48 horas

1262 Words
Julian acordou antes do alarme. O quarto ainda estava escuro, o celular vibrando fraco sobre a mesa de cabeceira. Ele esticou a mão sem abrir totalmente os olhos, mais por hábito do que por necessidade. O gesto já era automático: verificar se havia alguma mensagem dela. Nada. A última mensagem de Maya ainda estava ali, do dia anterior: “Cheguei no estúdio. Te falo quando sair.” Ele tinha respondido minutos depois: “Boa sessão.” Visualizada. Nenhuma resposta. Julian se sentou na cama, passando a mão pelo rosto. Ainda eram seis e pouco da manhã. Não fazia sentido cobrar nada. Ela devia estar dormindo, ou já trabalhando. Mesmo assim, a ausência da resposta era um ponto incômodo, como uma música que para no meio do refrão. Foi para o banho tentando ignorar. A água quente descia pelos ombros, mas a mente não acompanhava o corpo. Ele se pegou imaginando o estúdio onde ela estaria. Um lugar que ele não conhecia. Uma luz que não era a dele. Uma lente que não era a sua. Pensou que era ridículo. Eles não tinham nenhum acordo. Nenhuma promessa. Nenhuma definição. Não eram um casal. Não eram nada. Mas ele sentia como se algo estivesse… fora do lugar. Como se Maya tivesse saído do campo de visão. E ele odeia perder o foco. No caminho para o trabalho, abriu o i********: sem pensar. Rolou o feed distraído, até que o nome dela apareceu. Um story. Maya em frente a um espelho grande, câmera profissional pendurada no pescoço. Um sorriso discreto. Legenda simples: “Long day.” Julian sentiu o estômago contrair. Não era ciúme ainda. Era algo mais sutil. Uma sensação estranha de estar vendo algo que não era para ele. Como se tivesse sido colocado do lado de fora de uma cena que, de algum modo, ele achava que lhe pertencia. Quem estava tirando aquela foto? Quem estava atrás da câmera? Ele fechou o aplicativo. Tentou se concentrar no trânsito, no dia, na agenda cheia. Tinha dois ensaios marcados, uma reunião com um cliente importante, edições atrasadas. Mas tudo parecia distante. A cabeça voltava sempre para o mesmo ponto: Ela não respondeu. No estúdio, Julian trabalhava no automático. Dava instruções, ajustava luz, escolhia ângulos. As modelos obedeciam, riam, faziam poses. Tudo funcionava como sempre. Mas por dentro, ele estava fora de ritmo. Pegou o celular mais vezes do que admitiria. Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem nova. Maya seguia em silêncio. Ao meio-dia, quase sem pensar, digitou: “Como está indo?” Ficou olhando para a tela por alguns segundos. Apagou. Guardou o celular. Não queria parecer ansioso. Não queria ser o primeiro a puxar assunto de novo. Não queria se mostrar disponível demais. Mas a verdade era simples: ele já estava. À tarde, mais um story. Agora ela aparecia sentada no chão do estúdio, apoiada na parede, rindo de algo fora do enquadramento. O tipo de riso espontâneo que ele conhecia bem. Aquele que surgia quando ela esquecia da própria imagem. Julian sentiu algo diferente dessa vez. Uma fisgada. Quem fez ela rir assim? Quem estava ali? Ele ampliou a imagem, como se pudesse encontrar pistas escondidas no reflexo do vidro, na sombra ao fundo, em qualquer detalhe que denunciasse a presença de outro homem. Não havia nada. Só ela. E, ainda assim, não era dele. A constatação veio como um pensamento seco: Ela está vivendo algo que eu não estou vendo. E isso, para Julian, era quase insuportável. No fim do expediente, o estúdio ficou vazio. As luzes apagadas, o silêncio pesado. Ele sentou na cadeira giratória, rodando devagar, celular na mão. Abriu a conversa com Maya de novo. A última mensagem ainda era dele. Visualizada. Ignorada. Ele sabia que era irracional. Sabia que ela podia estar ocupada. Sabia que não havia obrigação alguma ali. Mas o corpo