O quarto era fresco e confortável. A luz se filtrava através de cristais brilhantes como joias em tons lápis-lazúli, vermelho e esmeralda. A Lucy pareceu que se encontrava em uma gruta no fundo do mar, em uma cama muito confortável.
Voltou a dormir e, quando despertou de novo, a luz era mais brilhante e as cores ainda estavam ali. Embora logo que podia abrir os olhos, distinguiu as lentejoulas de faiscantes cores sobre o lençol branco.
Embora formoso, era estranho, e Lucy tentou sentar-se na cama para olhar a seu redor. Mas um golpe de dor em todo o corpo, embora mais intenso em uma mão e no ombro, deixou-a imobilizada. E foi então quando ouviu a voz que já lhe era familiar.
— Não se mova, Lucy Forrester. Aqui está a salvo.
A salvo? O que tinha ocorrido? Onde estava?
Lucy se esforçou por levantar a cabeça e olhar a alta figura inclinada sobre ela, mas um olho se negou a abrir de todo e o colarinho que levava em torno do pescoço lhe impediu de fazer o menor movimento. Entretanto, embora não podia vê-lo completamente, recordou ao homem com a faca na mão que lhe ordenava que não se movesse. Então sentiu a boca seca, como se tivesse tragado areia.
— Lembra-se do acidente?
— Lembro de você.
— Muito bem.
A pesar do keffiyeh que lhe cobria a metade do rosto, Lucy soube que esse rosto de ferozes olhos escuros, maçãs do rosto altas e nariz aquilino era o do homem que aparecia tão vividamente em seus sonhos. Também observou que levava os abundantes cabelos escuros atados na nuca e que só sua voz era suave. Seu instinto de mulher vulnerável lhe advertiu que o homem que se encarregou de limpá-la quando jazia suja e ensanguentada no leito do hospital podia ser bastante perigoso.
— Você é Hanif Al-Khatib. Salvou-me a vida e me tirou do hospital.
— Isso mesmo, vejo que começa a recordar. Sente-se melhor?
— A verdade é que não me sinto bem. Onde estou? — Perguntou com a voz enrouquecida por causa da secura na garganta.
Hanif encheu um copo de água e, pondo um braço nas costas da jovem, ajudou-a a levantar-se lentamente; logo aproximou o copo aos lábios inchados. Lucy bebeu um pequeno gole, mas o resto se derramou pelo queixo e caiu dentro do colarinho.
Hanif secou seu rosto e o pescoço com uma pequena toalha.
— É necessário o colarinho? — Perguntou nervosa ao tempo que se tocava a garganta.
— Por experiência posso lhe dizer que não, não ajuda muito, mas o médico recomendou que ficasse com ele até que estivesse totalmente acordada.
— Experiência? É que também se acidentou com seu carro?
— Não, mas alguns cavalos me atiraram ao chão enquanto jogava pólio.
— Onde estou? Quem é você?
— Quando vivia na Inglaterra meus amigos me chamavam Hanif.
— E seus inimigos? — Disparou com uma aspereza produzida pela ansiedade. E se arrependeu imediatamente.
— Hanif bin Jamal bin Khatib Al-Khatib — respondeu em tom inexpressivo —. E se meus inimigos forem prudentes, nunca o esquecerão.
Steve lhe tinha explicado aquilo da longa cadeia de nomes.
— Bin significa «filho de»? — Perguntou, e Hanif assentiu —. Assim que você é filho de Jamal, que a sua vez é filho de Khatib…
— Da casa de Khatib.
— E esta é sua casa? — Perguntou. Consciente da deliciosa decoração da estadia.
— Você é minha convidada, senhorita Forrester. Estará mais confortável aqui que no hospital. A menos que tenha amigos em Ramal Hamrah e prefira estar com eles. Posso me comunicar com alguém? Tentamos fazê-lo com sua casa da Inglaterra.
— Chamaram?
— Sim, mas infelizmente ninguém atendeu ao telefone. Pode ligar você mesma, se assim o desejar — sugeriu ao tempo que indicava o aparelho posto na mesinha de noite.
— Não — se apressou a responder em um tom muito abrupto —. Ali não há ninguém. Não há ninguém em nenhuma parte. Agora vivo sozinha. Sinto muito lhe causar tantos problemas — disse antes de examinar as contusões dos braços e os pequenos cortes.
— Não se alarme, em uma ou duas semanas a mais tudo isso terá desaparecido. Gostaria de comer algo?
— Não quero lhe causar mais problemas. Vou me vestir e se a gentileza de chamar um táxi…
— Um táxi? — Perguntou com o cenho franzido.
— Sim, para ir ao aeroporto.
