A Casa do Dono

1755 Words
SAYURI Dois dias depois da festa, minha mãe chegou em casa (na casa do primo Márcio) com um sorriso que eu nunca tinha visto. Era aquele sorriso de quem ganhou na mega-sena, sabe? Dentes todos de fora, olho brilhando. Ela entrou batendo a porta, jogou a bolsa no sofá-cama e gritou: — Arruma tuas coisa, Sayuri! Hoje a gente se muda daqui! Eu tava sentada no chão desenhando num caderno velho, levantei a cabeça sem entender nada. — Mudar pra onde, mãe? Ela deu uma risada alta, daquele jeito que já tava virando normal. — Pra casa do meu homem, ué! O Jogador falou que a gente pode ir hoje mesmo. Acabou esse inferno de dormir espremida aqui nesse barraco. Eu senti o estômago afundar. Jogador. Aquele homem da laje. Aquele olhar que não saía da minha cabeça nem quando eu fechava o olho pra dormir. — Tá falando sério? — minha voz saiu baixinha, quase sumindo. — Claro que tô falando sério, menina! Ele é o dono do morro, Sayuri. Dono! A gente vai morar naquela casa enorme, lá em cima, com piscina, um quarto pra cada uma, tudo do bom e do melhor. Acabou de comer miojo frio e dividir banheiro com dez pessoa. Eu não consegui falar nada. Só fiquei olhando pra ela, sentindo um nó na garganta. Vergonha. Muita vergonha. Porque eu sabia como minha mãe conseguia essas coisas. Eu já tinha onze anos, quase doze, não era mais burra. Ela abria as pernas pra qualquer um que desse um teto e esses dias eu vi ela sair do banheiro e depois o Márcio saiu também. Só que agora ela ia abrir as pernas pro cara mais perigoso do morro inteiro. Mas eu não tinha escolha, né? Nunca tinha. Naquela mesma tarde um cara de moto veio buscar a gente. Colocaram as malas naquelas caixas laterais da moto e eu fui sentada na garupa de outro cara que eu nem conhecia. Subimos o morro inteiro de moto, o vento batendo na cara, o funk tocando alto lá embaixo. Quanto mais subia, mais bonita ficava a vista. Dá pra ver o mar lá longe, brilhando. Eu nunca tinha imaginado que ia morar num lugar que dava pra ver o mar da janela. A casa dele era… diferente de tudo que eu já tinha visto. Não era mansão de novela, mas era grande pra c*****o com vista pro morro. Muro alto, portão de ferro automático, dois pitbulls pretos latindo do lado de dentro. Tinha varanda, piscina (pequena, mas tinha), três andares, tudo pintado de branco com detalhes azul. Parecia casa de rico de verdade. Quando o portão abriu, ele tava lá. De pé, encostado na coluna da varanda, braços cruzados, só de regata preta e short de tactel. Eu desci da moto com as pernas tremendo. De perto era pior. Muito pior. Ele era ainda mais alto do que eu lembrava, quase dois metros, o peito largo, os braços cheios de tatuagem que subiam até o pescoço. Tinha uma virgem maria no braço esquerdo, um dragão no direito, nome de gente que eu não conhecia escrito em letra gótica. O cheiro dele chegou antes dele falar: perfume caro, misturado com bebida e um cheiro de homem que eu não sabia explicar. Me deu um arrepio. Minha mãe correu pra ele como se fosse namoradinha de escola. — Amor! Olha quem eu trouxe! — ela se pendurou no pescoço dele. Ele não abraçou ela de volta. Só colocou a mão na cintura dela, seco, e olhou pra mim por cima do ombro dela. — É essa a menina? — voz grave, rouca, parecia que saía do fundo do peito. — É, ué! Minha filha, se chama Sayuri. Bonitinha, né? Esses traços asiáticos puxou do pai dela. Eu abaixei a cabeça. Queria sumir. Sentia o rosto queimando de vergonha. Ele soltou minha mãe e deu um passo pra frente. Parou na minha frente, tão perto que eu conseguia ver o suor escorrendo no pescoço dele. Eu era pequena, o topo da minha cabeça m*l chegava no peito dele. — Olha pra mim — ele mandou. Eu levantei o olho devagar. Encontrei aqueles olhos pretos de novo. De perto era pior. Parecia que ele via tudo que eu tava pensando. — Aqui em casa tem regra — ele falou baixo, mas firme. — Respeita horário, respeita quem mora aqui, não mexe no que não é teu. E o que você ouve aqui morre aqui. Entendeu? Eu engoli em seco e fiz que sim com a cabeça. — Fala. — Entendi — minha voz saiu um fiapo. Ele ficou me olhando mais uns segundos, depois virou as costas e entrou. Só isso. Nem oi, nem boa tarde, nada. Mas aquele “entendeu?” ficou ecoando na minha cabeça o dia inteiro. A gente foi se instalar no segundo andar. Eu ganhei um quarto só meu, com cama de casal, um guarda-roupa enorme novinho, até TV tinha. Nunca tive um quarto só meu na vida. Quando meu pai era vivo eu dormia no mesmo quarto que eles. Mas eu não conseguia ficar feliz ali. Eu ficava ouvindo os barulhos da casa. Moto chegando e saindo, gente falando alto no quintal, música o tempo todo. E ele… ele quase não