Flávia estava a caminho da sua clínica, quando Heitor recebeu uma mensagem, a qual foi lida imediatamente. Ele olhou-a pelo espelho retrovisor.
- O Pombo está engaiolado, senhora! O que devo fazer agora?
- Interessante! Arranje um advogado para ele, mas, antes certifique-se de que ninguém saiba de nada, pois quero adequar os voos que dará daqui para frente.
- Irei providenciar tudo, senhora!
- Deixe-me na clínica, irei realizar todos os atendimentos que estão agendados. Aproveite este tempo para ajustar os trâmites necessários.
Heitor acenou que sim com a sua cabeça.
Flávia entrou na sua clínica sendo abordada instantaneamente por sua secretária.
- Dra. Flávia, bom dia!
Flavia interrompeu o seu percurso, notando ao tom de aflição emitido por Diane.
- Bom dia! O que aconteceu?
- Eu não entendi direito, mas ligaram para a clínica, solicitando o seu comparecimento urgente ao hospital maternidade. Mas a senhora não atende na maternidade, eu não sabia o que responder!
Flávia havia entendido o recado, apenas tinha que criar um plano para poder ir ao encontro de Neco. Ela virou-se para a entrada principal, avistando Heitor, que ainda não havia entrado no carro. Então ela ordenou a Diane.
- Chame-o para mim. – Apontando para Heitor. – Encaminhe-o até o meu consultório.
- Sim, Dra. Flávia!
Heitor chegou praticamente junto com Flávia dentro do consultório, ela largou a sua bolsa em cima da maca, sentando em sua poltrona, enquanto, Heitor aguardava as suas ordens.
- Preciso que visite um paciente no hospital maternidade para mim, apure a gravidade da conjunção e mantenha-me informada. Caso haja necessidade da minha presença, informe-me sem delonga.
- Posso adiantar que segundo um enfermeiro, houve um alagamento na recepção, senhora. Acredito não ser nada mais grave que isso, mas irei apurar todos os fatos e lhe retornarei o mais breve possível. Com licença.
Flávia escorou-se na poltrona, pensando na necessidade de ter sido contatada apenas por causa da prisão de um mero olheiro. Ela não conseguia considerar que Neco estivesse apenas tentando chamar a sua atenção, pois queria vê-la, e, aproveitou a decorrência dos fatos.
Flávia atendeu os seus pacientes, sem ter notícias de Heitor, o que começou a preocupá-la, principalmente pelo fato de acreditar não ser nada de grave com os seus negócios, menos ainda com os trabalhadores do local. Passando um pouco do horário do almoço, Heitor foi anunciado por Diane, pelo telefone. Flávia conteve a excitação de saber que ele estava bem, apenas pedindo que o deixasse entrar.
- Desculpe-me a demora para dar-lhe um retorno. O hospital maternidade estava um caos devido ao alagamento, porém, nada que uma boa organização na posição dos enfermeiros não resolvesse, senhora! Tomei a liberdade de coordenar essa organização. Não há mais nada com que a senhora precise se preocupar, se tratando do hospital maternidade. Quanto ao Pombo engaiolado, já providencie tudo que me foi solicitado, ficarei aguardando para levá-la ao Pet Shop.
- Apenas irei terminar alguns trâmites aqui, espere-me no estacionamento.
- Sim, senhora! – Notando que Flávia tivera um leve declínio no tom da sua voz, Heitor sentiu a sua respiração ficar salgada, sentido calafrio, abaixou a cabeça curvando-se ligeiramente. – Perdoe-me ter tomado tal atitude, senhora! Pensei em não tomar o seu tempo, se fiz algo errado, peço que reconsidere a sua decisão. Não irei fazer novamente! Irei consultá-la antes de agir. Perdoe a minha insolência.
Flávia espantou-se com a atitude de Heitor, ela levantou caminhando até a sua direção, quase expressando algum sentimento.
- Erga-se – Ela ordenou parada na sua frente. – Não irei repreender você por ser proativo. Pelo contrário, pensei em recompensá-lo!
O coração de Heitor acelerou, os seus olhos brilharam? – Recompensar-me, senhora?
- Sim, dar-lhe algo em troca por seu desempenho solícito. Algo que você, ou, os seus pais possam estar precisando. Dinheiro talvez?
Heitor não conseguiu disfarçar o descontentamento pela forma de retribuição que Flávia sugeriu.
- Não, senhora! Não estamos precisando de nada no momento.
- Pois bem, pensarei em outra forma de retribuir você. A menos, que você já saiba o que lhe interessa.
- Senhora, posso mesmo dizer o que eu almejo?
- Sem dúvidas, diga!
- Eu quero viajar com a senhora, ficarmos juntos no mesmo quarto, se não for muito atrevimento da minha parte! Desculpe se passei dos imites, mas isso é o que eu realmente desejo.
Flávia conteve a satisfação, virou-se de costa para ele.
- Certo, eu perguntei o que você almejava. Definitivamente não acreditei que fosse algo, se quer, parecido com isso. Mas, como eu prometi, irei cumprir, atendendo o seu desejo. Pode se retirar.
Heitor quase não acreditou na resposta dada por Flávia. Ele retirou-se, deixando Flávia no seu consultório.
Em pouco mais de 10 minutos, Flávia estava no estacionamento.
- Aonde irá, senhora?
- Irei até a minha residência, antes de ir a Pet Shop. Necessito de alguns documentos que estão no meu cofre.
- Sim, senhora! Necessita de mais alguma coisa?
- No momento não. Depois eu verei se terei mais alguma necessidade.
Os dois foram em silêncio até a residência de Flávia.
- Irei esperá-la aqui no carro, senhora.
- Excelente! Não irei me demorar.
Flávia assegurou-se de estar sozinha em casa, subiu até o escritório de Samuel, colocando luvas nas suas mãos, abriu o cofre retirando um papel que estava enrolado no fundo, embaixo de vários documentos e dinheiro, mas em cima da caixa que continha a arma de Samuel. Ela desenrolou o papel, pegou uma pequena quantia do entorpecente, que se apresentava em fatias muito finas, tornou a enrolar, recolocando o papel no mesmo local que ela o encontrara, fechou o cofre. Após retirar as luvas, foi até seu quarto, tomou um banho rápido, trocou de roupas, colocando no bolso do seu blazer, o pequeno saco plástico com a medicação que ela havia tirado do cofre de Samuel.
Flávia foi surpreendida quando descia as escadas.
- Aonde está indo, minha querida?
- Samuel? Que susto. Quando você chegou?
- Estou chegando agora. Acabei de entrar. Fiquei muito curioso ao ver o seu segurança esperando no carro.
- Irei ao hospital, tive um chamado urgente.
- Você precisa descansar, querida! Não volte muito tarde.
- Não, meu querido! Voltarei o quanto antes, mas não me espere acordado. Até mais.
Flávia não deu oportunidade para Samuel responder, saindo rapidamente. Ela chegou, entrando rapidamente no carro, sem ao menos dar tempo para Heitor descer.
- Saiamos logo!