— Não o aconselho. Deveria repousar mais alguns dias.
— Não posso ficar aqui.
— Advirto-lhe que demorarão um tempo em lhe entregar um passaporte novo e trocar sua passagem. Lamento lhe dizer que quase todos seus pertences ficaram destruídos junto com o veículo. Por favor, peço-lhe que o deixe nas mãos de meu ajudante. Ele se encarregará de tudo. Quando seus documentos estiverem preparados, você já se recuperou dos ferimentos, Insha’Allah.
— A que devo tanta amabilidade?
Hanif a olhou surpreso.
— É estrangeira. Precisa de ajuda e eu fui o eleito para providenciar essa ajuda.
— Eleito? Você me resgatou de um veículo a ponto de explodir. Para muitas pessoas isso teria sido o suficiente — replicou e imediatamente se deu conta de que podia parecer ingrata —. Sei que lhe devo a vida.
Suas palavras provocaram outra inclinação de cabeça.
— Está em boas mãos.
— Não estou em mãos de ninguém — rebateu imediatamente.
Possivelmente lhe devia a vida, mas tinha aprendido com muita dor a não confiar em ninguém. Nem sequer nos que tivesse tido direito a confiar. Quanto ao conceito religioso…
— Todos estamos nas mãos de Deus — replicou Hanif, sem se mostrar ofendido.
— Sinto muito. Você é muito amável e minhas palavras podem lhe haver parecido ingratas.
— Ninguém está em seu melhor momento quando sofreu uma experiência como a sua — repôs com gravidade —. Precisa comer algo para recuperar as forças. Aconselho que não tente se mover até uns dias a mais — acrescentou ao ver que se esforçava por negar com a cabeça —. O que posso lhe oferecer?
O que Lucy desejava era mais água, mas não queria voltar a derramá-la como uma i****a.
Como se lhe tivesse lido o pensamento, Hanif se sentou na beirada da cama, ofereceu-lhe o braço para que se elevasse e com a outra mão lhe aproximou o copo aos lábios.
— Posso levantar sozinha — disse Lucy enquanto se levantava apoiada em um cotovelo, mas a pontada de dor foi tão intensa que desabou.
O ombro e o peito do Hanif a impediram de cair sobre os travesseiros e sustentou com o braço todo o peso de seu corpo.
—Tudo a seu tempo — lhe rogou enquanto lhe aproximava o copo aos lábios.
Ela se concentrou no copo, evitando seu olhar. Não estava acostumada a essa proximidade física, muito íntima.
— É o suficiente? — Perguntou ao ver que o copo ficava vazio.
Ela elevou a vista e seus olhares se encontraram. Lucy experimentou a incômoda sensação de que os olhos de Hanif bin Jamal bin Khatib Al-Khatib podiam ler até o mais profundo de sua alma. Hanif voltou a acomodá-la nos travesseiros e o ligeiro peso da jovem lhe fez recordar a fragilidade de outra mulher cujos olhos escuros lhe imploravam que a deixasse partir. Eram lembranças que ele tinha tentado inutilmente sepultar em sua memória.
Sob o aroma de hospital e a pó do deserto, do corpo da jovem se desprendia um suave e quente aroma feminino.
«Esta mulher é diferente», pensou Hanif com certo assombro.
E era certo. Noor tinha os olhos escuros, uma pele dourada e era suave e doce como o mel. Lucy Forrester não se parecia em nada com ela. Sua esposa tinha sido forte, estável, uma rocha em um mundo que se desintegrava. Em troca a estrangeira se mostrava nervosa, inquieta, preocupada e sempre à defensiva, e ele intuía que necessitava dele como Noor nunca o tinha feito.
— Tenho certeza de que gostaria de tomar chá, e talvez alguma comida ligeira.
— Na realidade neste momento a única coisa que preciso é tomar banho e lavar o cabelo.
— Parece-me muito excessivo agora. Talvez se trouxer uma bacia com água….
— Não estou inválida. Só tenho uns machucados. Você verá, sei que tenta me ajudar, me mostre onde está o banheiro que poderei arrumar isso sozinha.
— Aqui não há mulheres que possam ajudá-la. Se acreditar que pode fazê-lo sozinha… — comentou ligeiramente irritado diante a obstinação da jovem.
— É obvio que posso. Estou segura de que não permitiria que um homem estranho se encarregasse de lavar a sua mulher. Talvez nem sequer um enfermeiro.
— Sim, eu teria permitido que inclusive um marciano se ocupasse de cuidar de minha mulher se isso a tivesse ajudado em algo.
Lucy se perguntou por que ele falava no passado.
