Sayuri — A Festa

1296 Words
Sayuri Eu passo o dia inteiro com a Ingrid na minha cola como se fosse chiclete no asfalto quente. A mulher não cala a boca nem por um segundo. Depois que as minhas amigas chegam — Daiane, Ju, Lari e mais duas da escola — aparece até cabeleireira e maquiadora que o Jogador contratou pra gente. Eu fico sentada na cadeira da varanda enquanto o cara escova meu cabelo e faz umas mexas roxas nas pontas, corta uma franja que eu quis experimentar, mas na hora que vejo no espelho já me arrependo pra c*****o. Fico com cara de criança de 14 anos de novo. — Ficou lindo, Sayuri! Tá moderna! — as meninas gritam animadas. Ingrid, do lado, não para: — Ai, gente, que fofo! Parece uma bonequinha japonesa de anime! Eu amo japonês, já fui na Liberdade duas vezes, sabia? Comprei um kimono original… Eu sorrio forçado enquanto o cheiro doce do perfume dela me dá enjoo. É um perfume daqueles que gruda na roupa, na alma, em tudo. Daiane, num momento que Ingrid vai no banheiro, chega no meu ouvido: — Sayuri, essa mulher é uma s*******o do c*****o. Quem convidou essa chata? — Ela mesma se convidou — eu respondo baixinho, revirando os olhos. A noite chega voando. Quando eu me olho no espelho do quarto, quase não acredito. O vestido preto brilhante que eu comprei escondido do Jogador é decotado na frente e nas costas, soltinho no corpo, daqueles que marca tudo sem precisar apertar. Não uso sutiã. E, pra provocar mesmo, não uso calcinha também. O tecido roça na pele de um jeito que me deixa arrepiada. Salto alto preto, perfume que eu borrifei no pescoço, nos pulsos, atrás das orelhas. O colar de coração com diamante brilha no decote. A franja nova emoldura os olhos maquiados de preto esfumado, batom vermelho chamativo, afinal já tenho dezoito. Eu me sinto poderosa. Mulher de verdade. Respiro fundo e desço as escadas. Ele tá na sala, encostado no balcão improvisado de bebidas, copo de uísque na mão, conversando com o Juninho. Quando me vê, engasga. Literalmente engasga. Dá um pigarro forte, vira o resto do copo de uma vez. Os olhos pretos não desgrudam de mim nem por um segundo. Percorrem do cabelo, passam pelo colar, descem pelo decote, pela cintura, pelas pernas, voltam pro rosto. Eu sinto o olhar dele queimar na pele. Os convidados já tão quase todos ali. Umas trinta pessoas, nada exagerado. Amigos da escola, algumas meninas e meninos do morro que eu conheço desde piveta, os seguranças mais próximos dele relaxando um pouco. Som de funk rolando alto, luzes coloridas piscando, garçom passando com bandeja de coxinha, bolinho de queijo, cerveja gelada, drinks coloridos. A piscina tá iluminada, reflexo dançando no teto. Eu chego perto dele, tentando parecer segura. — O que você fez no cabelo, Sayuri? — ele pergunta na hora, voz baixa, mas carregada. — Quis mudar. Você nunca deixava eu fazer nada grande, agora tenho dezoito… Ele me interrompe, segura meu braço com força, me puxa um pouco pro canto. — Eu ainda mando em você, Sayuri. E esse vestido? Eu não falei nada daquela roupa de manhã, mas droga, esse vestido não é apropriado, se você se inclinar vai mostrar os s***s ou a b***a. Os olhos dele queimam. Raiva pura. A mão aperta meu braço até doer. — Eu tô fazendo dezoito… — eu sussurro, a voz misturando dor com medo daquela fúria que eu conheço bem. — Troca o vestido e tira esse batom. Chama muito atenção. Ele passa o polegar no meu lábio inferior, tentando esfregar o batom. O toque é áspero, quente. Eu sinto um arrepio, mas ao mesmo tempo uma lágrima escorre no canto do olho. Ele percebe na hora. Os