O carro de Lucas ainda estava quente quando eles atravessaram o portão do seu quintal. O sol já estava se pondo e céu estava alaranjado e o perfume das flores do jardim misturava‑se ao cheiro terroso da grama recém‑cortada. O quintal era simples: um gramado quadrado, um pequeno canteiro de ervas perto da cozinha e uma varanda de madeira com duas cadeiras de vime que rangiam quando alguém se sentava.
Lucas fechou a porta atrás deles com um sorriso meio bobo, meio nervoso. “Fica à vontade,” disse, enquanto caminhava para a cozinha. Pegou uma chaleira, e pôs água no fogo. Fazia um café da tarde com gestos práticos, como se aquilo fosse o ritual mais natural do mundo. Clara encostou no batente da cozinha, observando-o: a maneira como ele franzia a testa quando concentrado, as mãos firmes na chaleira. Era íntimo e doméstico, e por isso mesmo incendiava.
Ele trouxe as xícaras para a varanda, colocou um pires com biscoitos entre eles, e os dois se sentaram frente a frente. A luz dourada delineava o perfil dela; Lucas sentiu de novo aquela vontade súbita e antiga: Puxar a Clara e beijá-la com vontade . Ele fez uma piada curta; ela riu. O riso de Clara era como faísca.
Sem pensar muito ,ou talvez pensando demais ,Lucas levantou-se, pegou a mão dela e a atraiu para perto. Foi um movimento rápido: um passo adiante, dois dedos na cintura dela, e ela já estava encostada na parede da casa, o corpo dela contra a madeira aquecida pelo sol. O gesto dele não foi delicado como um pedido: foi urgente, decidido. Clara arregalou um pouco os olhos, surpresa, e por um segundo o tempo diminuiu.
Lucas encostou a testa na dela antes de fechar a distância. O beijo veio forte, faminto, daquele tipo que equilibra saudade e pressa ,os lábios dele encontrando os dela com vontade. As mãos de Lucas seguraram o rosto de Clara, depois deslizavam por suas costas; ela retribuiu, entrelaçando os dedos na nuca dele. O mundo reduziu-se ao gosto do café e ao calor do corpo colado ao dela. Eles ficaram um bom tempo assim: se beijaram, se acariciaram, as respirações se confundindo.
Quando Lucas tentou seguir mais adiante, deslizando a mão por baixo da blusa dela num gesto instintivo, Clara recuou. Não afastou o rosto, não riu, só puxou-se alguns centímetros para trás e apoiou a palma da mão no peito dele como um freio suave.
Clara (sussurrando, olhos fixos nos dele): Devagar, Lucas.
Lucas (ofegante, ainda colado a ela): Desculpa. Eu me deixei levar.
Clara sorriu leve, firme: Eu não disse não. Só... agora não.
Houve ali, entre a parede, a tarde morna e o cheiro do café , uma mistura de desejo e respeito. Eles ficaram quietos, as mãos ainda tocando, descobrindo um ritmo que não exigia pressa. O quintal seguia tranquilo, as sombras alongando-se, e a promessa não dita pendia no ar: havia tempo para tudo, inclusive para fazer aquilo direito.E esse parecia não ser ainda o momento para Clara .