20. O ADEUS DE LUCAS

712 Words
Lucas foi para a cama com o gosto do beijo ainda na boca, repetindo mentalmente cada segundo como quem revisa uma vitória proibida. Deitado, olhou pro teto e imaginou variações: e se tivessem seguido até o fim? E se a noite tivesse virado madrugada e manhã? Sorriu sozinho, um sorriso que vinha dos ossos leve, bobo, elétrico. Pela primeira vez em muito tempo, foi dormir com a cabeça cheia de possibilidades em vez de trabalho. Clara, por outro lado, foi para a cama como quem atravessa um campo minado: cada passo é um cálculo. O beijo com Lucas ficou preso entre o desejo e a culpa. Havia calor e arrepios, e também a lembrança c***l de Otávio nos braços de Marina. Pela madrugada, abriu os olhos várias vezes, pensando nos filhos, no que seria melhor para eles, no que seria mais suave para si mesma. No fim, decidiu perdoar, uma última vez, jurou para si e pela estabilidade das crianças e pela esperança remendada de um casamento que, secretamente, também queria acreditar que podia curar. Antes de dormir, Lucas mandou uma mensagem. Lucas (às 00:23): Ainda tô com seu gosto. Dormiu bem? Clara leu, sorriu por um segundo e respondeu com distância. Clara (00:35): Boa noite. Lucas sentiu o ar sair do balão, mas fingiu leveza. No dia seguinte foi trabalhar com um sorriso que não cabia no rosto. Na lavoura, os colegas notaram: parecia o mesmo de sempre, só que mais brilhante. Algumas horas depois, Lucas tentou de novo. Lucas (11:12): Queria te ver de novo. A gente poderia tomar um café depois do serviço? Clara viu a mensagem, engoliu o nó na garganta, mas não respondeu. No fim da tarde, sentou com Otávio para a conversa que vinha adiando. Clara: Eu decidi, começou ela, firme . Vou perdoar você. Mas é a última vez, Otávio. Não me teste. Nem com Marina, nem com ninguém. Otávio, visivelmente aliviado, tentou tocar na mão dela, mas ela afastou. As regras são, continuou Clara, ditando com voz cortante ,terapia de casal, você reduz horas no escritório e noites fora, e corta qualquer contato com Marina. Otávio engoliu, assumiu um ar quase submisso. Tá bem. Eu aceito tudo. E você… por favor, pare de falar com o tal Lucas. Não quero fantasmas no nosso apartamento. Clara hesitou, pensando nos filhos, no cansaço de recomeçar, e acabou cedendo. Clara: Tudo bem. Não vou mais falar com ele. Mais tarde, quando checava o celular para confirmar mil coisas, Clara viu a mensagem vinda de Lucas. Respirou fundo e escreveu, as palavras saindo num tom que tentou ser neutro e definitivo. Clara (20:04): Otávio e eu decidimos tentar mais uma vez. Vou precisar parar de falar com você. Lucas leu. A sensação foi como uma porta batida na cara. Ele respondeu com franqueza que doeu por honesta. Lucas (20:10): Entendo. Só quero que você seja feliz, de verdade. Se algum dia precisar, sabe onde me achar. Então, como quem fecha um capítulo para não sofrer repetições, Lucas escreveu mais uma frase curta: Lucas (20:11): Pra nossa saúde mental, adeus Clara , vou te bloquear .A simplicidade da despedida a machuca mais do que um milhão de palavras. E bloqueou. Do outro lado, Clara sentiu uma pontada curta e aguda, como um corte limpo: a perda de uma possibilidade, o fim de um pequeno risco. Otávio, sentado na sala, percebeu o alívio dela no rosto e sorriu, aliviado. Clara, porém, ficou com um silêncio novo dentro do peito , menos cheio de dúvidas e mais pesado de consequências. Dias seguiram com as regras em prática. Otávio tentou cumprir; Clara tentou confiar. Mas a tensão vibrava em cada gesto: olhares que demoravam demais, mensagens apagadas rápido demais, terapias em que as palavras pareciam ensaiadas. Lucas, virou memória que cantava baixinho. Para Clara, a escolha trouxe uma paz instável: possível estabilidade para os filhos e um preço para sua liberdade emocional. Para Lucas, uma decepção respeitada ,ele fechou a porta de modo definitivo, só restando o gosto do beijo como lembrança e a decisão de não tentar dissolver um lar que já havia escolhido um caminho. Perdoaram-se por enquanto, mas a ferida ficou à mostra, lembrando que perdão sem mudança verdadeira é curativo temporário e tempo dirá se o remendo aguenta.
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