- Ei, madame! A senhora não pode subir aí, não. Pode ser perigoso, passa a vossa pessoa!
Dona olhou para ele sem dar muita atenção, fez um leve gesto, trocando a bolsa de mão, quando, um parça, o Camal, saiu de trás de um muro, chegando junto aos dois.
- Desculpa, senhora, ele é novo aqui, não a conhece, mas pode passar o Neco, já está esperando
Dona entrou sem ao menos bater, tirou o seu chapéu, que combina perfeitamente com seus sapatos e a sua bolsa “Prada”, colocou no encosto da cadeira, que estava próxima, logo em seguida, largou a sua bolsa, no assento da mesma cadeira. Andou em direção a Neco, um homem estilo malandro, com 1,77 de altura, dono si, mas, que sentia o seu coração disparar, ao ver a formosa silhueta revestida, com um vestido marfim, feito sob medida, impecavelmente delineado ao seu corpo perfeito.
Dona parou, olhou na sua volta, e com um ar de descaso, fez uma observação:
- Caprichou na arrumação do local.
Neco, sentindo a suas pernas tremerem, se aproximou de Dona, envolvendo-a em um abraço, puxando-a na cintura, encostando no seu corpo respondeu:
- Faço de tudo para agradar você, minha Dona!
Ela, que, usando o seu salto 12, com os seus 1,64 de altura, encarou-o, estando com o seu rosto colado ao dele, envolveu os seus braços no pescoço de Neco, dando um beijo, que durou pouco mais de 30 segundos.
- Negócios antes do prazer. Quero ver o livro caixa.
- Assim, do nada? Irá deixar-me desse jeito?
- Ficou assim porque quis. Quero ver como estão as vendas.
Neco dirigiu-se até uma escrivaninha que estava encostada em uma parede, abriu uma das gavetas, puxando um caderno estampado com uma capa infantil, entregou-o para Dona, que foleou, parando nas últimas anotações. Ela franziu a testa, encarou Neco com ar de desaprovação.
- Estão faltando anotações aqui!
- O “Patrão” que mandou fazer assim.
Dona levantou levemente a sobrancelha direita, ainda o encarando.
- E quem manda em você? O “Patrão” ou eu?
- É que sabe? Ele...
Dona o interrompeu repreendendo-o com um tom imperativo.
- Ele nada! O negócio é mais meu do que dele! Faça todas as anotações que estão faltando até sábado, ou irei tomar providências.
Dona virou as costas e saiu sem dar oportunidades de Neco falar mais alguma coisa.
- Poxa, eu até mandei limpar o barraco, e ela ainda reclama.
Não deu dois minutos, Dona retornou.
- Como se chama o novo olheiro?
- O que?
- Como se chama o novo olheiro?
- O Pombo?
- Acho que sim, não o conhecia. Mantenha-o por perto. Gostei dele.
Ela saiu novamente. Logo, Camal, estava ao seu lado.
- Hoje não preciso de escolta. – Dona falou isso, pois, não havia saído com dinheiro.
- Sim, senhora! Ficarei aqui, observando a sua saída.
Camal fez deu um sinal para o Pombo, que se posicionou vigiando a saída de Dona.
Ela desceu elegantemente o acesso, chegou ao seu carro preto, com vidros escuros, onde o seu motorista e segurança, Heitor, a aguardava, já com a porta traseira aberta. Ele esticou a mão para ajudá-la a entrar. Dona entrou, se acomodou no banco, puxando um celular, que estava embaixo do acento. Ela ligou-o, logo em seguida fez uma ligação, sendo atendida rapidamente.
- Oi, sou eu! Quero que observe as movimentações do Neco. Acredito que ele está tentando dar uma de esperto para cima de mim.
Sem dar tempo de obter resposta, ela interrompeu a ligação, tornando a desligar o celular e escondê-lo embaixo do acento. Dona sabia que o recado estava dado.
Pouco mais de dez minutos rodando até o centro da cidade, ela olha para Heitor pelo espelho retrovisor.
- Estacione na padaria, quero encomendar alguns salgados e cafés para entregarem às atendentes da clínica.
- Sim, senhora!
Heitor encostou o “Mercedes” enfrente a padaria, que fica apenas uma quadra da clínica, onde Dona é diretora. Ela levou poucos minutos para fazer a escolha, saindo de dentro do estabelecimento, junto com o entregador, que seguiu o caminho a pé.
Devido ao trânsito, ela chegou depois que o agrado já havia sido entregue. Sua secretária, Diane, olhou-a assustada, pegando a agenda na mão.
- Dra. Flávia, bom dia! Não a esperava hoje pela manhã, a sua agenda não tem atendimentos, o seu consultório ainda não está arrumado, pedi para darem prioridade, aos consultórios que terão atendimentos durante o período matutino. Como os seus atendimentos são apenas no período vespertino, não me preocupei. Mas já irei solicitar para priorizarem o seu.
- Não tem problema, irei ficar na sala de reuniões, quando estiver pronto, avise-me.
Flávia entrou na sala de reuniões, sentando-se em sua cadeira, que fica no centro, posta de uma forma que os demais médicos possam vê-la. Ela pegou o seu celular, para ler algum artigo recém lançado. Nem bem conseguiu encontrar um, foi interrompida.
- Querida, não imaginei que viria hoje pela manhã, a sua agenda estava fechada, imaginei que ficaria em casa descansando.
- Não, Samuel, querido! Lembra-se que tenho duas agendas? Na minha agenda particular estava descrito o compromisso de hoje, no período matutino, porém, a criança que eu iria atender em sua residência, foi hospitalizada. Então, não foi necessário ir. Irei vê-lo após terminar as minhas consultas aqui na clínica. O pediatra residente já fez a avaliação, não será necessário deslocar-me até o hospital no momento. E você, querido, não deveria está atendendo?
- Minha consulta foi cancelada, e o próximo paciente ainda não chegou.
- Podemos ir tomar um chá no estabelecimento aqui em frente?
- Sim, irei tirar o meu jaleco. Pode esperar-me na recepção. E, tome cuidado com essa sua agenda particular, poderá ter problemas, e acabar se confundindo algum dia desses.
- Não se preocupe, Samuel.
- Quando casamos, prometi ao seu pai, que cuidaria da clínica, da sua carreira e de você.
- Ora, meu querido, você sabe muito bem que essas preocupações são incabíveis, sou uma diretora exemplar e incontestável.
- E irei zelar para que continue assim! Já retorno para tomarmos o nosso chá, minha querida.
Flávia ficou intrigada com as ordens dadas contrárias às dela, por qual motivo, não deveria ser discriminado todo fluxo de caixa. E isso, seria uma coisa que ela não conseguiria descobrir tão cedo, mesmo que até sábado, estivesse tudo em ordem. Ela teria que ter paciência.