Flávia entrou no consultório de Samuel, que a olhou aparentando ter ficado surpreso.
- O que você faz aqui, minha querida? Não era para estar em viajando?
- Desisti momentaneamente. Tenho que resolver algumas burocracias no hospital. Como fiquei alguns dias afastada devido ao ataque. De fato, estou bastante abalada ainda, não sei precisar se ocorreu de forma a atingir-me. Mas questiono o motivo.
- Não faço ideia, minha querida! Mas ocorreu-me que pode ter sido dirigido a mim, pois, em meio a tantos casos de óbitos que tive nos últimos tempos, não podemos descartar algum pai descontente.
- Creio que isso não seja um fator que haja necessidade de vingança dessa forma, não consigo imaginar alguém que faça um ataque desses para vingar a morte de um filho, Samuel querido! Parece-me mais crime organizado.
- Não seja tola, querida! Crime organizado? Quando começou a assistir romances policias? Peço que deixe-me trabalhar, hoje tenho duas cirurgias à noite, preciso estudar um pouco.
- Sim querido, irei para o hospital daqui a pouco, ficarei incomunicável.
Samuel apenas sacudiu a cabeça, enquanto Flávia se retirava.
Flávia dirigiu-se até o seu consultório, tomou a chave de dentro da capa da sua agenda, caminhou até a estante branca e soltou o fundo da prateleira, rente ao chão, abrindo o seu cofre secreto. Apanhou alguns documentos, tornado a fechar o cofre, recolocando tudo no seu devido lugar, mantendo a aparência de uma simples estante de livros.
Ajeitou a capa da sua agenda com a chave dentro, colocando-a na sua bolsa, a qual foi delicadamente encaixada no seu ombro antes de sair do seu consultório.
Heitor já a aguardava no estacionamento no seu novo “Mercedes”, o qual já está personalizado.
Ela entrou entregando os documentos para Heitor, logo em seguida acomodou-se no banco.
- Preciso atender algumas crianças carentes.
- Senhora, Perdoe a minha intromissão. Mas receio que ainda seja precipitada a sua ida até lá.
- Acredito ter passado tempo suficiente para tudo se firmar novamente.
- Sim, senhora!
Assim que foi avistada chegando, Pombo, desceu rapidamente ao seu encontro. Alcanço-a antes mesmo de ela chegar na metade da subida.
- Descreva-me os fatos ocorridos nas últimas semanas.
- Depois que voltei, as coisas ficaram estranhas nos primeiros dias, colocaram até um parça para me vigiar, eles disseram que era reforço, caso houvesse batida, mas eu sabia que não.
- Quem foi designado para esse trabalho?
- O mano que fica de olheiro na última casa subindo o morro, tá ligada?
- E, o que ocorreu depois que você ficou sozinho?
- O “Patrão” apareceu, furioso. Mandou fechar todas as entradas do morro, quase um toque de recolher por três dias, ficou enfurnado no casarão, só de butuca em tudo. Só entrava e saia quem trabalha registrado legalmente, nem o posto de saúde abriu naqueles dias. Se juntou com o Neco umas duas vezes nesse tempo. Não sei o que os dois conversaram. Quando ele me chamou, ordenou-me, mantê-lo informado constantemente, pois ele foi alvo de algum aviso.
- Perfeito! Algum outro fato que devo saber?
- Acho que não, senhora. A parada foi essa mesma!
Dona acho-o muito interessante interpretando o papel que lhe foi designado. Ela chegou sendo interrompida bruscamente por Camal.
- Dona! O que a senhora faz aqui?
- Como assim, o que eu faço aqui?
- Não esperávamos que viesse sem avisar. Sabe que as coisas estão estranhas nos últimos dias. Não é seguro para a senhora! Tivemos contratempos bem consideráveis depois da prisão do Pombo. Inclusive um incidente ocorrido com o “Patrão”, o que a senhora já deve estar a par.
- Estou ciente dos ocorridos! Mas não me preocupo com isso no momento, quero ver o Neco agora!
- Não acho que seja apropriado no momento, ele está ocupado!
Dona olhou, sem mudar a sua expressão séria e sem sentimentos.
- Eu decido se é apropriado, ou não! Onde ele está?
Camal abaixou a cabeça dando espaço para Dona passar, em seguida apontou para o canto esquerdo, atrás do barraco, onde ficava uma pequena estrutura construída de material, sem janelas, com apenas uma porta estreita, que não tinha maçaneta, e sim, uma corrente grossa chumbado na parede, que passava por um buraco na porta, com um cadeado grande e reforçado, que ficava do lado de fora.
- Quer que eu o chame?
- Não, deixe-o terminar o que está fazendo. Irei esperá-lo lá dentro.
- Preciso informá-la que está tudo sujo e bagunçado. Ele não mandou limpar, pois não sabia que a senhora viria.
- Não há problema, pode se retirar, e avise quando ele terminar.
- Sim, senhora.
Dona entrou no barraco, nem largou a sua a bolsa, se dirigiu direto à escrivaninha, tomando o caderno onde havia descrito as transações dos negócios, percebendo que não estava completo, deduziu ser o caderno do “Patrão”. Subiu em um banco, soltou o forro, tomando nas suas mãos, a caixa que Neco guarda o dinheiro, abriu-a, pegando o caderno com todas as anotações registradas, deu uma rápida olha, percebendo que o volume do dinheiro se aproximava ao descrito nas anotações. Colocou-a novamente no lugar. Esperou cerca de dez minutos, percebendo que Neco iria demora, resolveu ir embora. Ela saiu, chamando Camal, que estava parado, próximo ao barraco.
- Diga ao Neco que semana que vem, eu voltarei, que ele arrume tudo que precisa, inclusive, melhore a letra.
- Mais alguma observação que queira fazer, senhora?
- No momento não.
Dona desceu o morro, sem ao menos olhar para os lados, chegando até o seu carro, Heitor prontamente abriu a porta, sem falar nada, esticou a sua mão esquerda para ajudá-la a entrar. Dona esperou-o entrar no carro.
- Descubra quem está sendo orientado na peça escura.
- Sim, senhora. Mais alguma coisa?
- Leve-me para minha residência!
Heitor seguiu o caminho, percebendo que a sua senhora, estava brava, encostou rapidamente durante o trajeto.
- Senhora, precisa passar em algum lugar antes de chegar na sua residência? Posso fazer alguma coisa para ajudá-la?
Ela olhou pelo retrovisor apenas levantando os seus olhos e sobrancelhas, sem ao menos mover a cabeça, o que para Heitor foi como se ela o tivesse ordenado, calar-se e seguir o caminho ordenado, e foi que ele fez. Chegando na sua residência, ela desceu foi direto para sua banheira, que ela mesma colocou para encher, enquanto aguardava, ela despiu-se pensando em como agir com a decisão de Neco, sem consultá-la para tal atitude.