— Olhe, agradeço a sua ajuda, mas acredite que me sentirei bem assim que levante da cama — declarou, mas ao notar a dúvida no rosto do homem, acrescentou —: Falo sério. Além disso, não só preciso me lavar, você compreende.
— É uma mulher muito decidida, Lucy Forrester. Se cair e se machucar mais pode ser tenha que voltar para hospital outra vez.
— Se isso acontecer, dou-lhe permissão para me dizer que me advertiu sobre isso.
— Muito bem. Espere um pouco — disse antes de sair do quarto.
Lucy jogou o lençol para trás e teve que admitir que talvez se precipitou.
Uma ironia. Toda sua vida mordeu a língua para manter a paz e evitar problemas, mas assim que se havia visto livre fez o que sua avó lhe advertia constantemente: tornou-se como sua mãe. Impulsiva, impetuosa, sempre envolta em dificuldades.
Sim, sempre em dificuldades.
Se Hanif e todos seus sobrenomes não tivessem estado perto, teria se queimado dentro desse veículo.
O dinheiro.
Sempre tinha estado na ruína; mas quando o teve não soube o que fazer com ele. Durante umas semanas Steve tinha feito acreditar que era uma mulher amada e desejada. Tinha sido uma fraude, um embusteiro, um estelionatário, mas lhe tinha ensinado o valor do dinheiro. Tudo foi bem até que conseguiu mover as pernas até a beirada da cama e logo tentou ficar de pé. E foi então quando descobriu o que era uma dor insuportável. Mas não gritou quando se viu no chão.
Minutos depois, de volta ao quarto, Hanif deixou cair o que trazia nas mãos, correu para ela e a elevou murmurando suaves palavras que Lucy não compreendeu.
— Não pôde ter esperado uns minutos, Lucy?
— Acreditei que podia me dirigir sozinha ao banheiro. O que está acontecendo? —Perguntou com a cabeça apoiada no ombro de Hanif.
— Uma entorse no tornozelo. Isso é tudo.
— Tudo?
— Sei que é muito doloroso — disse em tom compassivo.
Quando tentava levantá-la, Lucy sofreu um acesso de vômitos, embora não tinha nada no estômago para colocar para fora salva água. Quando o estômago se acalmou, Lucy transpirava tremendo de debilidade. Sem deixar de sustentá-la, Hanif lhe ofereceu água e logo brandamente lhe enxugou a frente e lhe limpou a boca.
— Fez muito bem — murmurou ela quando pôde falar —. Tem certeza de que não é enfermeiro?
— Tenho certeza, embora tivesse que cuidar de minha esposa quando estava morrendo — disse inexpressivamente.
Mas Lucy não se enganou. Ela também tinha aprendido a ocultar seus sentimentos durante anos até que Steve apareceu em sua vida.
— Sinto muito… Hanif.
— Não me surpreende que tenha sofrido náuseas. Nestes casos é normal — comentou com frieza —. No hospital não disseram o que tinha?
— Tentaram explicar isso, mas entendi muito pouco.
— Fizeram-lhe uns exames para descartar uma lesão cerebral. Felizmente não havia nada. O mais sério é o do tornozelo.
— Sério? Não haverá mais surpresas desagradáveis? Alguma costela quebrada?
— Só contundida, pequenos cortes e lacerações que sararão muito em breve. Mas terá que apoiar-se em umas muletas ao menos umas duas semanas. Tive que deixá-la só para ir buscá-las.
— Não sabia.
— É obvio que não. Devia ter dito. O que acontece é que estou acostumado que me obedeçam sem fazer perguntas — disse com um sorriso.
— Verdade? Odeio lhe dizer isto, Hanif, mas as mulheres ocidentais já não estão a acostumadas a obedecer.
— Não? Queria tomar banho, verdade?
— Por favor.
— Então tem que fazer o que ordeno.
— O que? — Exclamou entre risadas —. Sim, senhor!
— Apoie-se em mim.
Lucy se apoiou em seus ombros e ele a deixou sentada na beirada da cama. Suas mãos eram fortes, feitas para a segurança de uma mulher. Então ela pensou que Hanif era tudo o que Steve não era. Uma rocha. Em troca o homem com o que se casou tão precipitadamente era como as areias movediças.
Hanif lhe entregou as muletas e Lucy ficou de pé.
— Não vou cair. Posso fazê-lo sozinha — protestou tremendo pelo esforço de sentir suas mãos nas costas.
Mas ele não se moveu. e******o. Essa mulher não significava nada para ele. Era um homem insensível. Entretanto, desde que tinha descoberto o veículo derrubado no deserto, seu mundo se converteu em uma corrente de emoções. Irritação, ira, preocupação. E se negava a reconhecer algo mais profundo.
— Faremos à minha maneira ou não se fará — replicou em tom cortante.
