Minhas crises de ansiedade vinham em ondas, cada vez que ele passava pela porta do quarto. A tensão de esperar pelo momento em que ele, finalmente, encerraria esse tormento… nossa primeira noite. Tudo que eu conseguia pensar era no quanto aquilo seria doloroso. Uma dor real. Meus músculos contraíam só de imaginar. E, claro, havia o temor constante de que a mãe dele, aquela bruxa, soubesse. A velha certamente faria um escândalo sobre o assunto.
— Você quer me deixar… — a voz dele quebrou o silêncio como uma lâmina, entre respirações rápidas, mas não havia dúvida. Era uma constatação, não uma pergunta.
Naquela época, eu já estava com os pés na porta do divórcio. Só esperava o momento certo. Meu corpo precisava se recuperar completamente antes de colocar meu plano em prática. Mas, Alexander sempre tinha esse maldito hábito de estar um passo à frente. Como ele conseguia ver através de mim tão facilmente? Era assustador.
Eu não tinha ideia do que estava provocando aquela respiração acelerada. Certamente não era por me tocar, muito menos desejo. Ele nunca mostrou o menor sinal de que me quisesse. Na verdade, eu me convencia de que ele me achava tão repulsiva quanto eu me sentia perto dele. Não que eu estivesse desesperada por sua atenção, mas… bom, éramos casados. No fundo, eu queria cumprir meu papel de esposa, pelo menos no começo. Agora? Não dava mais a mínima.
E lá estava eu, esperando de novo. Noite após noite, sentindo aquela ansiedade rastejante crescer. Será que ele me achava nojenta demais para sequer considerar me tocar? Será que a mãe dele, com suas insinuações e olhares venenosos, alimentava essa repulsa? Aquela mulher teve a audácia de insinuar que eu era promíscua. Eu! Como se eu me oferecesse por aí… m*l sabe ela o quanto eu desejava fugir, desaparecer de tudo isso.
Senti a respiração de Alexander intensificar, cada vez mais quente, quase queimando a pele do meu pescoço. Estranho como meu corpo reagia, mesmo quando minha mente já estava além de qualquer resquício de desejo.
— Vou tirar você da minha vida, Alexander — declarei, com a voz envenenada de repulsa.
O ódio crescia em mim como uma erva daninha. Ele permaneceu em silêncio por um tempo desconcertante, até que uma risada fria escapou de seus lábios, cortante e debochada.
— Acha que é tão fácil se livrar de mim?
Aquela voz gelada reverberou na minha espinha, me causando um arrepio involuntário. Fiquei quieta. Se pudesse, teria jogado os papéis do divórcio na cara dele, naquele instante. Eu tinha certeza de que, no dia seguinte, ele já teria se casado com uma herdeira jovem e obediente. Mas, é claro, eu estava errada. Tão errada.
— Nunca vamos nos divorciar, Charlotte — ele continuou, cada palavra carregada de um veneno que eu não sabia se era ódio ou algo pior. — Você não é mais Charlotte Viradia. Você é Charlotte Speredo. E, se isso for o inferno, vamos ficar juntos nele até o último dia da minha vida.
Ele saiu do quarto com uma força tão absurda que a porta quase se desfez na batida. Fiquei ali, de pé, paralisada, tentando entender o que fiz de tão terrível para merecer essa punição divina. Será que fui uma vilã numa vida passada?
***
Esse foi um dos raros momentos em que Alexander mostrou algo que se assemelhasse a emoção. Ele estava com raiva. E eu, a i****a que o irritou, continuo pagando por isso, mesmo três anos depois.
Já estava no estúdio, terminando uma transmissão, quando minha colega entrou. Entregou um bilhete e se acomodou no lugar oposto, ajustando os fones de ouvido e o microfone como se já estivesse pronta para assumir o controle. O bilhete dizia que o gerente queria me ver. Urgente.
— Você está bem? — Tamilian perguntou, os olhos cheios de preocupação.
A verdade é que eu não estava, mas acenei com a cabeça em um movimento mentiroso. Peguei minha bolsa, meu casaco e fui ao encontro do meu destino no escritório do gerente.
