— O quê? Caíram no chão? — digo, cortando-o.
— Acho que a amiga estava tão enlouquecida que
quando a ruiva abriu a porta, ela se jogou em cima dela,
derrubando-a. Mas não ficaram machucadas. Eu
verifiquei isso — ele responde apressadamente.
— Continue — digo impaciente.
— Bem, depois que elas entraram eu pude ouvir
um pouco da conversa delas. Falaram sobre alguém
chamado Brian e sobre o senhor.
— O que disseram sobre mim? — pergunto
realmente interessado.
— A moça ruiva disse que o senhor a salvou ontem
duas vezes, primeiro livrando-a de um assalto e depois
quando veio e abriu a porta do apartamento dela para
que pudesse entrar — ele diz resumidamente.
— E o que mais? — pergunto agoniado.
— Bom, não pude ouvir muito, pois elas estavam
praticamente cochichando — ele diz como se pedisse
desculpas.
Quem seria essa amiga? E porque a deixou sair
sozinha? Será que morava com ela? E quem era esse
Brian? Seria seu tio? Não, ela mentiu sobre isso, tenho
certeza. Aquilo não estava cheirando nada bem. Aliás,
estava cheirando a encrenca e das boas. Espero estar
enganado.
— Tudo bem, Calvin. Peça um táxi e volte pra casa.
Assumo a partir daqui. Precisarei de você apenas à noite.
Anne está com Claire em casa e acredito que não vão
sair durante o dia — digo dispensando-o. – Senhor, mais uma coisa. – Calvin diz antes de se
retirar.
— O que? — pergunto interessado.
— Devo informá-lo que a senhorita ruiva não ficou
muito contente em saber que o senhor me pediu para
que ficasse aqui para mantê-la segura — ele diz
ressabiado.
— Eu resolvo isso, Calvin. Pode ir. Ah! Calvin! Essa
amiga era uma loira peituda? — digo lembrando-me da
desagradável prostituta da noite anterior.
— Não, senhor. Ela é alta e morena — ele
responde.
— Ok. Bom descanso — digo e ele se retira
apressadamente.
As coisas saíram um pouco do controle. Tudo
porque dormi demais. Pretendia render Calvin mais cedo
e verificar se o tal tio de Jennifer existia, apesar de
apostar minhas bolas que era mentira. Mas apaguei e
agora teria que mudar um pouco minha abordagem. Essa
garota está me cheirando à encrenca, mas não posso
simplesmente virar as costas. Não enquanto estiver em
dívida com a vida.
Eu não que sou um bom samaritano, em busca de
perdão ou com o propósito de salvar o mundo, estou
muito longe disso. Certo, eu faço doações à caridade e
participo de eventos filantrópicos, mas nada, além disso.
No entanto Jennifer faz ressaltar cada instinto protetor
que há em mim.
Quem eu quero enganar? O que venho sentindo não tem nada a ver com
proteção. Não sei exatamente o que é, mas não consigo
ficar longe dela, nem que seja por uma maldita noite.
Lembro-me vagamente do meu último pensamento.
Pensei como seria beijá-la. Sacudo a cabeça para afastar
o rumo dos meus pensamentos e bato na porta. Ninguém
atende. Bato de novo um pouco mais forte. Nada.
Resolvo chamá-la.
— Jennifer! Jennifer abra a porta! — falo
praticamente berrando.
Fecho os olhos tentando me acalmar. Sei que ela
está lá dentro. Vou contar até cinco e se ela não abrir a
porta...
— O que faz aqui? — ela abre uma brecha na porta
abruptamente.
Parada cardíaca!
Abro os olhos e me arrependo no exato instante em
que o faço. Se eu imaginei que ela fosse linda na noite
anterior, agora não existem palavras no mundo para
descrever tanta beleza. Olhos azuis, estático e sempre
focado no horizonte, cílios naturalmente longos, nariz
arrebitado, lábios carnudos e maçãs do rosto levemente
coradas dão o toque final à obra prima. Uma verdadeira
Afrodite, ruiva e linda de morrer.
Seus cabelos estão úmidos e presos a um r**o de
cavalo improvisado. Ela está usando um vestido branco
de algodão e renda. Parece um anjo. Só de imaginá-la no
banho, o sabonete escorrendo em sua pele aveludada,
deslizando pelos s***s e descendo entre as pernas, já me
faz endurecer. Merda. Tento frear meus pensamentos
eróticos. — Deixe-me entrar — digo soltando a respiração
que eu nem sabia que estava prendendo.