olhos suavizam um segundo, ele me solta como se tivesse se queimado. — Desculpa, Sasa… — ele passa a mão no cabelo curto dele, recém cortado. — Só… não dá moral pra esses playboy, tá? Ele pega outro copo de uísque da bandeja de um garçom que passa e vira tudo de uma vez. Depois some no meio da galera. Daiane aparece do nada, põe a mão no meu ombro. — Ele brigou com você por causa da roupa? — Sim. E não gostou do cabelo, nem da maquiagem. Como sempre. Eu não tiro os olhos dele, que já tá lá no fundo, perto da piscina, conversando com dois caras do comando. — Sayuri, ele não é seu pai de verdade… mas talvez só esteja com ciúmes. Te criou como filha, né? Agora tu é uma mulher... — A forma de cuidado dele sempre foi essa, Daiane. Controlar o que eu visto, o que faço no cabelo, no rosto. Ele podia ter elogiado, mas prefere me por pra baixo. Quer saber? Eu vou trocar de roupa. Eu viro pra subir a escada, já p**a da vida. — Não, amiga! Fica assim! É teu aniversário de dezoito, p***a. Você tá linda pra c*****o. Esquece ele e vamos curtir. Já viu quem tá ali perto da piscina? O Felipe. Ela aponta com a cabeça. Felipe tá lá, de camisa social branca aberta no peito, calça jeans, sorrindo pra um grupo de meninas. Ele é o tipo de cara que todo mundo na escola baba: pele morena tipo bronzeado, alto, forte, cabelo loiro ondulado, sorriso de comercial de pasta de dente. Semana passada, numa festa que a gente escapuliu, ele tentou ficar comigo. Eu neguei na hora. Não sei por quê. Ou sei, né? — O Jogador disse pra eu não chegar perto de playboy… — f**a-se ele, Sayuri. Hoje é teu dia. Vamos aproveitar. Ela me puxa pela mão e a gente vai até lá. Felipe me vê e abre um sorriso enorme. Vem direto, me dá beijinho no rosto dos dois lados, cheiro de perfume caro. — Tá gata demais, Sayuri. Nem te reconheci. O cabelo ficou maneiro pra p***a. — Obrigada, Lipe. Você também tá bonito. Charmoso. A gente ri. Ele me puxa pro meio da roda, me oferece um drink. A festa rola animada: gente dançando colado no meio da sala, funk pesado, luzes piscando, risada alta. Eu danço com as meninas, bebo um pouco, rio bastante. O Jogador some a festa toda. Só aparece rapidinho na hora do parabéns — todo mundo cantando, bolo enorme de três andares com velas, eu soprando, ele do lado com cara fechada — tira uma foto obrigado e some de novo. Nem fica pra cortar o bolo. Eu finjo que não ligo. Danço mais. Bebo mais. O Felipe não desgruda de mim. Me puxa pra dançar, mão na minha cintura, corpo colado no meu. Eu deixo. Por que não? Hoje eu posso. Em determinado momento ele me pega pela mão. — Vem cá, quero te mostrar uma coisa. Ele me leva pro canto mais escuro da casa, atrás da escada que desce pro quintal da lateral. Ali a música fica abafada, a luz é só um reflexo vermelho distante. Ele me encosta na parede devagar, corpo grande cobrindo o meu. Uma mão no meu rosto, polegar roçando meu lábio. — Você tá ainda mais linda hoje, Sayuri. Linda pra c*****o. Eu sinto o coração disparar. O cheiro dele é bom, o corpo é quente. Ele se inclina devagar, os lábios quase encostando nos meus. E é exatamente aí que a sombra aparece. O Jogador surge do nada, como se tivesse saído das trevas. Alto, largo, olhos pretos brilhando de raiva pura. Ele para a dois metros da gente, braços cruzados, maxilar tão travado que parece que vai quebrar os dentes. Felipe congela. Eu congelo. E o silêncio que cai ali é mais alto que qualquer funk do mundo. ADICIONE NA BIBLIOTECA COMENTE VOTE NO BILHETE LUNAR INSTA: @crisfer_autora
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