não acompanhava a lógica. O corpo só sabia de uma coisa: ela estava ausente. E ele sentia essa ausência como um espaço físico. Como se algo tivesse sido retirado do ambiente sem aviso. Digitou outra mensagem: “Tudo bem aí?” Apagou de novo. Respirou fundo. Jogou o celular na mesa, como se isso fosse resolver. Não resolveu. À noite, em casa, a sensação piorou. O apartamento estava silencioso demais. Sem música, sem TV, sem distração. Ele abriu uma garrafa de vinho, serviu uma taça, mas m*l bebeu. Pegou a câmera. Começou a revisar fotos antigas. Ensaios com Maya. Olhares. Detalhes. Gestos. Ele conhecia cada imagem de cor. Sabia exatamente como ela ficava quando relaxava. Quando ficava nervosa. Quando se sentia observada demais. Quando se sentia desejada. E agora alguém mais estava vendo tudo isso. Não como memória. Como presente. A ideia o incomodava de um jeito quase físico. Julian percebeu, com certo desconforto, que não era apenas saudade. Era a sensação de estar sendo substituído, ainda que isso não fizesse sentido. Ele não tinha sido substituído. Mas tinha sido temporariamente removido. E isso bastava. Às dez e pouco da noite, não aguentou. Digitou: “Sumida.” Dessa vez não apagou. Enviou. A mensagem ficou ali. Entregue. Sem resposta. Minutos passaram. Dez. Vinte. Trinta. Nada. Ele largou o celular no sofá, levantou, foi até a janela. A cidade seguia normal. Pessoas passando, carros, luzes. O mundo não tinha parado só porque Maya não respondia. Mas, para ele, algo tinha saído do eixo. Voltou ao sofá. Pegou o celular de novo. Mensagem visualizada. Sem resposta. Julian sentiu o peito apertar. Agora não era mais só silêncio. Era silêncio consciente. Ela tinha visto. E escolheu não responder. Essa escolha mesmo que simples, mesmo que banal ativou algo perigoso dentro dele. Uma mistura de frustração, desejo e orgulho ferido. Pensou em escrever outra coisa. Algo mais longo. Mais direto. Pensou melhor. Não escreveu nada. Deitou no sofá, celular sobre o peito, olhando para o teto. E percebeu, com uma clareza incômoda: Ele não queria apenas falar com Maya. Queria recuperar o acesso. A madrugada chegou sem sono. Julian virou de um lado para o outro, mente agitada, corpo cansado. Pensava nela no estúdio, na luz, no outro fotógrafo, nas conversas que ele não ouvia, nos olhares que não eram para ele. Pensava, principalmente, no fato de que Maya não devia estar pensando nele. E isso o deixava inquieto de um jeito novo. Pela primeira vez, não era ele quem estava no controle da narrativa. Não era ele quem decidia o ritmo. Ele estava… esperando. E odiava isso. O celular vibrou às duas e vinte da manhã. Ele abriu na mesma hora. Maya: “Desculpa. Dias intensos. Quase não peguei no celular. Falo com você amanhã?” Julian leu a mensagem três vezes. Era simples. Normal. Sem drama. Mas, para ele, soava como algo muito maior. Falo com você amanhã. Amanhã. Não agora. Não imediatamente. Não quando ele queria. Ela estava ditando o tempo. Julian ficou olhando para a tela, dedo suspenso sobre o teclado. Podia responder qualquer coisa. Algo casual. Algo tranquilo. Mas a verdade já estava clara demais dentro dele. Ele tinha passado o dia inteiro esperando por ela. E, pela primeira vez, percebeu que não estava mais apenas interessado. Estava envolvido. Estava afetado. Estava… deslocado do próprio eixo. Digitou: “Claro.” Enviou. Colocou o celular na mesa de cabeceira. Apagou a luz. Mas demorou muito para fechar os olhos. Porque agora ele sabia: Não eram mais só encontros. Não era mais só atração. Não era mais só jogo. Maya tinha entrado em um lugar dentro dele que ele ainda não sabia nomear. E esse lugar começava a pedir mais do que ele estava disposto a admitir.
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