— Não! — ela tenta fechar a porta.
— Não foi um pedido, Jennifer — empurro-a
gentilmente e entro.
— Mas o que você está fazendo... — ela tenta
elaborar alguma frase.
Ignoro seu quase protesto e vou em direção à
moça sentada no sofá.
— Quem é você? — pergunto desafiadoramente.
— Paige Fischer — ela responde com os olhos
arregalados.
— Sr. Durant! — Jenny grita cruzando os braços.
— Neil. Chame-me de Neil, Jennifer! — digo sem
desviar o olhar da morena que me encara visivelmente
nervosa.
— Não importa! — ela caminha até mim — Não
pode invadir minha casa e interrogar meus amigos. — ela
diz indignada.
— Amiga? Que tipo de amiga deixa a outra amiga
cega andar sozinha à noite, ser atacada e dormir na rua?
— digo enfurecido.
— Eu não dormi na rua — ela sibila.
— Não graças a ela — aponto para a jovem que
apesar do medo, começa a me encarar com petulância.
— Neil... — Paige interrompe. — Sr. Durant para você, Srta. Fischer — encaro
Paige duramente.
— Sr. Durant eu estava trabalhando — ela me olha
torto e se justifica.
— Vai me dizer que ela é sua tia? — digo virando-
me para Jennifer.
— Não, eu... — Jenny balbucia, esfregando o pulso.
— Eu agradeço o que fez pela Jenny, mas eu avisei
para ela não ir se encontrar com o Kevin... — Paige
murmura.
— Fica quieta, Paige. Não é da conta dele — diz
Jennifer rispidamente.
— Já que eu salvei sua vida, mais de uma vez, creio
que seja da minha conta sim, Jennifer — eu sei que ela
tem razão, não é da minha conta.
Droga! O sensato seria ir embora agora que vi que
ela está sã e salva com sua amiga.
Vou apenas me assegurar que ela está bem e vou
embora, repito a mim mesmo. Mas não consigo desviar
os olhos dela, enquanto ela caminha em direção à amiga
no sofá. Não consigo parar de pensar nela, em sua pele
suave, seus cabelos macios como seda e nesses lábios
sedutores. Sem contar esses olhos, que mais se parecem
com as profundezas de um oceano. Intensos, quentes e
cálidos.
Porra! E eu só penso em beijá-la.
— Não, não é... — Jennifer diz de uma forma tão
intensa, me encarando, que se eu não tivesse certeza de que ela é cega poderia jurar que ela vê minha alma —
Pegue seu leão de chácara e saia daqui! — ela ruge.
— Inferno, mulher! — digo exasperado.
— Eu agradeço pelo que fez, mas termina por aqui
— ela insiste segurando a mão de Paige, como se fosse
um escudo.
Contra mim?
O maldito celular resolve tocar nesse momento.
— Agora não, Penélope — digo atendendo após
identificar o número de meu escritório.
— Desculpe-me, Sr. Durant, mas Peter está aqui e
diz que é urgente — ela explica.
— Mande-o aguardar. Estou indo.
Encaro Jennifer por alguns segundos e vejo que ela
está ofegante. Ela é linda. Poderia olhá-la por horas. Mas
tenho que me encontrar com Peter e já é quase hora do
almoço. Perdi toda a manhã e ainda não resolvi nada
aqui.
Inferno! Preciso ir, não tenho como ficar mais.
— Não terminamos ainda — digo virando-me para
Paige com olhar duro. — Estou de olho em você. Vou
mandar um dos seguranças da minha empresa para cá
Jennifer e não admitirei nenhum argumento quanto a isso
— digo incisivamente.
— Mas Sr. Durant, o que está pensando? — ela diz
indignada. — Não vou aceitar suas recusas e
independentemente de você querer ou não, enviarei
alguém aqui. Quero que fique segura até pelo menos nos
encontrarmos novamente. Entendeu? — digo e olho
incisivamente para Paige que se encolhe no sofá.
— Mas... —Jennifer começa e eu a interrompo.
— Sem, mas apenas aceite. Meu segurança estará
aqui em breve — digo e me viro para sair.
Dou mais uma longa olhada nela e encaro Paige
que me olha estupefata e com um ponto de interrogação
no meio da testa e me encaminho até a porta. Quero que
a Paige saiba quem está no comando agora. Assim ela
não vai querer interferir junto à Jennifer ou colocá-la em
perigo.