia ser alguém de valor e confiança dentro da Máfia, então eu faria o que fosse preciso para isso.
— Meu tio disse para falar com você, sobre algumas instruções que me daria — lembro de falar com Romeu sobre o que Victor havia me dito ao telefone.
— Ele que não o escute chamando ele desta forma — Romeu disse tragando o cigarro — mas sim, você está pronto em questão dos treinamentos, mas agora precisa se mostrar pronto para a Máfia.
Estávamos no meu apartamento, bebendo um copo de Whisky cada e Romeu fumava um cigarro, quer dizer, aquele era o terceiro dele em questão de vinte minutos. Ele usava o seu terno vermelho de sempre, sem gravata e eu usava uma camisa social cor de creme, uma calça social e um suspensório pretos.
— Por ter concluído os treinamentos, não estou pronto o suficiente? — perguntei.
— Aqui não é o parquinho, Sr. Evans — ele disse bebendo um gole do Whisky — você só é digno de entrar oficialmente para a Máfia após passar pela iniciação.
Eu suspirei, decepcionado por não conseguir burlar as regras.
— E o que eu preciso fazer nessa iniciação? — perguntei, comendo um biscoito da vasilha na mesa de centro.
— Não posso lhe dizer agora — ele soltou a fumaça devagar antes de continuar: — só saberá do que se trata quando chegar a hora de executar.
— Que bosta, ein — bufei.
— Olha a língua — ele advertiu — já falei para ser cordial e não coloquial.
— Estamos só nós dois aqui, Romeu.
— Não pode perder o hábito, para não dar com a língua nos dentes.
Romeu era bem chato em questão do modo que se falava com as pessoas, além de ele me ensinar a parte prática do treinamento, ele mesmo achou que seria importante me obrigar a aprender a falar igual um almofadinha. Eu não via problema em falar cordialmente, mas o tempo todo era chato e, infelizmente, ele tinha razão: se eu deixasse de falar com uma pessoa cordialmente, iria voltar a falar gírias com as pessoas que não deveria.
— Tanto faz — revirei os olhos com desgosto, terminando de beber o meu Whisky.
Romeu foi em direção a porta, anunciando que precisava ir, pois estava tarde. Me levantei para acompanhá-lo a porta e antes de ir, ele se virou para mim, lembrando de algo, e me olhou sério.
— Eu lhe aviso quando for o momento, esteja pronto — Romeu disse firme — Ah e não se esqueça de levar a sua arma para o local que combinamos, você vai precisar.