4. Fé

996 Words
Maya — Vamos nos casar! — Anne sorri, tomando um grande gole de seu Manhattan. Como vou sair de Nova York em seis dias, quatro horas e – tanto faz, estou muito embriagada para descobrir o resto – imaginei que Manhattans seria uma boa escolha. Anne veio do Queens para a cidade para me ajudar a afogar minhas mágoas. Agora estou nos oferecendo coquetéis caros perto da sede da Baltimore às três da tarde de uma quinta-feira, como se tivéssemos dinheiro para gastar. Achei apropriado escolher um bar próximo ao Grupo Baltimore. Acolchoamento de veludo vermelho reveste as paredes, talvez para evitar que você se machuque se ficar muito bêbada, como um cercadinho para adultos. Luzes fracas e abajures sofisticados fazem com que pareça onze horas. Perigoso. — Tenho passaporte americano, então podemos nos casar — sugere Anne. Ela balança alegremente na banqueta do bar, como se tivesse descoberto uma solução para as mudanças climáticas. — Silêncio. — Eu cutuco seu joelho. Ela é muito barulhenta para um bar como este. Depois desta bebida, vou levá-la para casa. Ela é fraca demais em relação ao álcool. Embora ela tenha razão... casar com Anne não parece mais tão absurdo. Seríamos um casal sem sexo, e há muitos deles por aí. Jesus, estou desesperada. — Não. — Suspiro tristemente em meu Manhattan, girando o canudo em volta do gelo. — Não é uma solução de longo prazo. O que acontece quando uma de nós conhecer um homem? — Eles provavelmente iriam querer um trisal. A sofisticada senhora idosa sentada a poucos metros de distância nos lança um olhar de desaprovação. — Vou ter que aceitar, Anne — murmuro, olhando para o copo em forma de V cheio de licor vermelho. — Estou indo embora. Eu tentei, mas vamos encarar... — Minha voz falha. Não posso chorar neste bar chique. — Não. — Ela agarra minhas duas mãos, levantando-as no ar como se estivesse realizando algum ritual. — Deve haver uma maneira. Talvez não encontrem nada no seu registo criminal. Ele é apagado depois de um tempo? Eu dou a ela um sorriso fraco. — Não tão cedo, não. Ainda será uma grande marca suja em meu nome. Ela cantarola e aperta minhas mãos com mais força. — Talvez eles esqueçam? — Eles não vão esquecer. — A agência de babá fez isso. — Aquela agência não é confiável. Eles ajustaram tanto meu currículo que pareci a Nanny McPhee. Os Baltimore vão tirar o meu sangue. Sem contar que aquele homem, ele me odeia. Suas mãos soltam as minhas enquanto ela afunda de volta em seu assento. Nós duas ficamos em silêncio. — Eu acho que ele nem se lembra mais disso, Maya. Talvez eles não se importem com o que está em sua ficha. Você não é uma assassina. Foi apenas uma… série de acontecimentos infelizes. Eu sorrio para agradá-la. Não foi assim que a polícia viu e não é isso que está na minha ficha. Respirando lentamente pelo nariz, ela coloca as pontas dos dedos sobre as pálpebras. — Respire fundo e pense positivo. Temos que ter fé. Daqui a um ano estaremos comemorando neste bar como cidadãs legais de Nova York. Estarei trabalhando para o departamento de polícia de Nova York, provavelmente tendo ganhado uma medalha de honra, e você será uma paisagista com o prêmio de paisagista do Ano! Ela ainda está com os olhos fechados, então não consegue ver os meus revirando. — Você está lendo O Segredo de novo? Ela abre os olhos e sorri. — Se você acredita que isso vai acontecer, isso vai acontecer. Expiro pesadamente e tomo um grande gole do meu Manhattan, dando as boas-vindas ao queimor que desce. Se minha última esperança é uma ilusão, é uma situação triste. — Eu volto já. — Anne desliza do banquinho, fazendo com que a saia suba. — Tenho que ir ao banheiro. — Estarei aqui — digo alegremente, girando o resto do meu coquetel. — Por enquanto — acrescento baixinho para mim mesmo. Observo Anne se afastar. Meu coração dói. Em breve, não faremos isso juntas. Somos melhores amigas desde crianças. Éramos vizinhas, estudávamos juntas e faltavamos aula juntas. O único momento que passamos separadas foi quando ela saiu de férias para os Estados Unidos para visitar seus parentes, e eu fiquei com muito ciúme. Agora, nestes últimos meses, temos vivido juntas, no sótão da casa do tio Sean, no Queens. — Ele está aqui — diz a mulher atrás de mim, interrompendo minha festa particular de piedade. Seu tom animado me faz querer escutar a conversa delas. — Eu o vi saindo do banheiro. — Você está brincando comigo — responde quem está com ela. — Temos que encontrar uma maneira de esbarrar nele acidentalmente. Examino o bar, procurando sinais de alguém famoso, um pouco curiosa. Quem está aqui? O cara no canto se parece vagamente com Al Pacino. A mulher diz algo em voz baixa para a amiga, o que é inaudível para mim. Sua amiga ri. Eu gostaria de poder acompanhar mais a conversa delas. Eu me inclino um pouco para trás no meu banquinho. Este não é um bom plano, considerando que estou um pouco vacilante por causa dos coquetéis. Mau momento. O barman passa por mim. m*l pego seu braço quando ele pega meu copo. — Espere! — Eu avanço e o pego, meus dedos segurando a haste com firmeza. — Eu não terminei. Ele olha para o copo quase vazio e depois para mim, m*l reprimindo um revirar de olhos. Eu faço uma careta em troca. É apenas um gole, mas não vou desperdiçar uma gota. Inclino o copo para trás, certificando-me de não perder uma única gota, e coloco o copo vazio na frente dele. — Estive pensando no banheiro — anuncia Anne ao retornar. Aguardo a grande revelação. — Devíamos tomar mais um drinque — diz ela, sorrindo para mim com os olhos vidrados. — Mais um e depois iremos para casa.
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