Flávia estava de pé em frente à sua estante pensativa, seu plano de acabar com Samuel estava lhe frustrando, pois ela não queria sujar suas mãos, mas temia ser descoberta, pois, Neco está desconfiado e fazendo perguntas. Flávia se questionava até que ponto poderia confiar em seu novo informante, devido ao fato dele ter sido colocado nos negócios pelo seu maior rival, o “Patrão”. Então, confiar, desconfiando, seria o mais sábio a se fazer. E ela sabe bem disso! Enquanto a sua mente criava algo que fosse ser infalível e não levantasse suspeitas, foi interrompida por Diane, que bateu à porta, entreabrindo vagarosamente.
- Senhora!
- Sim. – Disse Flávia se virando lentamente.
- Seu motorista pediu para informá-la que está aguardando no estacionamento do subsolo.
- Certo. Avise-o que logo estarei descendo. Depois retorne aqui!
- Sim, senhora.
Diane saiu, enquanto Flávia se sentou na sua cadeira com a sua agenda na mão. Quando Diane retornou, Flávia entregou-lhe uma credencial.
- Preciso que você me represente em um evento beneficente, será no sábado, mas não quero que diga para ninguém, nem coloque nas suas horas, irei pagá-la para fazer isso. Sem registro, apenas vá, contribua com os valores que irei passar-lhe, coma, beba, divirta-se e em hipótese alguma diga que estará ou esteve nesse evento.
- Eu digo o quê, se perguntarem o motivo da representação, e a sua presença?
- Diga que eu já tinha um compromisso agendado para a mesma data, e devido ao grande prestígio que tenho por eles, decidi enviar uma pessoa de confiança para me representar, pois, tenho grande estima aos projetos sociais. Entregue os valores que passarei a você, e tudo se resumirá em agradecimentos e sorrisos. Não se preocupe.
- Sim, senhora!
Flávia esperou Diane se retira, pegou a sua bolsa que combina com seu belo vestido marrom, saindo logo em seguida.
- Tranque a porta do meu consultório, deixei documentos em cima da minha mesa. Se perguntarem por mim, diga que irei retornar apenas para o horário das consultas marcadas para o final da tarde.
Diane apenas acenou com a cabeça dando um sorriso. Flávia desceu até o estacionamento. Dirigiu-se até o seu carro, que estava ligando. Heitor desembarcou, pondo-se ao lado da porta traseira, abrindo-a assim que Flávia se aproximou, esticou a mão para ajudá-la a entrar.
Ao que saíram da garagem, ele começou a falar.
- Desculpe-me, senhora! Mas recebi uma mensagem bastante fora do comum. Principalmente, por ter sido de quem foi. Pedindo ajuda.
- Explique-me melhor!
- Aqui.
Heitor esticou o braço entregando um celular para Flávia, que o pegou, lendo a mensagem que estava aberta.
- Não tenho nada com isso! – Flávia falou devolvendo o celular para Heitor.
- A senhora não fará nada?
- No momento não! Irei deixá-lo virar-se um pouco sozinho, pois, ele anda fazendo muitas perguntas, além de estar usando força desnecessária.
- Quer que eu resolva essa situação?
Flávia olhou-o com um olha frio.
- Para quem você trabalha?
- Para a senhora!
- Não é o que está parecendo, você tenta resolver todos os problemas que eles se envolvem, me parece que trabalha para eles. Ou... – Flávia hesitou um pouco em sua fala. – Você está trabalhando para o Samuel?
Muito agitado, Heitor respondeu. – Não, senhora! De maneira alguma. Eu apenas quero poupá-la desse trabalho.
Flávia não ficou convencida da resposta.
- Precisamos conversar. Vamos para um lugar mais reservado, onde poderemos discutir a nossa situação.
Heitor por um momento temeu ao ver Flávia tirar o seu celular descartável do acento do banco, mas manteve-se em silêncio.
Os dois chegaram ao local reservado que Flávia havia mencionado, dois seguranças, desconhecidos de Heitor, os aguardavam no lado de fora do portão, deixando ainda mais apreensivo. Ao adentrarem na propriedade, haviam mais seguranças, sem nenhum rosto amigável, ou ao menos já visto por ele.
- Senhora, o que quer que eu faça? – Perguntou Heitor, logo após estacionar, ainda dentro do carro.
- Entre na casa, e me aguarde!
Heitor curvou-se levemente e dirigiu-se em direção da casa, enquanto Flávia fazia algumas anotações em um papel, ainda dentro do carro. Nem bem terminou de escrever, ela abriu a porta do carro. Já havia um segurança a aguardando ao lado, ele esticou a mão para ajudá-la a descer. Ela esticou o seu braço, largando a sua delicada mão que segurava o papel com as anotações, que foi recebido sem nenhuma troca de palavras ou olhares. Neste mesmo momento Heitor se consumia de ansiedade aguardando, sem saber o que o futuro lhe reservava.
Flávia entrou sozinha, caminhando elegantemente até Heitor, que sentia o seu coração acelerar a cada passo dado por ela, se consumia de paixão, mas, também tomado por um medo aterrorizador, sem saber o que se passava naquela mente tão espetacular e calculista. Seus sentimentos o traiam.
Ela parou na sua frente encarando-o. Precipitadamente, Heitor começou a desculpar-se.
- Perdoe-me, senhora. Não quis passar por cima das suas ordens.
- Não lhe perguntei nada! Sente-se aí. – Ela apontou para uma poltrona.
Heitor sentou-se, ainda muito tenso, baixou a cabeça.
- Senhora!
- Não quero que se desculpe mais. Quero que me explique o que está pretendendo fazer. Há quem você serve fielmente?
- Eu sou seu servo, senhora. Sirvo-te fielmente. Não duvide da minha lealdade, pode me punir se quiser, eu aceito o que a senhora decidir, mas não me dispense. Isso não. Eu imploro, não me prive da sua presença.
- Então explique-se, convença-me a mantê-lo ao meu lado.
Heitor levantou o seu rosto olhando para Flávia, que estava sentada na sua frente, ajoelhou-se, se aproximando dela.
- Eu não estou tentando traí-la, quer poder tomar conta de tudo, para que a senhora não precise se preocupar com nada do que está acontecendo.
Flávia apertou levemente os olhos que brilhavam ao vê-lo aos seus pés.
- Você está querendo dizer, que quer assumir os negócios?
- Não, senhora. Não é isso que eu quero dizer.
- Mas, se eu propusesse isso a você?
Heitor hesitou em responder, pois, para ele não seria a solução para o seu problema, mas no momento, ele não tinha outra saída.
- Senhora, eu quero continuar ao seu lado, cuidando do seu bem-estar, não a vendo ocasionalmente. Quero poder suprir sempre as suas necessidades, se eu assumir algo assim, terei que me afastar, colocará outro em meu lugar.
- Ajude-me a derrubar o Samuel, tome a sua posição nos negócios, que eu não irei substituí-lo.
- Ajudarei a senhora a derrubar quem for necessário para estar ao seu lado.
- Agora, você irá fazer parte de algo maior. Você será o responsável pelos seguranças de todas as organizações que estão em meu nome, inclusive da casa, do Samuel e do meu pai. Darei um tempo para você executar as ações necessárias para os negócios da família serem meus. O líder está aos seu comando, e pronto para seguir as suas ordens.
- Quanto tempo eu tenho?
- Não muito! Seja rápido, mas cauteloso e eficaz. Leve-me à clínica agora, tenho que atender ao final da tarde.
- Sim, senhora!