Clara já tinha tomado sua decisão: preservar o casamento significava, se preciso, cortar qualquer laço com Lucas. Ela não era vilã nem mulher promíscua; era apenas humana , carente, vulnerável e, naquele momento, Lucas tinha sido seu porto seguro onde Otávio não estava. Resolveu pôr um ponto final. Respirou fundo, preparada para o silêncio que viria.
Mas o destino tinha outro capítulo.
Numa manhã em que Otávio saiu apressado e esqueceu o celular em casa, o telefone começou a tocar. Clara não costumava mexer no aparelho dele; havia linhas que não se deveria cruzar. Ainda assim, a insistência de Marina do trabalho bateu contra sua curiosidade e sua solidão. Clara cedeu e atendeu, pensando que seria mera formalidade.
Do outro lado, a voz de Marina explodiu como um raio: “Otávio, meu amor, por que demorou tanto pra atender? Hoje não vou poder ir trabalhar, nosso encontro vai ter que ser adiado. Mas já sabe… esse mês a gente esquentou tanto, né?” O “meu amor” soou como um punhal.
Houve um silêncio pesado. A respiração de Clara ficou presa na garganta. Antes que pudesse reagir, ouviu Otávio murmurar, confuso: “Fala alguma coisa, o que está acontecendo?” Mas era uma voz que não a via uma voz que a traiu.
Clara ficou imóvel, sem saber se ria, se chorava, se vomitava a verdade. Um turbilhão: alívio pela confirmação que sua intuição já lhe sussurrava; dor por cada riso que agora sabia ser emprestado a outra; vergonha por ter amado, por ter se permitido. Sem palavras, desligou o telefone com as mãos trêmulas e guardou a cena como se queimasse.
Quando Otávio voltou para casa, decidiu fingir normalidade. Entrou, disse que havia esquecido o celular, foi tomar banho. Naquele instante, o apartamento se transformou numa câmara de eco: água caindo no azulejo, passos distantes, e Clara, sentada, com o coração pesado como chumbo. Ela observava o rastro dele , o vapor do banho, a toalha caída, a i********e que agora parecia ter vazado por frestas invisíveis.
Tudo ali: o silêncio combinado, as palavras não ditas, a traição semi‑arborizada no display do celular. Clara se perguntava quem era mais culpada , quem havia traído primeiro: o marido, com seus encontros escondidos, ou ela, que fora buscar em outro peito o que faltava no seu lar. Mas não havia tempo para respostas fáceis. Havia apenas um nó no peito que apertava mais a cada respingo no box.
Ela conseguiu apenas fingir normalidade quando Otávio saiu do banho; um “tudo bem” ensaiado, um sorriso curto, máscara afivelada com dedos que tremiam. Por dentro, um furacão. Por fora, a casa continuava arrumada; o jantar, intocado; a vida, aparentemente íntegra.
E ali, sozinha com seus pensamentos e com a consciência pesada, Clara percebeu que aquele telefonema não era apenas um incidente: era uma rachadura que ameaçava dividir definitivamente o que restava de seu casamento , e também de sua própria paz.
Lucas, por sua vez, virou sombra no trabalho. Indo e vindo como se fosse parte da lavoura, recebia olhares e perguntas que devolvia com um sorriso curto: “Tô bem.” A voz saía mansa, a resposta vazia.
No fim do dia, a rotina era uma cena repetida: sanduíche no micro-ondas, banho rápido, a cama que o engolia. O celular ao lado ,às vezes aberto nas conversas, às vezes num impulso para digitar, sempre terminando com o polegar tremendo apagando a mensagem antes de enviar.
Ele não lembrava de chorar, só de replay: a risada dela num áudio, um “se diverte” escrito sem cobrança, as fotos que ela mandava dali, leves e despreocupadas. Guardava esses gestos como fósforos na caixa ,acendiam memórias e também queimavam.
No caminho para o trabalho ,os colegas cochichavam, faziam piada. Ele ria junto. Em casa, fazia silêncio. Clara era todo o resto: distante, presente em lembranças, inacessível. E ele, sem querer, seguia em frente igual boi que caminha, olhos fixos no horizonte que não diz nada.
Clara puxa a leva de roupas, o tambor da máquina cheirando a amaciante. No bolso da calça de Otávio, um papel dobrado ,o bilhete de motel, o nome e a hora rabiscados com pressa. Por um segundo a cena poderia ser choque, poderia ser bomba. Ela abre a mão, lê de novo, e o papel cai no cesto sem fazer barulho.
Não vem raiva; vem uma surpresa curiosa, como se tivesse esperado o bilhete e, ao encontrar, percebesse que aquilo já não a afeta. O que pesa é outra coisa: a ausência das longas conversas, as trocas da meia-noite que ela sabia que não eram só palavras. Clara sente, com uma clareza calma, que prefere recuperar o fio com Lucas a entrar em qualquer briga.
Ela pega o celular, escolhe um vídeo com uma mensagem subliminar e envia para Lucas como se fosse uma mensagem que diz: "Quero continuar conversando com você." O vídeo não é um pedido dramático; é um bilhete, uma mensagem subliminar para quem sabe ouvir.
Do outro lado, no meio da lavoura, no trabalho, o celular de Lucas vibra. Ele vê na tela a notificação: Era de Clara. O coração acelera antes mesmo de tocar. Tudo ao redor parece afinar: a conversa do colega vira ruído, a luz do teclado parece maior. Sem pensar demais, ele abre a câmera, segura a respiração, e com um sorriso trêmulo, abre o vídeo e entende a mensagem , procura outro vídeo , envia para Clara como resposta silenciosa e clara: ele também quer conversar.
O envio é um pequeno ato de coragem: dois vídeos, dois mundos que se buscam por mensagens que dizem mais palavras.
O que vem a seguir? Você saberá nos próximos capítulos