CAPÍTULO 1: O COTIDIANO DE LUCAS

1012 Words
A manhã de Lucas começa bem antes do sol nascer. Seu relógio biológico, afinado com o ritmo da natureza, o desperta sem necessidade de alarme, e ele se levanta com a mesma serenidade com que o vento agita as folhas das árvores. Sua casa, simples e acolhedora, exala o aroma de terra úmida e café recém-passado. É nesse ambiente que ele se prepara para mais um dia de trabalho. Cada gesto é metódico, quase ritualístico: ele arruma a mochila com a marmita e a garrafa d'água, calça as botas empoeiradas ,amarando cada cadarço com precisão e veste a camisa desbotada pelo sol e pelo tempo, testemunha de incontáveis estações. A caminhada até a lavoura vai além de um mero trajeto; é uma imersão na natureza que o envolve. Seus passos são firmes e ritmados, como batidas do coração da terra. Com a enxada nas mãos , ferramenta que se tornou extensão de seu corpo , ele avança com a familiaridade de quem conhece cada curva, pedra e sulco do caminho. Não precisa de mapas; suas mãos calejadas e o cheiro de terra que delas emana são guias infalíveis. A paisagem ao redor é seu livro de histórias, e ele decifra cada detalhe: a inclinação da luz, o murmúrio de um riacho, o canto dos pássaros que anunciam a aurora. Sua pontualidade não é uma obrigação, mas uma harmonia com o ciclo do dia. O rosto de Lucas, bronzeado pelo sol, se contrai em sulcos de concentração profunda quando ele reflete. Essa expressão revela um intelecto prático, que soluciona os problemas da roça com soluções diretas, sem recorrer a grandes teorias. Ele não desperdiça energia com preocupações desnecessárias. Sua pele marcada pelo sol narra jornadas sob o céu aberto. E quando sorri, é um sorriso simples e genuíno, que ilumina suas feições. No entanto, é em seu olhar que reside a essência de sua alma: olhos que brilham como um pasto orvalhado ao amanhecer, carregando a paciência de quem mede o tempo pelas safras, a sabedoria de quem entende a natureza e a resiliência de quem vive em sintonia com ela. UM CORAÇÃO LEAL E UM CORPO RESILIENTE Embora sua vida seja dominada pelo trabalho, o interior de Lucas abriga uma complexidade que o torna singular. Solteiro e sem filhos, ele não se define pela ausência, mas pela presença daqueles que o cercam. A perda precoce dos pais deixou uma lacuna, mas ele a preenche com os laços inquebráveis com seus irmãos, uma conexão que nem distância nem tempo podem romper. Seu olhar intenso atravessa as conversas, buscando sentido nas entrelinhas. Não se contenta com o superficial; anseia pela profundidade em cada interação, em cada palavra dita e, sobretudo, nas omitidas. Ele sorri com reserva, como quem guarda uma piada interna, mas quando ri, é um riso sincero e contagiante, que ecoa e enche o espaço. O corpo de Lucas é testemunho de sua resiliência: ágil e decidido, cada movimento carrega propósito e eficiência, forjados na rotina diária. Ele ostenta a força acumulada de anos de trabalho manual, com ombros largos que já carregaram sacos de café e ferramentas, simbolizando a dureza de sua vida. As marcas na pele formam um diário de dias ao ar livre, registrando memórias do sol, do vento e da chuva. Sua presença impõe respeito sem esforço, uma autoridade silenciosa nascida da autoconfiança e da autenticidade. Seus cabelos, que mudam de tom conforme a luz do dia, parecem absorver a essência da paisagem ao redor. A profundidade de Lucas não se restringe ao olhar. Ele aprecia discussões francas e prefere o peso de um argumento sólido à leveza de conversas triviais. Guardião de confiança, ele preserva segredos com discrição, e sua lealdade quase silenciosa para com quem ama é uma de suas maiores virtudes. Sua paixão pelo que acredita impulsiona-o, e ele demonstra uma empatia intensa ao perceber a necessidade alheia. Lucas não foge do trabalho árduo nem das emoções complexas: entrega-se de corpo e alma ao que valoriza, seja um projeto na roça ou uma amizade verdadeira. Ele cultiva poucas amizades autênticas ,aquelas que resistem ao tempo e à distância e se dedica a elas com a mesma intensidade que aplica à sua terra. O SILÊNCIO REFLEXIVO E A CONEXÃO NO FIM DO DIA A mente de Lucas é um refúgio de reflexão. Ele pondera longamente antes de falar, como um artesão que lapida cada palavra. Sua sabedoria não se manifesta em discursos eloquentes, mas em gestos concretos e na precisão de suas poucas, porém impactantes palavras. Observador nato, ele absorve o mundo em silêncio e prefere demonstrar o que sabe em vez de apenas falar sobre isso. A forma como lida com desafios consertando uma cerca ou plantando uma semente é sua verdadeira linguagem, revelando sua essência por meio de ações. Ao entardecer, com o sol se pondo, a jornada de Lucas chega ao fim. Ele retorna para casa, exausto, mas satisfeito com o dia produtivo. O caminho de volta é uma celebração quieta, pontuada por cumprimentos aos vizinhos, em sinal de respeito mútuo. A casa, que o recebeu ao amanhecer, agora o acolhe com a promessa de repouso. Ele toma um banho rápido para remover a poeira e o suor acumulados. A refeição simples e nutritiva é um ato de autocuidado, recarregando suas energias. Por fim, ele se acomoda no sofá, rendendo-se ao cansaço. É nesse momento que se conecta ao mundo além de suas terras. Com o celular em mãos, ele mergulha no universo digital, um contraste fascinante com sua vida analógica. Navega pelas redes sociais, acompanhando novidades, histórias de amigos e familiares. De repente, algo o captura: um reel de humor surge na tela, e um sorriso amplo e sincero escapa de seus lábios. Sua risada ecoa pela casa, dissipando o fadiga e a solidão, provando que, por trás da força e da quietude, há um homem que encontra alegria nas pequenas coisas. Assim, entre a terra e a tela, entre o silêncio da noite e o som de uma gargalhada, Lucas equilibra sua existência: um homem de raízes profundas e emoções autênticas.
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