Eu estava pronta para qualquer coisa. Literalmente qualquer coisa. O meu gerente dramático, com certeza, não ia deixar o meu “choro ao vivo” impune, e eu estava só esperando o sermão. Mas o que aconteceu? Bem, foi além das minhas expectativas mais sombrias.
Quando entrei no escritório dele, encontrei um silêncio inquietante. Ele parecia… calmo demais. Aquele tipo de calma que faz sua espinha congelar.
— Sente-se. — Ele me apontou a cadeira com um gesto quase preguiçoso. O pior? Nem esperou pra ver se eu me importava quando acendeu um cigarro e começou a fumar na minha cara. Classe pura.
Ele tragou, jogou a fumaça no ar, e então, finalmente, me olhou com uma expressão… difícil de decifrar. Algo entre tédio e uma espécie de simpatia desgastada.
— Inicialmente, eu só ia te dar uma bronca por se emocionar demais e acabar chorando no ar. Mas, Charlotte, acho que você irritou a pessoa errada. Acabei de receber uma ligação. Nossa emissora vai ser suspensa a partir das 13h de hoje.
Ele pausou para ver minha reação. Nada. Fiquei ali, com a cara impassível, aguardando o golpe final.
— A suspensão continua até que você ligue para esse superior que ofendeu… e peça desculpas. Imagino que você saiba de quem estou falando, certo?
Ah, claro. Ele. Aquele demônio travestido de CEO, meu marido. Se você quer saber se eu senti alguma coisa nesse momento, a resposta é: absolutamente nada. Esse era o tipo de joguinho que Alexander adorava jogar. Me torturar e fazer com que todos ao meu redor sofressem também, só para reforçar o controle que ele achava que tinha sobre mim.
Na verdade, a única razão de eu ter escapado dele foi porque eu quase morri. Foi um brinde do meu querido marido ao me empurrar até o limite. Minha ansiedade, minha fobia… tudo se acumulando até eu desistir de mim mesma. E só então, com um restinho de culpa (se é que aquele homem tem alguma), ele me deixou ir, longe o suficiente para não precisar olhar na minha cara diariamente.
— Charlotte, você entende em que situação colocou a estação? — A voz do gerente me tirou dos meus devaneios.
— Sim — respondi, seca. Claro que eu entendia.
Ele suspirou. Sabia que estava prestes a jogar o pior de todos os fardos nas minhas costas, e, por um segundo, parecia até arrependido.
— Sei que é egoísta da minha parte te pedir isso, mas não estamos em posição de apoiar ninguém agora. Eu sei que você já sabe quem é esse “superior”. Então… quero pedir que se desculpe por seus colegas. E, depois disso, entregue sua carta de demissão.
Ah, ele foi direto ao ponto. Eu podia muito bem pegar o cinzeiro que ele usava com tanto desdém e arremessá-lo na sua cara. Mas, curiosamente, eu apreciava a sinceridade. Ele podia estar sendo um covarde, mas ao menos não estava tentando me manipular. Não dessa vez.
— Preciso de uma promessa. — Cruzei os braços, encarando-o. — Quero um novo posto em outra estação. Não espere que eu ajude se não tiver essa garantia.
Ele pareceu aliviado por eu estar disposta a negociar, em vez de explodir. Seu tom, quase casual, não escondia o peso da situação.
— Fui informado que seu novo posto já está garantido. Assim que pedir desculpas, você será contratada. Eu realmente queria te manter, Charlotte, apesar de tudo isso.
A expressão dele, perturbada, me dizia que ele estava sendo sincero. E, por um breve instante, quase me senti m*l por ele. Mas, claro, o verdadeiro vilão dessa história era Alexander. Como sempre.
— Vou ver o que posso fazer — murmurei, levantando-me.
Saí do escritório sem me despedir, o peso da situação pairando no ar. Quando cheguei ao longo corredor, me apoiei na janela e inspirei o ar gelado de dezembro, tentando acalmar a tempestade que se formava dentro de mim. Essa era só mais uma prova de que eu nunca estaria livre dele. Do Alexander. Do controle.
E, de alguma forma, eu ainda era estúpida o suficiente para esperar uma saída.