Amor

2009 Words
Win A primeira vez que senti seus lábios foi estranho, mas não foi r**m, e foi a primeira vez que eu beijei alguém, e lembro que foi inusitado sentir sua saliva, um gosto doce que vinha da boca dele, por conta dos chicletes que ele tinha consumido, além das sensações que me causou. Como antes, sou eu que tomo a iniciativa, mas dessa vez o beijo é mais intenso, afinal, não temos mais treze anos.  Enquanto sugo seu lábio inferior, sinto suas mãos se envolverem em minhas costas, e mais uma vez, ele retribui meu beijo, dando leves puxões em meus lábios, roçando com mais intensidade, e em seguida sinto sua língua adentrando minha boca, solto um leve gemido, que entrega o meu desejo por ele. Sua língua toca a minha, enquanto minhas mãos se envolvem em seus cabelos. Nosso beijo vai ficando intenso demais, e eu sei que devo parar antes que eu, ou ele fiquemos excitados demais.  Nossas respirações vão ficando ofegantes a cada investida de seus lábios nos meus, até que não sinto seus lábios tocarem os meus. Abro os olhos, e não sei o que dizer, o que fazer depois desse momento prazeroso entre nós. Ele respira ofegantemente, e seus olhos me encaram com surpresa mais uma vez.  “Win, eu... p***a, o que foi isso?”, ele pergunta como se eu soubesse a resposta, estou tão perdido quanto ele. Antes que eu abra a boca para respondê-lo, escutamos uma voz. “Ora, ora... O que tá rolando aqui?”, olhamos na direção que vem a voz, atrás de nós. “O meu primo beijando o cara que todo mundo quer pegar na escola?” “Eh... Eu...”, ele não consegue falar. “Eu não sabia que você curtia garotos!”, ele fala, e um sorriso debochado se forma em seus lábios. Ele olha para mim, seu olhar é temeroso. Em seguida, volta a olhar para o imprestável do Oat. “Eu... Eu não gosto de garotos!” “O QUÊ?”, eu e Oat falamos em uníssono. “Por que me beijou?”, pergunto inconformado. “Você me beijou, e eu apenas retribui!” Eu me afasto dele, e pergunto incredulamente. “Como é que é? Você me beijou como retribuição? Como uma forma de caridade, é isso?” “É que... Eu... Eu...” “Olha, quer saber? Pega a sua caridade e enfia no...”, antes que eu conclua minha frase, Khai aparece e me atrapalha. “Winnie, o que tá acontecendo?” “Nada Khai, não tá acontecendo nada!” [...] Acho que não preciso dizer o quanto foi frustrante descobrir que o Nate é igual aos idiotas da escola, que pagam de hétero, mas são adeptos da “brotheragem”, eles podem te beijar, t*****r com você, mas vai ficar no sigilo. Eu não acredito que passei anos sonhando em reencontrar um cara frouxo, que não teve a coragem de confessar para o primo que retribuiu o beijo porque queria! O desejo estava impresso em seus olhos, eu não estou louco, vi, e senti. Quanta decepção! O retorno à escola não poderia ser pior. Durante todo o trajeto, minha tia conversa sobre várias coisas, mas meu ânimo está longe, e eu apenas balanço a cabeça, sorrio sem graça, até ela estacionar na frente do prédio. Olho, mas não tenho nenhuma vontade de descer. “Está tudo bem, Win?”, ela pergunta e eu finalmente a encaro, e balanço a cabeça em sinal de positivo. “Você está todo aéreo desde que voltou da festa, acho que aconteceu alguma coisa e você não quer me contar!” “Não aconteceu nada, tia! Eu só estou muito cansado, é isso!”, para não prolongar mais nada, eu a abraço, e me despeço.  Ao chegar no quarto, coloco minha mochila em cima da cama, e pego livros e meu caderno para as aulas da manhã, e antes que eu saia, encontro quem eu menos queria, Nate. Seu olhar parece arrependido, típico de quem não tem coragem de assumir o que faz. Ele fica parado diante da porta, olhando para mim como se fosse falar algo, mas não estou a fim de ouvir nada. Seguro meus materiais, e passo por ele, mas antes que eu chegue à porta ele fala. “Win, eu te devo outro pedido de desculpas!” Paro, viro e olho para ele. “Parece que você vive pedindo desculpas, e eu odeio esse tipo de comportamento!” “Win, se você tentasse me entender... Eu não podia dizer para o Oat que nós... Nós...” “Acho melhor você parar por aí! Não houve nada entre nós dois!” “Mas, e o beijo?” “Beijo? Do que você tá falando? Eu não me lembro de beijo nenhum!”, falo com um tom irônico, lanço um sorriso cínico, viro as costas e saio. Se há uma coisa que aprendi com maestria neste colégio, foi à arte da ironia, e do sarcasmo. Algo que me ajudou a sobreviver, sendo o único garoto gay do colégio, já que neste espaço acadêmico, existem apenas héteros (lê-se: hetero = lenda urbana), eles contam que são, e eu finjo que acredito. Passei a aula inteira evitando olhar para ele. Durante o almoço tive que ouvir Oat falando besteira, e fingir que não me importava, e quando as poucas vezes que me peguei olhando para ele, o maldito me encarava com olhos de cachorro arrependido, e ao mesmo tempo em que tive vontade esmurrar a cara dele, ainda sentia o gosto daquele beijo, sua língua brincando dentro da minha boca, e uma vontade imensa de provar seus lábios mais uma vez. Para Win, você não pode, e ele não te merece! [...]  “Será que eu podia dormir aqui?”, pergunto aos meus amigos, assim que entro no quarto deles. “O que houve?”, Freezer pergunta. “Não houve nada!” “Deixa de ser mentiroso, Win! Você tá assim desde aquele momento estranho na festa...”, afirma Khai. “Você tá imaginando coisas, Khai!”, digo de um modo desinteressado para que eles não percebam nada. “É, e por que o Oat tava dizendo que encontrou você e o Senhor Brilhante num situação inusitada? E quando ele falou isso, eu percebi que o Nate ficou bem nervoso!”, Freezer pergunta usando o olhar interrogativo que ele sempre faz quando quer descobrir algo. “Onde você ouviu isso?”, pergunta Khai. “Antes de vocês chegarem ao refeitório, e ficou o maior climão, porque o Somchai ficou interessado em saber o que Nate estava fazendo com você no jardim!” “O que o Nate falou, Freezer?”, pergunto. “Disse o mesmo que você, que não houve nada, e que o Oat tava bêbado e criando fanfic!” Khai senta ao meu lado em sua cama, enquanto Freezer começa a tirar o terno. Abaixo a cabeça, sinto um peso dentro de mim, e acho que não posso mais esconder o que está acontecendo, afinal, eles são meus amigos, e sempre me apoiaram. “Eu beijei o Nate!” “O QUÊ?”, os dois perguntam ao mesmo tempo. “Essa não foi a primeira vez...” “Como assim, Winnie?”, Khai pergunta. Levanto a cabeça e encaro o nada. “A primeira vez que nos beijamos, tínhamos treze anos, essa história vocês já conhecem!” “Espera... Você ta dizendo que esse Nate, primo daquele demônio, é o mesmo Nate do passado?”, Freezer pergunta, e eu balanço a cabeça. “Como isso é possível, Winnie?” “Eu não sei Khai, só sei que eu lembro perfeitamente dele, mas ele me esqueceu, e o beijei mais uma vez, ele agiu como todos os babacas daqui!” “Você tem certeza que é ele? Pode ser outra pessoa...” Freezer diz de um modo preocupado. “Não Freezer, eu tenho certeza, é ele!”, digo e as lágrimas escorrem, e eu sei que não deveria chorar, mas, o que posso fazer se é mais forte que eu? “Só que ele não se lembra de mim, e eu acho que não é possível uma pessoa não se lembrar de outra depois de todo aquele circo armado pela mãe dele, e tudo que aconteceu depois que o esquadrão homofóbico chegou... Não é possível que ele tenha esquecido isso!” “Calma Winnie, deve haver uma explicação pra isso!”, Khai diz e me abraça de lado.  “Você já falou com ele?”, Freezer pergunta. “Não tive coragem!” “Certo, mas já pensou na possibilidade de ele também não ter coragem?”, ele se aproxima de mim, e também senta ao meu lado. “Vai que ele também é assim, sentimental como você, e como você não demonstrou nada, ele também pode estar achando que você não lembra, ou que o odeia!” “Será?”, Khai pergunta. Olho para Freezer, balanço a cabeça em negativa. “Não acho, ele teve oportunidade de falar...” “Como foi o lance do beijo, Winnie?” “Eu não queria falar sobre isso, Khai!” “Olha Win, você pode dormir aqui, mas e amanhã? Vai continuar fugindo do passado?” “Não vou fugir, Freezer!” “Então resolva, fale com ele! Se ele não lembrar, exorcize esse passado de uma vez, e vá viver sua vida!”, Freezer fala e eu o encaro, em seus olhos eu vejo preocupação. “Eu não sei” “Win, você não pode viver assim pra sempre!” “Assim como, Freezer?” “Win por favor, você acha que eu sou o Khai que acredita que você nunca namorou, porque você ficou traumatizado com a sua família, ou que ninguém aqui, ou lá fora, quer algo sério com você?” “Não é bem assim, Freezer!”, eu digo e me levanto. “É bem assim! Sabe qual o seu problema? “Qual è o meu problema? Já que você sabe de tudo, Senhor psicólogo!”, digo com sarcasmo. “Muito simples, você nunca superou o fato de passar todos esses anos longe dele, e achar que vocês teriam ficado juntos! Porque você é apaixonado por ele!” “Não Freezer, eu não sou apaixonado por ele!” “É sim! Se eu fosse você contaria a verdade, e se ele não lembrar, ou te rechaçar, toca o f**a-se e siga adiante, Win!  [...] Conversei por um bom tempo com meus amigos. As palavras de Freezer ecoam na minha mente enquanto ando pelo corredor tentando criar coragem de entrar no meu quarto, já tem um tempo que sai do quarto dos meninos dizendo com veemência, “Eu vou falar com o Nate”. Se alguém falou com ele, esse alguém não foi eu, pois, quando me preparava para tocar na maçaneta, me bateu um desespero, um frio na barriga, e eu acabei desistindo.  Vamos Win, coragem, você consegue!  Caminho mais uma vez até a porta do nosso quarto. Diante dela, respiro fundo, passa a mão pelos cabelos, e finalmente coloco a chave, giro a maçaneta, tiro a chave, entro e fecho a porta. Viro-me e ele está sentado na cama, as pernas estiradas, notebook em uma mesa portátil entre suas pernas. Ele para e me olha. Trocamos olhares sem dizer uma única palavra, olho em direção a sua boca, e as imagens do beijo vêm à minha mente mais uma vez. Vamos Win, se acalma! Tiro os sapatos, respiro fundo para criar coragem e dizer o que preciso, e antes que o faça, seu telefone toca. Ele olha, toca a tela, e fala encarando o aparelho. “Oi Surya!” A pessoa do outro lado tela fala, o que parece ser uma vídeo chamada. “Oi amor, esqueceu de mim, foi?” Depois disso, se eu estava criando coragem, ela morreu.
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