falava comigo. Passava por mim no corredor e só fazia um aceno com a cabeça. Às vezes eu sentia o olhar dele me seguindo quando eu passava pra pegar água na cozinha. Minha mãe começou a mudar rápido. Primeiro era só cerveja e baseado. Depois começaram a aparecer uns pó branco na mesa da sala. Ela ficava acordada até de manhã, rindo alto, falando sozinha. Quando o efeito passava, virava um demônio. Gritava comigo por qualquer coisa. Uma noite depois do jantar eu tava no quarto fazendo lição quando ela entrou do nada, olhos vermelhos, cabelo bagunçado. Eu já aprendi a não respirar quando ela entra no meu quarto. — Cadê meu isqueiro, sua pirralha desgraçada?! — Eu não peguei nada, mãe… Ela me deu um tapa na cara que fez minha cabeça rodar. — Não mente pra mim, Sayuri! Eu caí sentada na cama, segurando o rosto. Comecei a chorar baixinho, não pela dor mas pelo susto, pelo medo. Foi aí que a porta abriu com força. Ele entrou. Só de short, sem camisa, o peito subindo e descendo rápido. Tava puto. — Que p***a é essa, Elizabeth?! Minha mãe virou pra ele, tentando fazer carinha de coitada. — Ela pegou meu isqueiro, amor… — Eu não peguei! — eu gritei, chorando. Ele olhou pra mim, depois pra ela. Deu um passo pra frente e segurou o braço da minha mãe com força. — Eu já falei. A menina não apanha aqui dentro. Não quero ver tu batendo nela. Nunca mais. Entendeu? Minha mãe tentou se soltar. — Ela é minha filha, eu faço o que eu quiser! Ele apertou mais o braço dela. Eu vi o rosto dela contorcer de dor. — Enquanto ela tiver debaixo do meu teto, tu não toca um dedo nela. Tá ouvindo? Toca de novo e tu vai embora daqui sem dente. É o último aviso. Ele soltou ela com tanta força que ela tropeçou e caiu sentada no chão. Ele saiu do quarto batendo a porta. Eu fiquei lá, chorando, segurando o rosto. Minha mãe me olhou com ódio puro. — Sua v********a… vai ver só. Ela saiu cambaleando. Eu fiquei sozinha, tava me tremendo inteira. Naquela noite eu não dormi. Fiquei pensando nele. No jeito que ele entrou no quarto, no jeito que segurou ela, no jeito que falou que eu não ia apanhar. Não era carinho. Não era amor de pai. Era… posse. Como se eu fosse um negócio que ele não queria que quebrasse. Mas, pela primeira vez desde que meu pai morreu, eu me senti… protegida. Nos dias seguintes eu comecei a observar ele mais. Ele nunca sorria pra mim, nunca falava mais que o necessário. Mas eu percebi umas coisas: - Quando minha mãe gritava comigo no corredor, ele aparecia do nada e mandava ela calar a boca. - Quando eu tava na cozinha fazendo um lanche, ele entrava, abria a geladeira, pegava uma cerveja e ficava me ajudando enquanto bebia. - Uma vez eu tava na piscina (eu nem sabia nadar direito) e ele ficou na varanda só olhando, braços cruzados, até eu sair da água em segurança. - Quando eu descia pra escola, ele já tava no portão com a caminhonete ligada, esperando. Nunca falava “bom dia”. Só abria a porta e esperava eu entrar. Eu comecei a reparar no corpo dele. Nos braços grossos, nas tatuagens que se mexiam quando ele mexia o braço. No jeito que a regata colava no peito suado. No cheiro que ficava no ar quando ele passava. Eu sabia que era errado. Eu era criança. Mas eu não conseguia parar. Minha mãe piorava a cada dia. Já não era mais só pó. Era pedra. Ela ficava dias sem dormir, falando sozinha, coçando o braço até sangrar. Às vezes sumia a noite inteira e voltava com homem diferente. Ele via tudo e não falava nada. Só olhava com nojo. Uma vez eu ouvi os dois brigando na sala. — Tu tá se acabando, Elizabeth. Eu não quero essa merda dentro da minha casa. — Então me manda embora, seu filho da p**a! — Eu mando. Mas tu sabe que a menina fica. Eu tava escutando atrás da porta. Meu coração disparou. A menina fica. Ele falou como se eu fosse algo que ele não queria perder. Depois daquela briga, minha mãe começou a me odiar de verdade. Me chamava de v***a, de p*****a, dizia que eu tava roubando o homem dela. Eu não entendia nada. Eu era uma criança. Mas ela sabia alguma coisa que eu ainda não sabia. Eu comecei a ter medo dela. Muito medo. Mas dele… dele eu não tinha mais tanto medo. Eu tinha medo do que ele era. Do que ele fazia. Das armas que eu via com os seguranças. Dos gritos que às vezes vinham lá de baixo à noite. Mas perto dele… perto dele eu me sentia segura. Ele era perigoso pra c*****o. Todo mundo tremia na frente dele. Mas por algum motivo que eu não entendia ainda, perto daquele homem eu respirava aliviada. E eu sabia, lá no fundo, que isso era só o começo. E ele, ele ainda nem tinha começado a olhar pra mim de verdade. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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