Sem dizer uma palavra, Lucy deu um passo adiante encostada ao corpo de Hanif; suas coxas roçavam o tecido escuro e suave da roupagem daquele homem.
— Acreditei que isto ia ser mais fácil — comentou com a frente apoiada no rosto dele.
— Porque não está acostumada às muletas — respondeu ao mesmo tempo em que lhe colocava uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Obrigado — disse Lucy —. Normalmente o tenho recolhido na nuca. Quando chegar a casa o cortarei.
— Por quê? — Perguntou horrorizado —. Seus cabelos são muito bonitos.
— Meu cabelo é um estorvo. Quis cortá-lo antes de…
— Antes de?
Lucy se encolheu de ombros.
— Antes de vir a Ramal Hamrah. Bom, agora já posso sozinha.
Contra sua vontade, Haniz deu um passo atrás, embora sem soltá-la de todo.
Passo a passo cruzaram o quarto até que chegaram ao banheiro.
— Aqui está a banheira, já pode deixar as muletas. Eu a sustento, não cairá.
Lucy sentiu todo o corpo em agonia. Seus dedos estavam tão agarrados às muletas que era incapaz do soltar.
— Não posso.
Hanif murmurou algo com impaciência, rodeou-lhe a cintura, encostou-a em seu corpo e lhe tirou as muletas das mãos.
— Já tem feito bastante por hoje.
— Não sairei daqui sem haver tomado banho.
— Você é uma mulher muito tenaz — comentou sorrindo a seu pesar.
— Nunca me acusaram que ter deixado algo sem terminar. Olhe, a banheira tem um assento. Se abrir as torneiras e me passar as muletas, poderei me dirigir sozinha.
Depois de comprovar a temperatura da água e certificar-se de que tinha tudo ao alcance da mão, Hanif saiu do banheiro.
— Se precisar gritarei. De acordo?
— De acordo.
Com a perna entalada fora da água, Lucy conseguiu tomar banho com grande esforço e força de vontade, mas teve que renunciar a lavar o cabelo porque era mais do que podia fazer. Quando ao fim colocou o penhoar que Hanif lhe tinha deixado, estava ao limite de suas forças.
— Hanif?
Hanif abriu a porta em um segundo.
— Obrigado, não podia abri-la com as mãos ocupadas — disse desfalecida.
— É incorrigível, Lucy Forrester. Agora tomará uma xícara de chá, comerá algo e logo poderá descansar.
Hanif saiu para passear pelos atalhos do jardim ao redor do pavilhão onde repousava Lucy Forrester.
Estava rodeado por altos e grossos muros que o protegiam da invasão da areia do deserto e dos animais selvagens. Um manancial natural regava a terra das hortas e do jardim, que tinha sido desenhado fazia séculos como um reflexo terrestre do paraíso.
Hanif estava acostumado a passear entre as sebes de flores com a esperança de encontrar certa paz para seu espírito. Uma paz que procurava fazia três anos, sem êxito. Entretanto, esse dia o sentimento de culpa por seu egoísmo não era a causa de sua perturbação.
Quando se encontrava contemplando a água cristalina de um lago, Zahir se aproximou muito agitado.
— Senhor! O escritório do emir anunciou uma visita.
Durante meses ninguém se aproximou dali, assim não era uma coincidência. Algo tinha que ver com Lucy Forrester.
— Quem vem?
— A princesa Ameerah, senhor.
— Ao que parece acreditam que devo ter uma dama de companhia para não estar a sós com a estrangeira. Faltou tempo para informar a meu pai do ocorrido, verdade, Zahir?
— Senhor, eu não… — protestou imediatamente, logo acrescentou —: Para falar a verdade, seu pai está preocupado com você. Compreende sua dor, mas precisa de você, Hanif.
— Tem outros dois filhos. Pode passar sem mim.
— Poderia jurar que não lhe reconheceram no hospital, mas o fato de que seu pessoal tenha tirado dali à senhorita Forrester provocou muitos comentários. Estava claro que as notícias não demorariam em chegar aos ouvidos de seu pai.
Hanif concluiu que o emir pensava que se podia levar a sua casa a uma desconhecida e cuidar dela, bem podia lhe dedicar um tempo a sua própria filha. — Se encarregue de que tenham tudo preparado para receber à princesa — disse antes de se afastar.
— Já o fiz, senhor — respondeu Zahir elevando a voz para fazer-se ouvir sobre o ruído do helicóptero que se aproximava—. Irá recebê-la?
— Agora não. A viagem a terá fatigado. Talvez amanhã.
«Talvez amanhã», frase que se repetia desde fazia três anos. Portanto, um dia mais não teria muita importância.