Zona morta

1414 Words
Maya avisou como quem não queria transformar aquilo em evento. A mensagem chegou no meio da tarde, enquanto Julian revisava fotos no estúdio. “Vou viajar a trabalho. Dois dias. Projeto fora da cidade. Provavelmente sem sinal.” Era uma frase simples. Direta. Sem subtexto aparente. Julian leu uma vez. Depois outra. Depois uma terceira, como se estivesse procurando algo que não estava escrito. Sem sinal. Ele respondeu quase imediatamente: “Boa viagem.” Dois pontos. Frase curta. Controle absoluto da própria reação. Por fora, nada aconteceu. Por dentro, algo começou a se reorganizar. Julian tentou voltar ao trabalho. Abriu a próxima pasta, ajustou níveis de cor, ampliou uma imagem qualquer. Mas a mente não acompanhava os movimentos. Era como se parte da atenção tivesse sido retirada do presente e direcionada para um espaço vazio. Não era saudade. Ainda não. Era uma espécie de suspensão. Como se algo que sempre estivesse ali, mesmo silencioso, tivesse sido desligado. Ele fechou o notebook mais cedo do que o normal e foi para casa. No caminho, abriu o celular sem perceber e entrou na conversa com Maya. A última mensagem era dele. A última resposta era dela. Nenhum visto. Nenhuma atualização. Nenhum sinal. Julian pousou o celular sobre a mesa da sala e ficou alguns segundos apenas olhando para o aparelho, como se esperasse que algo surgisse por iniciativa própria. Nada. Ele percebeu algo incômodo: não sentia falta de Maya. sentia falta da possibilidade de contato. Isso o incomodou mais do que gostaria de admitir. Tentou racionalizar. São só dois dias. Você não depende disso. Você tem uma vida antes dela. Mas a mente não respondia aos próprios argumentos. Abriu uma garrafa de vinho. Serviu uma taça. Bebeu sem saborear. Ligou a televisão, trocou de canal três vezes sem registrar o conteúdo. Pegou um livro e leu a mesma página quatro vezes. Nada entrava. Tudo retornava para o mesmo ponto silencioso: Ela não estava acessível. E isso era novo. Julian sempre soubera onde encontrar as pessoas. Mesmo quando não estavam fisicamente presentes, estavam disponíveis: redes, mensagens, respostas, rastros. Maya não. Ela tinha simplesmente saído do campo. Como se tivesse atravessado uma fronteira invisível. Naquela noite, ele sonhou com ela. Mas não em um cenário íntimo. Não em algo romântico. Sonhou que estava em um lugar enorme, uma espécie de galeria vazia, cheia de portas. Em cada porta havia uma foto de Maya, mas todas estavam desfocadas. Ele abria uma por uma. E nenhuma levava a lugar algum. Acordou com o coração acelerado. Olhou o celular automaticamente. Nenhuma notificação. Primeiro dia completo sem Maya. Julian passou a manhã inquieto. Não conseguia se concentrar em tarefas simples. Começava algo e abandonava no meio. Caminhava pela casa sem objetivo claro, como se estivesse procurando algo que não tinha localização física. Às dez da manhã, abriu o i********: dela. Última postagem: três dias atrás. Nada novo. Às onze, abriu de novo. Nada. Ao meio-dia, entrou no perfil do fotógrafo com quem ela estava trabalhando. Reconheceu o nome. Profissional respeitado. Fotos recentes, bastidores de ensaios, equipe sorrindo. Mas nenhuma imagem dela. Julian sentiu algo estranho. Alívio? Ou frustração? Não soube identificar. O problema não era imaginar Maya com outro homem. Ele não sentia ciúme clássico. Não era posse física. Era algo mais abstrato e mais profundo. Ele queria saber onde ela estava no próprio mundo interno. Se estava pensando nele. Se estava indiferente. Se estava mudando. E não tinha como acessar. Essa ausência de dados começou a incomodá-lo de forma real. À tarde, tentou fotografar. Pegou a câmera, saiu para a rua, buscou cenas aleatórias. Pessoas andando, luz atravessando prédios, sombras projetadas em paredes. Normalmente aquilo o acalmava. Dessa vez, não. Ele tirava fotos como quem executa um gesto mecânico. Sem intenção estética. Sem curiosidade. Guardou a câmera depois de vinte minutos. Não adiantava. Voltando para casa, percebeu algo que o deixou desconfortável: Ele estava estruturando o próprio dia em torno da possibilidade de uma mensagem. Não era que estivesse esperando o tempo todo. Era que tudo estava sendo feito até que algo acontecesse. Como se o presente fosse apenas intervalo. E isso não combinava com a imagem que tinha de si mesmo. Julian sempre