Decolando.

842 Words
No dia seguinte, a única coisa que me fez despertar foi o café quente que tomei, não que meu dia anterior tenha sido exaustivo, mas diria que espiritualmente desgastante. Hoje teria que voar por algumas horas para casa da minha avó e vê-la dar – o que os médicos dizem ser seus últimos suspiros. Quando perdemos meu pai, eu não consegui ir ao velório. Alguém tinha que tomar conta do Tony, e aquilo me deixou estranhamente aliviada porque eu não sou forte o suficiente para ver alguém que amo tanto numa situação tão frágil, principalmente alguém sempre tão forte e corajoso como meu pai. Mamãe decidiu deixar que o Antônio faltasse aula, e levá-lo para lhe acompanhar no seu trabalho já que eu não estaria lá para buscá-lo quando fosse a hora. Quando nos despedimos na porta de casa, fui surpreendida com um abraço apertado, e senti as lágrimas do rosto da mamãe deslizarem nos meus ombros. Mesmo que ela não fosse filha da vovó, e sim nora, mamãe cultivou um carinho muito grande por ela, na verdade, eu mesma nunca conheci alguém que teve a vovó em sua vida e não a amou intensamente. — Dê todo apoio que ela precisa. Sei que isso não será fácil para você, mas você sempre foi mais forte do que demonstra. — Ela disse depois que se afastou do meu abraço. — Obrigada, mamãe. — Dito isso, também derramei algumas lágrimas, mas logo as enxuguei. Mamãe pegou minhas mãos e as apertou, fixando seus olhos castanhos claros em mim. — Se cuide! Tem certeza de que não quer carona até o aeroporto? Posso explicar que cheguei atrasada por conta de uma emergência. — Não se preocupe, não vou levar mais de quinze minutos para chegar de ônibus. De repente, algo envolve minhas pernas choramingando, dizendo repetidas vezes: "Mari, me leva com você!" Eu gargalhei, e isso espantou qualquer resquício de tristeza que estivesse no ambiente. — Ah, eu adoraria... —brinquei, e Antônio segurou o choro por alguns segundos — Mas se eu fizer isso, quem vai cuidar da mamãe? Ela precisa de alguém forte e valente para cuidar dela. — Isso o fez abrir um sorriso mais largo do que esperava. — Você está certa. Eu confirmei que sim, e depositei um beijo na sua cabeça.  ∞∞ Acontece que o voo atrasou um pouco mais de quarenta e cinco minutos por algo relacionado com o vento que não entendi direito, e eu não quis ligar para minha mãe porque isso a faria surtar de preocupação. Então, quando soube que o voo iria atrasar tanto, liguei para que a Susana viesse se encontrar comigo. A avistei de longe enquanto conversava com uma comissária, provavelmente procurando por mim. De longe, Susana era a garota mais bonita que existia na nossa cidade. Além de muito doce, gentil, bondosa. O cabelo dela pareciam fios de ouro, e amarrados num r**o de cavalo – como em nesta situação – realçava ainda mais as suas bochechas vermelhinhas. Acenei para ela de longe, e quando seu olhar fitou o meu, ela deu uma risadinha gentil agradecendo a comissária com um gesto, e depois caminhou até mim. — Mari! Quase me perdi. — Confessou. — Desculpa ter feito você dirigir até aqui, queria me despedir antes de ir embora. — Ah, eu não dirigi. Estava na casa do Lucas quando você ligou, então ele que me trouxe. — Percebi que isso soou natural para ela dizer, como se acontecesse recorridas vezes. Quando eu conheci Susana no evento eu tinha quinze anos e ela dezessete. Sempre pareceu para mim que sua vida era extremamente agitada por conta da sua mãe, mas a partir que íamos nos conhecendo pude ver que na verdade era bem tranquila. Quando ela finalmente ingressou na faculdade, a sensação de que ela era super atarefada voltou, e por isso é comum hoje em dia, mesmo sendo melhores amigas, não sabermos de tudo o que acontece na vida uma da outra. Depois que ela disse essas palavras, Lucas apareceu com dois cafés na mão e entregou um para Susana, e o outro, para mim. Eu olhei para ele como se diz "Cadê o seu?" — Eu não gosto muito do café daqui. — Falou ele, confirmando o fato de que ele entendeu o que eu quis dizer com o olhar. — Eu sinto muito pela sua avó. — Obrigada, mas ela não morreu. — Avisei. — Ainda... —Senti necessidade de completar. Ele deu de ombros. Algo nesse dar de ombros fez meu estômago debruçar. A presença dele me trazia uma estranheza muito persistente. E não demorou muito para que aquilo tudo se tornasse estranho no geral. Lucas era bem atraente. Charmoso, diria. Tinha um jeito esnobe que me irritava, mas ainda assim, era bonito e tenho certeza que ele sabia disso. Caso contrário, não andaria tão confiante. Decidi quebrar o gelo, e agradecê-los por terem vindo. Os dois sorriram, mas logo o silêncio se instalou de novo. Permanecemos assim por 20 minutos até [finalmente] o voo estar pronto para decolar. 
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