A SAIDA DA LÁ CASA DOMUS.

1086 Words
R E N E S M Y Cinco anos. Cinco anos presos dentro daqueles muros, respirando o mesmo ar viciado, ouvindo as mesmas ordens, dormindo com medo do sino da madrugada. Cinco anos fingindo uma lavagem cerebral que não funcionou comigo, porque tudo que eu senti foi mais raiva dentro de mim por ter que viver aquilo. Mas finalmente acabou. Eu ia voltar pra casa. Ia ver meu pai. Ia ver o céu sem grades. Ia pisar fora daqueles portões como gente de novo, não como coisa em adestramento. Meu peito estava tão apertado que doía, mas era um aperto diferente. Não era medo. Era expectativa demais guardada por tanto tempo. A La Domus Obedientia nunca devolve ninguém inteira. Ela só devolve o que sobreviveu. Arrumei minhas poucas coisas devagar. Tudo ali era contado. Dobrado do jeito certo. Sem marcas. Sem identidade. Até a roupa que eu usaria pra sair não era minha. Já estava separada. Escolhida pelo meu pai. Como tudo naquela vida. Enquanto eu fechava a mala, senti o olhar dela na porta. Martina Mancini. — Vamos ver se você serve pra ser alguma coisa agora. Se alguém vai escolher a bastardinha, filha da desonra. Eu nem virei e ela saiu rindo. Cinco anos ouvindo aquela voz. Cinco anos tentando me diminuir, me provocar, me arrancar reação. Usando o amor dos meus pais, a morte da minha mãe. Ela nunca saberia o quanto aquilo me machucava, nunca daria aquele poder a ela. Passei noites trancada na masmorra por causa dela, porque bati nela, ela merecia! Merecia umas belas porradas pra deixar de ser nojenta. Ela queria me ver quebrar. Mas nunca conseguiu, não por completo. Passei noites demais pagando por não abaixar a cabeça rápido o suficiente. Masmorras frias. Caixotes onde eu m*l conseguia esticar as pernas. Escuro. Silêncio. Tempo perdido contando respiração. Tudo pra me moldar a vontade de todos, Tudo pra apagar. Não apagaram nada. Eu só aprendi a esconder melhor. As freiras passavam por nós como sombras vestidas de santidade. Severas. Técnicas. Sem piedade. Chamavam punição de correção. Dor de aprendizado. Medo de disciplina. Na semana anterior, veio a última humilhação. Não chamaram de exame. Chamaram de comprovação. Fila de garotas em silêncio. Olhares baixos. Quem não “passava”… não voltava. E quando voltavam, era pra sair pela porta da frente, envergonhadas, marcadas, como se tivessem falhado em algo sujo, quando o sujo nunca foi delas. Eu entrei naquela sala e meu corpo todo ficou tenso. A sala era branca demais. Fria. Sem sentimentos, emoções ou remorsos. As freiras alinhadas como juízas. — Fique quieta. — Baixe a cabeça, garota, não olhe pra mim. — Vamos tire tudo, não temos tempo a perder. As palavras vinham secas. Não havia escolha. Nunca houve. Minhas mãos tremiam, mas não por vergonha. Vergonha é quando você ainda acredita que tem culpa. Eu já sabia que ali a culpa era um instrumento. Deixei a roupa cair, sentindo meu corpo todo esfriar, despida diante de todas. A freira que sempre me odiou foi a que chegou mais perto. As unhas dela cravaram no meu braço enquanto me colocava na posição que elas exigiam. — Ah... Gemi de dor, e ela me olhou enojada. — Aprenda a obedecer, ou você não vai sair daqui ouviu!? ela disse, baixo. Não era conselho. Era ameaça. O toque foi rápido. Frio. Clínico de um jeito perverso. Não porque fosse médico, mas porque não havia humanidade nenhuma. Elas olhavam como quem avalia mercadoria. E ela me tocou de um jeito que arrancava toda minha humanidade, qualquer direito que eu achava que tinha. Eu senti a dor da invasão em minha i********e, mas me controlei, me segurei e não soltei som algum. Uma outra estava com prancheta. Um risco feito com caneta. E a sentença. Passei. Não senti alívio. Não senti orgulho. Senti nojo. Não de mim, delas. Ali eu aprendi: sobreviver não significava vencer. Não aqui. ... No dia da partida, ninguém se abraçou. A gente aprende rápido ali que apego vira punição. Minha única amiga, Serena Valentini segurou minha mão por um segundo a mais do que o permitido. Foi o suficiente. Entramos nos carros. Não éramos buscadas, Éramos recolhidas. Quatro carros de escolta nos cercaram assim que os portões se abriram. E eu fui liberada daquele lugar, que nunca mais quero voltar, tão pouco mandar alguma filha minha um dia. Quando eles ficaram pra trás, eu precisei respirar fundo. O mundo parecia grande demais de novo. Barulhento. Livre. A mansão surgiu, eu vi primeiro os homens armados. Depois os carros. Depois… ele. Meu pai estava ali. Inteiro. Em pé. Me esperando. Meu coração acelerou tanto, ele continuava igualzinho. E ao lado dele… Cirius. Meu coração simplesmente perdeu o ritmo. Ele... Ele veio. Desci do carro antes mesmo de alguém mandar e corri. — Pai! Me joguei nos braços do meu pai como se ainda tivesse treze anos e pudesse caber ali sem medo. Ele me segurou forte, como se estivesse conferindo se eu era real. Beijou minha cabeça. — Você está linda… disse, com a voz quebrada. — Tão parecida à sua mãe. Sorri, mesmo com os olhos queimando. — Eu senti tanta saudade!! Abracei ele de novo com força, era tão bom voltar. Quando me afastei, eu olhei pra ele. Cirius não era mais o garoto que eu lembrava, meu Deus... Eu sair daqui ele não tinha nem barba. Agora era um homem. Grande. Forte. Fechado. Tatuagens subindo pelos braços, marcando a pele como escolhas definitivas. O rosto duro. O corpo inteiro em alerta. Mas os olhos… Os olhos me atravessaram. Como se ele estivesse tentando entender quem eu tinha virado. Ou o que tinham feito comigo. Sorri pra ele sem pensare o abracei. Ele me envolveu na mesma hora. Forte. Seguro. Um abraço que não pedia nada e não prometia nada. Meu peito queimou de um jeito estranho. Familiar. Eu sei que ali não era o mesmo Cirius que me viu partir, mas por alguns segundos, era ele quem eu abraçava. O mesmo que me prometeu que estaria aqui quando eu voltasse daquele inferno, e de alguma forma, ainda era ele. Apertei a roupa dele com os dedos e sussurrei, só pra ele ouvir: — Foi horrível. O corpo dele ficou rígido por um segundo. Depois, o abraço apertou mais. — Eu sei. Levantei o rosto, ainda presa a ele. — Você veio… Não era pergunta. Era incredulidade. Ele não respondeu. Não precisava. Ele estava ali. E isso, naquele mundo, nunca era pouca coisa. ....
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