fora o centro das próprias decisões. Nunca orbitara ninguém. Nunca sentira a necessidade de atualizar-se sobre outra pessoa para se sentir estável. Agora, sentia-se… incompleto. E odiava essa sensação. À noite, abriu a conversa com Maya mais uma vez. Digitou: “Tudo bem aí?” Apagou. Digitou: “Boa viagem.” Já tinha escrito isso. Digitou: “Quando tiver sinal, me avisa.” Apagou. Ficou olhando para a tela vazia. O problema não era o que dizer. Era admitir para si mesmo que precisava dizer algo. Ele largou o celular sobre a mesa, como se estivesse tentando afastar um vício. — Ridículo… — murmurou. Mas não era ridículo. Era sintoma. Enquanto isso, a centenas de quilômetros dali, Maya estava em um hotel simples, sentada na cama com o notebook aberto e a câmera emprestada apoiada ao lado. O ensaio tinha sido intenso, longo, profissional. O fotógrafo era competente, respeitoso, objetivo. Nenhum clima estranho. Nenhuma tensão. Nenhum jogo. Era só trabalho. E, ainda assim, em vários momentos do dia, Maya se pegou pensando em Julian. Não como desejo. Como referência. Quase como se estivesse se perguntando silenciosamente: “O que ele faria com essa luz?” “Ele enxergaria esse ângulo?” “Ele acharia isso interessante?” Isso a incomodava. Porque Julian não estava ali. E, mesmo assim, estava presente. Ela pegou o celular algumas vezes ao longo do dia. Sem sinal. Parte dela sentia alívio. Parte sentia desconforto. Porque não sabia se estava mais tranquila ou mais inquieta sem ele. Naquela noite, deitada na cama, Maya percebeu algo com clareza incômoda: Ela estava sentindo falta de alguém que ainda não fazia parte oficialmente da vida dela. Não era saudade de rotina. Não era falta de costume. Era ausência de diálogo interno. Com Julian, ela pensava mais. Se observava mais. Se questionava mais. E agora, sem ele, tudo parecia… silencioso demais. Do outro lado, Julian m*l dormia. Acordava de madrugada sem motivo. Olhava o celular. Nada. Voltava a deitar. A mente criava cenários sem controle: Maya rindo com outra pessoa. Maya esquecendo dele. Maya vivendo algo que ele não fazia parte. E, em nenhum desses cenários, havia dor romântica. Havia exclusão cognitiva. Ele não estava sendo traído. Estava sendo irrelevante. E isso era intolerável. No segundo dia, Julian percebeu que estava realmente diferente. Mais irritado. Menos paciente. Com dificuldade de focar. Um cliente ligou e ele respondeu de forma seca. Uma assistente fez uma pergunta simples e ele reagiu com impaciência. Não era raiva. Era desorganização interna. Ele não estava acostumado a sentir algo sem nome. E aquilo não tinha nome. Não era amor. Não era paixão. Não era ciúme. Era uma espécie de necessidade de continuidade. Como se a própria identidade estivesse ligada à existência de um ponto externo. Maya. À noite, quase quarenta e oito horas depois, o celular finalmente vibrou. Mensagem. Dela. “Voltei. Sinal péssimo lá. Sobrevivi.” Julian sentiu algo físico no peito. Não era alegria. Não era alívio simples. Era como se um sistema interno tivesse sido religado. Ele respondeu quase imediatamente: “Como foi?” Ela demorou alguns minutos. “Cansativo. Produtivo. Diferente.” Julian ficou olhando para a palavra. Diferente. Digitou: “Você está bem?” Ela respondeu: “Estou. Mas estranhamente senti sua falta nas discussões.” Julian sentou-se na cama, o corpo inteiro reagindo. “Nas discussões?” "Sim. Eu pensei várias vezes: Julian teria outra leitura disso.” Ele fechou os olhos por um instante. Aquilo não era flerte. Não era provocação. Era reconhecimento. E isso o atingiu mais forte do que qualquer beijo. Julian respondeu: “Eu passei esses dois dias tentando fingir que isso não me afetava.” Alguns segundos. “E?” — ela escreveu. Ele respirou fundo antes de responder. "Não funcionou.” Do outro lado da tela, Maya ficou em silêncio. Sentiu algo estranho no estômago. Não era culpa. Não era euforia. Era a percepção clara de que algo estava se deslocando. Ela escreveu: “Eu também pensei em você mais do que esperava.” Julian leu a frase três vezes. E então percebeu, com clareza perturbadora: A ausência dela não tinha diminuído o vínculo. Tinha solidificado. Agora não era mais sobre desejo. Era sobre necessidade emocional silenciosa. E isso era exatamente o tipo de coisa que ele nunca soubera controlar.
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