Caminho

476 Words
O sol já estava alto quando Rosa chamou Elisa. — Se arruma, menina. Vamos lá falar com o Lobão antes que ele saia. Elisa ajeitou João no colo, que brincava com a alça da bolsa dela. Trocou a fralda, arrumou o cabelo em um r**o de cavalo simples e vestiu uma roupa discreta. O nervosismo apertava seu estômago. — Tia… precisa mesmo levar o João? — perguntou, insegura. — Pode levar. Ele gosta de criança. — Rosa respondeu com naturalidade. Elisa não sabia se isso a tranquilizava ou a deixava mais nervosa. Elas saíram da casa e começaram a subir por uma viela estreita. O calor era mais intenso, o movimento também. Pessoas conversavam, crianças brincavam, motos passavam com rapidez. João olhava tudo com curiosidade, os olhinhos atentos. Elisa, ao contrário, observava com cautela. À medida que subiam, o ambiente mudava. Os olhares ficavam mais atentos. O silêncio surgia em alguns pontos. Até que ela viu. Homens parados nas esquinas. Alguns com rádios na mão. Outros… armados. Elisa parou sem perceber, o corpo inteiro ficando rígido. O coração disparou. — Tia… — sussurrou. Rosa olhou para ela e entendeu imediatamente. — Continua andando. — disse com calma. Elisa tentou, mas seus olhos não conseguiam ignorar. Uma arma longa apoiada no peito de um rapaz. Outro sentado com um fuzil encostado na parede. Tudo tão exposto, tão natural para quem estava ali. Era diferente. Assustador. Ela apertou João contra o peito. — Eu… eu nunca vi isso assim… — sua voz saiu quase tremendo. Rosa colocou a mão nas costas dela, guiando-a. — Vai se acostumar. A frase caiu pesada. Se acostumar? Elisa não sabia se queria. Elas continuaram andando. Um dos rapazes armados cumprimentou Rosa com respeito. — Bom dia, dona Rosa. — Bom dia, meu filho. Os olhos dele passaram por Elisa rapidamente, avaliando. Depois voltaram ao normal. Aquilo fez Elisa sentir-se ainda mais deslocada. — É a sobrinha? — perguntou outro. — É sim. — Rosa respondeu. — Seja bem-vinda. Elisa apenas assentiu, sem saber o que dizer. Mais alguns passos, e chegaram a uma área mais aberta. Havia uma construção maior, pessoas entrando e saindo, motos estacionadas. O clima ali era diferente. Mais tenso. Mais silencioso. Rosa diminuiu o passo. — É aqui. Elisa sentiu o coração bater na garganta. — Aqui…? — A boca. A palavra soou forte. Ela engoliu seco. João começou a mexer, inquieto, e Elisa o abraçou mais forte. Seus olhos percorriam tudo, tentando absorver. Os homens, as conversas baixas, as armas, o respeito no ar. Ela nunca tinha estado em um lugar assim. Nunca imaginou que estaria. — Fica tranquila. — Rosa disse baixinho. — Só vamos falar com ele e pronto. Elisa assentiu, mas seus pés pareciam pesados. Enquanto avançavam, um dos homens falou no rádio: — A Rosa chegou. Elisa ouviu. E soube. Ele estava ali.
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